quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

(2015/139) Todo domingo ele vai

Todo domingo ele vai.

Todo domingo.

Ele é uma pessoa boa. Ele sabe que o monoteísmo constitui um pecado incurável, uma afronta ética à consciência religiosa de todos os povos. Ele gostaria de fazer algo a respeito... Mas é um só. É impossível. Então, ele vai todo domingo...

Mas é uma pessoa boa. Ele não gosta quando o pastor insinua e, pior ainda, afirma claramente, que as religiões dos outros são falsas. Não gosta, não. Quando o pastor mete o diabo no meio da religião dos outros, então, as suas tripas tremem de constrangimento. Mas ele mesmo não diz nem faz uma coisa dessas. Ele é uma pessoa boa, que apenas vai todo domingo...

Ser uma pessoa boa tem seu preço: discordar, por exemplo, da interferência religiosa nas questões cívicas e civis nacionais. A questão do aborto, a questão gay, a questão das drogas, a questão bioéticas. Não é com o voto dele que o pastor orienta as demais ovelhas a considerar que qualquer tentativa de democratizar a questão é anti-divina. Por ele, essas questões sequer seriam tratadas religiosamente. Mas o que ele pode fazer? Ele não é o pastor. Ele não é uma má pessoa. Só vai todo domingo.

Quando a vida passar, e ele perceber que, sendo a boa pessoa que foi, fez número e deu apoio tácito a tudo quanto ele dizia ser ruim, continuará a dizer para si mesmo - eu era uma pessoa boa. Não fui eu.








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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