terça-feira, 27 de maio de 2014

(2014/508) Sobre espiritualidade


Para mim, a situação é bem simples, porque eu escolho meu próprio modo de fazer e ser. Há sombras, é certo. Há partes de minha forma de vida que, eu imagino, ainda estão inconscientes: penso ser eu, mas podem ser forças além de mim - e com isso quero dizer tradicionalismo, imprintings culturais e nada do que se chama de "sobrenaturalidades", que não levarei em conta aqui, porque não levo mais em conta.

A espiritualidade que herdamos é fruto de um acidente histórico, com tons de genocídio. Os antepassados de nossa fé, israelitas e judeus, desenvolveram três grandes "espiritualidades" (palavra horrorosa): a profética, a sapiencial e a sacerdotal.

As duas primeiras eram corporais, telúricas, materiais, distinguidas apenas porque uma preocupava-se com os pobres e a outra muito mais consigo mesma. Já a sacerdotal, ainda não o era totalmente, para isso dependerá dos gregos, era, todavia, uma porta aberta para o idealismo teológico.

Pois bem, antes mesmo dos gregos, a espiritualidade sacerdotal assassinou a profética. Na luta com a sabedoria, a cooptará. A espiritualidade profética sobreviverá nos pobres, a sabedoria recuará para os espaços privados, e o sacerdotalismo teológico e ritual tomará conta de tudo.

Em coito com a Grécia, produzirá o que vemos hoje, resultado aprofundado ainda m ais pela subjetivação protestante e pela atual onda narcisista pós-moderna. Se fôssemos almas fantasmáticas, não faria diferença alguma.

Eu simplesmente descarto essa espiritualidade, o aparelho sacerdotal e seus valores. Quando aprendi o que era isso, joguei fora. Resta-se refletir sobre aquelas duas espiritualidades, a profética e a sapiencial. No campo político, a profética; no campo pessoal, a sabedoria.

Mas é engraçado ver pessoas defenderem algo parecido, mas manterem justamente a herança fundamental do aparato sacerdotal - o modelo de igreja que temos. Ele é inteiramente tirado do jogo sacerdotal - e nem a Reforma ousou modificar a partida: peões, peões, reis, reis, bispos, bispos... 

Não me apetece. Quando olhei nos olhos da espiritualidade sacerdotal e vi do que se tratava, sempre, dei-lhe as costas. Ela, todavia, ainda opera. O mundo religioso é ainda inteiramente sacerdotal - em todos os sentidos.

(...)


Para mim, a palavra "espiritualidade" devia desaparecer. Não faz nenhum sentido para mim. E vejo um movimento esquisito no mundo acadêmico: a substituição do valor religião pelo valor espiritualidade, como se não fosse tudo a mesma coisa, tudo trocar o mundo do corpo pelo mundo espectral e fantasmáticos das anímicas nulidades...

Não há, todavia, um termo à mão. Por quê? Porque os que nos fazemos de entendidos desgostamos do termo espiritualidade, mas ainda namoramos o termo espírito...

Sem ser radical, arranhamos a pétala da flor, e nada mais... O bicho ainda está a comer o caule...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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