sábado, 31 de janeiro de 2015

(2015/146) Da análise das letras mortas

A leitura não política de Nietzsche é um equívoco. Se for programática, é uma fraude. Se for por ignorância, uma tragédia. Todo discurso, todo, sem nenhuma exceção, está - por princípio - vinculado a um programa político, para o qual todo o discurso proferido trabalha e à luz do qual se expressa. No caso de N. é mais ainda do que isso: ele é político, seu discurso sustenta-se sobre posições políticas e está ininterruptamente a serviço de uma ideologia aristocrata e higienista.

Quando até se utiliza das palavras que N. usou, mas de modo completamente descasado do sentido político que N. dava a seus discursos, você comete um equívoco monstruoso a referir-se a isso que você está dizendo como se N. tivesse dito isso. Equívoco monstruoso. N. pode até ter usado essas palavras, como o Antigo Testamento até usa as palavras que o Novo Testamento diz que ele usa, mas N. não disse absolutamente o que você está dizendo que ele disse, tanto quanto o Antigo Testamento nunca disse o que o Novo Testamento diz que ele disse.

Por isso é um projeto absolutamente equivocado a pretensão de desvincular um texto de seu discurso (também político) original. Porque o leitor inexoravelmente vai manejar as palavras do jeito que lhe convém, dar a elas a alma que lhe convém, e dirá que isso é análise do discurso. Não é: é lego com palavras mortas.

(...)

Pelo amor de Deus: o nome não é Análise das Palavras, é Análise do Discurso - se você não pretende recuperar o discursor ali posto por quem o pôs, chame de outra coisa o exercício lúdico que você faz, mas, por favor, NUNCA, de análise do discurso.









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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