quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

(2015/178) Uma questão de Ética ou de Epistemologia: "um professor que não usa 'Deus' como sujeito"

Quando você observa, vê a mesma coisa: o professor nunca se pronuncia como se pudesse tratar "Deus" como um sujeito-objeto, como um dado, como uma realidade líquida e certa. Ele sempre se refere unicamente à crença que esse ou aquele tem em "Deus", a crença que as pessoas, aqui e ali, têm em "Deus".

Quantos fenômenos há aí?

Quero indicar para pelo menos três.

Um, externo e dois, externos.

O externo é essa obviedade gritante: o professor jamais, em nenhum circunstância, enquanto dá a sua aula, pronuncia-se tendo por sujeito "Deus". 

E os dois fenômenos internos?

Penso que é aqui que há limites para algumas abordagens que trabalham apenas com as manifestações dos fenômenos, mas não com a teleologia envolvida: observa-se o que o sujeito faz, mas não por que ele o faz. O que ele faz é meramente descritivo - e até em Direito não poderia ser adequadamente analisado sem que se soubesse a razão pela qual ele faz isso que faz.

Vamos voltar ao caso.

Um sujeito nunca fala de "Deus" em suas aulas porque ele decidiu-se por uma questão de Ética. Ele entendeu que: a) o espaço é acadêmico, b) o espaço é laico, c) o espaço é ocupado por pessoas que sustentam diferentes tipos de fé religiosa; d) o espaço é ocupado por pessoas que não possuem qualquer tipo de fé religiosa. Por tudo isso, ele, ético, recolhe sua crença e se expressa tão somente por meio do recorte fenomenológico: pessoas creem em "Deus".

Estão vendo que ele é um... crente? Um crente que se limita a si mesmo em respeito aos outros. É tao somente por uma questão de Ética que ele não faz de sua sala de aula uma EBD de luxo. Mas, para todos os fins, ele é um crente.

Mas há um outro professor. Diferentemente do professor anterior, ele não é crente. Ele tem uma posição epistemológica agnóstica. Ele sabe que não se pode tratar "Deus" como um sujeito porque, definitivamente, "Deus" não é um sujeito. Ele sabe que todo aquele que crê em "Deus" está entregando-se a um mito e, todavia, não pode saber, porque a condição para esse tipo de relação entre credor e crido é a alienação do jogo. Por isso, por uma questão de Epistemologia, ele nunca trata "Deus" como sujeito. 

Como podem ver, dois fenômenos internos completamente diferentes. Um fenômeno externo, aparentemente igual. Quem permanecer na observação do fenômeno externo dirá que aqueles dois professores são iguais. Quem aprofundar-se teleologicamente vai perceber que não, que cada professor faz o que faz por razões completamente diferentes.

(...)

Quando você decide por uma prática científico-acadêmica, você tem todo direito de recortar a realidade e estudar uma fatia dela. Mas não tem nenhum direito de considerar que essa fatia que você recortou e que estuda é a única porção disponível da realidade, porque, convenhamos, sequer a realidade tal qual ela realmente é está na sua fatia.








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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