domingo, 6 de abril de 2014

(2014/162) Acabar com a doutrina do céu e do inferno


Lentamente, sob o peso inexorável do tempo, sob a força irrefreável da História, a Igreja, todos os Cristianismos, lentamente, vão cedendo espaço para as relações éticas, superando práticas e discursos anti-éticos, abjetos, reprováveis, pervertidos, abomináveis, que se acalentavam e legitimavam em Deus.

Não, isso não exime a sua culpa imperdoável, culpa histórica, irredimível, mas responde pela sua transformação, lenta, é verdade, mas, admitamos, também histórica.

Não que seja uma transformação que eles mesmos, os Cristianismos, desejassem: não - é sempre a despeito deles, contra eles mesmos, ainda que operando-se dentro deles, por efeito das forças que
se exercem nos subsolos, ainda que radicalizadas em conceitos, ideias, valores - periféricos - que gravitam nas mais longínquas órbitas do centro de poder dessas tradições.

Assim, lentamente, as relações cristãs com os negros, com a mulher, com os gays, com o pensamento livre e autônomo, com as políticas civis, vão sendo forçadas - é um parto a fórceps! - ao enquadramento ético.

Há, todavia, regiões de doutrina que, porque domésticas e de pouco interesse social imediato, ainda constituem escárnio e blasfêmia - e que precisam ser descartadas, abandonadas, lançadas ao fogo.

Por exemplo: a doutrina do céu e do inferno.

Que homem e que mulher com dois gramas de ética nos olhos há de ensinar essa bestialidade sem tamanho, esse crime de lesa-humanidade, esse escárnio? Um deus a gozar orgasmos de cânticos de louvor ao lado de piras humanas vivas eternas! Que tipo de Deus é esse? Que tipo de homens são esses que lá cantarão suas aleluias blasfemas? Que tipo de homem é esse que ensina uma doutrina desse tipo?

Ora, passou da hora de confessarmos que essa doutrina é uma perversão da ética e da moral, da Justiça e da Bondade - uma patologia político-religiosa, uma invenção de poderes político-militares para o controle social que, todavia, tomou vida própria e controla a mente de milhões de pessoas no Planeta, mantendo-as horríveis, horrendas, horripilantes, fazendo delas uma cópia da maldade, da falta de misericórdia e da perversidade...

Como imaginar esse futuro? Como imaginar um inferno a arder, ácido e fogo a consumir, sem nunca extinguir, carne e ossos, gritos horrorosos, pavor, medo, castigos indescritíveis! E tudo isso é nada, é coisa alguma, perto da imagem de um Deus a gozar louvores nesses dias sem fim...

Um acéfalo e sem coração me disse: "Mas nós não saberemos, professor!". Besta demoníaca! Projeto de coisa imunda! Estupidez sagrada e santa! Como não saberemos? Nós sabemos! Nós pregamos!

Não, não é possível que uma pessoa tenha coração e, ao mesmo tempo, creia nesse Horror, pregue essa Bestialidade e nutra a sua alma e espiritualidade com essa carniça...

Passou da hora de acabar com essa doutrina.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Um comentário:

Cleinton disse...

Coitado do aluno; faz isso, não, rapaz! rsrs

Mas, pensando em tal questão de inferno e céu, minha pergunta em Teologia Sistemática foi: "Jesus morreu para pagar todos os pecados da humanidade, certo?". Responderam que sim. "Se ele pagou, ninguém pode ir para o inferno, pois, neste caso, Deus estaria cobrando duas vezes pelo mesmo caso, o que faria dele um corrupto". Os alunos calaram. Continuam calados.
Há braços, grande Osvaldo.

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