1. Há algumas músicas que ouvi na vida que me marcaram. Não é a letra, não - é a melodia. E o segredo delas, eu revelo: é o tom grave, o uso do baixo e da bateria, da percussão, cujo efeito em minha "alma" é avassalador - daí a música evangélica atual ter perdido completamente o poder de me atrair, aliás, me causa repulsa, com seus graves estridentes, sua gritaria descontrolada, credo em cruz! Acho que determados tons têm um poder - ao menos em mim - de me transportar para um mundo feérico. Se medido, talvez se detectasse uma alteração nos níveis de gás carbônico em meu sangue - o que tem por conseqüência a alteração do estado de consciência (a isso chamamos "estado de adoração", nas igrejas). De vez em quando, gosto de ouvi-las. Como agora.
1. Os tons graves me deprimem, e, como inseto encantado, bato-me contra sua luz, deprimindo-me até o prazer da lágrima. In the Air Tonight, de Phil Collins, foi um de meus feitiços de adolescência, magia a me transportar para o mundo dos zéfiros, dos trasgos, das quimeras, das peles adolescentes das ninfas d'água. E, então, eu não sabia o nome dessa patologia doce e perigosa, que arrasta você como o canto de sereias, e você vai, anda sob as águas, Pedro enfeitiçado, até que afunda, afunda, e não volta mais...
2. ... até que a virada dos tambores arranquem você da hipnose, e você volta, e vê Bel ao seu lado, sorrindo, doce e morena, quase negra como seus olhos negros e seus nigérrimos cabelos, e você descobre que a lágrima é boa, mas a pele dela é mais suave...
Claustro e corpo
Osvaldo Luiz Ribeiro
Monge de mim, meu claustro são as pedras da minha carne, cortadas a frio, nas pedreiras do tempo da infância, cada bloco uma dor na negra noite que não voltará. A sombra e a bruma me acompanham, e foge o sol. Não há janelas, senão um fosso, por meio de cuja boca não vejo o fundo, e escadas que me chamam, que eu vá, que eu desça, que eu fique lá. O silêncio é suportável, e as paredes, frias. Não preciso dos olhos, que fecho, da boca, que fecho, de ouvidos, que fecho. Úteis me são as mãos, na parede, no chão, na boca do fosso, dentro de mim. Lá de fora, vem-me uma voz antiga, voz da cobra e do lagarto, uma voz de visgo, quente e úmida, de língua a cheirar o ar – eu sou a presa... Eu abro os olhos, os ouvidos e a boca. Querem-na as mãos. Range a porta de madeira, reclama a morta de séculos. Entra a luz, que cega, sim. Mas eu quero esta cegueira, de crer que ouço a voz dela, de crer que toco o corpo dela, de crer que estou vivo, de fingir que há luz. Monge de mim, reluto entre o fosso do chão do claustro, pra onde me quer levar a minha alma, e a luz da voz dela, que me arrasta pelos cabelos, que me agarra pelas mãos, que me hipnotiza os olhos, que me seduz os ouvidos, serpente divina, que me tem a seus pés.
Peroratio é o principal blog de de Osvaldo Luiz Ribeiro. O que se quer aqui é voar. Voar, ora como condor, ora como águia, ora como beija-flore. E mesmo como inseto, que seja. Voar. Rasgar as linhas de todos os quadrados - e sem medo do sol.
Aqui discutirei sobre tudo que me toca e tocar, sobre tudo que traz em si o cheiro da carne humana - como quereria o ogro de Bloch. Mesmo os deuses - ah, não sabias?! - cheiram à carne humana. Daí - teologia, filosofia, história, política, fenomenologia da religião, arte, cultura. Ratio, oratio, peroratio.
O quê? Queres voar, também?, entrar na formação? Também tu? E tens asas? E tens coragem? Ah, mas se tens asas e coragem, observa bem, e verás que, no fundo, tens os pés, já, a flutuar no espaço...
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