domingo, 29 de março de 2015

(2015/350) Ler contra a vontade de quem escreve

É preciso ler "contra" a vontade de quem escreve.

Difícil de entender?

Bem, a leitura tem dois momentos: entender exatamente o que quem escrever disse e entender as intenções dele com isso que escreveu...

São dois momentos distintos, mas devem estar juntos o tempo todo: jamais abrir a guarda diante de um texto - jamais!

Um exemplo (e eu nunca vi a preocupação quanto a isso nos comentários ao livro bíblico): Hebreus. Logo no primeiro verso, lê-se que Deus, tendo outrora falado por meios dos profetas, naqueles dias, que eram os últimos, falou a eles, isto é, à comunidade para quem o autor do livro escreve, através do Filho: "falou-nos por meio do Filho".

Não abrir a guarda - jamais!

Como assim "por meio do Filho"?

Aceitemos a Cristologia, vá lá. Quando Hebreus é escrito, já vão 75 anos que o Filho morreu. O Filho não está mais disponível para falar à comunidade...

Mas Deus fala por meio do Filho, é o que o autor diz. Bem, então, quem é o Filho? Quem é que, na prática, fala à comunidade? Óbvio - como sempre! -: ele, o clero, eventualmente (alguém duvida?), o autor da carta...

Diversionismo político-religioso. O sujeito fala à comunidade como se fosse o Filho. Não, ele não se confunde diretamente com o Filho, mas ele se apresenta como o portador da voz do Filho, o intérprete de sua vontade. Ele lê os rolos e fala - e, falando ele, é o Filho falando...

E a comunidade ouve isso, aceita isso e se engana com isso...

Não vá, todavia, o leitor ser tão ingênuo...













OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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