sexta-feira, 30 de maio de 2014

(2014/544) Como nós somos produto e produtores de nossas sinapses - e como isso interfere em cada instante de nossa vida


Quando nascemos, lá estão os neurônios. São da casa dos bilhões. Mas os neurônios, sozinhos, não são grande coisa. O poder deles está na sua conexão, na sua relação. Cada um pode relacionar-se com milhares de outros, próximos ou distantes. Essas conexões entre neurônios são chamados de sinapses...

As sinapses começam a se formar no útero ainda, durante a vida fetal e suas experiências. São poucas, comparativamente ao que vai ocorrer depois que o feto vier ao mundo na forma, agora, de um bebê. Começa aí a verdadeira maravilha humana...

Por meio das experiências do bebê, depois da criança, as sinapses começam a se formar. Cada rede sináptica no mundo é única. As experiências de amor, de afeto, acolhimento, carinho, estabelecem constelações de sinapses que, amanhã, serão acessadas todas as vezes que a memória for demandada - as sinapses se repetem, como se fosse aquela vez...

As experiências traumáticas, o desamor, o abandono, a fome, a solidão, elas também estruturam a formação sináptica, exatamente da mesma forma como seria se a criança recebesse amor, mas, naturalmente, guardando a ferro e fogo a marca daqueles traumas...

Não há regra para a formação das sinapses, salvo essa: a história da criança. Quanto mais complexa a sua história, mais complexa a rede sináptica. Quanto mais simplória, menos complexa a rede. Ao final, trilhões de conexões - trilhões, senhores.

São essas conexões sinápticas - e não os neurônios em si - as responsáveis pela complexidade do pensamento humano. É também por meio dela que a consciência humana vai operar, conquanto não exclusivamente, mas, a rigor, fundamentalmente. Eu sou o que minhas conexões sinápticas me permitem ser. Quando elas desligarem, eu acabo.

O que considero de profunda relevância e significado é que a história vivida molda o cérebro. As nossas experiências inconscientes, da mais tenra infância, as nossas experiências pré-conscientes, na infância mais nova, e as experiências conscientes, da fase infantil mais avançada são possibilitadas pelo aumento de complexidade da rede sináptica - mas, observem, permanece dependente do que ocorrer durante a formação da rede.

O ser humano é um animal sináptico. Por isso, hermenêutico. Mas o fundamento é sináptico. E a rede sináptica se forma "antes de o próprio ser humano", quando ele ainda é inconsciente, a despeito de vivo, um bicho humano, ainda, dependente de tudo e para tudo. Mas é aí, nessa fase de absoluta dependência - a mais radical dependência do mudo animal, que eu saiba - que o ser consciente se forma, desde a sua estrutura sináptica.

Compreendem o significado disso? O que ocorreu comigo na minha pequena infância - e do que eu sequer lembro, foi isso que formou a minha rede sináptica. Por isso, aquele menino ainda está aqui - e estará para sempre. Suas memórias são mais do que memórias, tornaram-se parte fisiológica do cérebro, na forma de redes intercomunicantes de neurônios.

Não há como alterar isso. Se a rede formou-se complexamente, muito bom. Tenho todas as potencialidades maximizadas. Se não, terei deficiências enormes. De alguma forma, acabamos obtendo formas de superar, conscientemente, as deficiências. Mas elas estão lá. Deficiências cognitivas, afetivas, volitivas. Ausências, excessos, violências. Está tudo lá. Aqui.

A consciência disso nos ajuda a administrar a vida. Compreendemos o que ocorre com a gente, porque somos assim, porque nos sentimos desse jeito, porque nossos sentimentos são esses, porque reagimos dessa forma em face do mundo. Tudo isso está dentro de nós, na formação de nossa estrutura sináptica que, em última análise, formata nossa personalidade inclusive.

Quando disso tomamos consciência, podemos tentar superar nossas deficiências, medos, inseguranças, desvios, tentando controlar, com a consciência crítica, as pulsões sinápticas. Mas controlar é uma coisa. Anulá-las, outra.

Hoje, tenho muita consciência do que sou e de como me tornei isso que sou. Sou ainda aquele menino, cuja história não tenho inteira, mas da qual me inteirei de partes. E essas partes me fazem compreender o tipo de estruturação sináptica que construí - e ela está lá, quer eu goste, quer não. É ela, todavia, que me permite a consciência e a reflexão e, a despeito disso, ela me permite controlar todos os impulsos e sentimentos negativos que ela também me proporciona.

Crescido, posso dizer não a eles, quando quero dizer não a eles. Mas não posso evitar que eles, como seres fantasmáticos de mim mesmo, venham à minha superfície admirar a coisa viva que ajudaram e ajudam a manter de pé...









OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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