terça-feira, 15 de novembro de 2016

(2016/128) Quatro cenas após a morte


Vida após a morte: quatro cenas.

Eventualmente, um ou outro detalhe das cenas abaixo precisem de alguma correção, porque não é exatamente fácil tratar do tema, quando se trata de discernir o que se cria antes do cativeiro babilônico da elite judaíta. Dito isso, às cenas...

I. Os israelitas e abraaamitas/judaítas criam em um mundo com três andares: mundo dos deuses, mundo dos vivos e mundo dos mortos. Acreditam em trânsito de cima para baixo: seres do mundo dos deuses podem descer ao dos vivos, e os vivos, quando morrem, vão para o dos mortos. Raramente, mas não é impossível, vivos vão para o mundo dos deuses (Elias, Enoque), e os mortos sobem ao mundo dos vivos. Não se trata de alma, não se trata de inferno. Trata-se de passar para o outro lado, e se trata de um quarto do grande cômodo da existência.

II. Eclesiastes, e acho que só ele, cria que só há dois andares: o dos deuses e o dos vivos. Neste, a vida é efêmera e, quando se morre, acabou. Não há mundo dos mortos, só pó, e a vida retorna para a divindade, que a deu e sustentou. Não há identidade fora do corpo, de sorte que, morto o corpo, acabou a pessoa.

III. Porque era persa, sendo judeu, Paulo acreditava em ressurreição, mas não em alma. Quando tenta catequizar os gregos, riem dele, porque, ao contrário dos gregos, que consideram o corpo a prisão deletéria da alma, que suporta a identidade e eternidade da pessoa, o judeu de Jesus não cria em alma, mas, crendo nas teologias persas, adaptadas pelos judeus, e aguardando o Juízo e a Restauração da criação, ensinava a ressurreição do corpo, sem a qual a fé que ele mesmo pregava não valia um centavo, um grama de prata suja...

IV. E tem você. Você é um híbrido. Sabe aquele chiclete em que vinham figurinha de bichos misturados: tubacão, mistura de tubarão e cão? Pois é. Você não é o judeu da cena I, não é o judeu da cena II. É Paulo? Não. Você é uma cruza de Paulo com neoplatonismo... Como Paulo, você acredita em ressurreição. Mas, como os coríntios, você acredita em alma, aquele fantasma que vive dentro do corpo. Como você crê em Gasparzinho, imagina que, ao morrer, Gasparzinho tem que ficar em algum lugar, esperando a ressurreição do corpo. Os teólogos escrevem livros de 700 páginas para discutir se o fantasma que você é dorme esse tempo todo ou fica cantando para Jesus. É muito séria a questão, bem se vê... No dia D, o corpo ressuscita, a alma, pluft, entra de novo dentro dele, e você está de volta... Você é bem sincrético, não?

Dá pra escrever outra cenas, porque essas não esgotam todas as crenças disponíveis. Essas, todavia, são as que tocam diretamente o povo bíblico, cuja fé nunca é bíblica, todavia...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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