sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

(2013/1417) Minha leitura como paraninfo, na formatura 2013 da Faculdade Unida



Sempre dei aula é para eles


Tomando por base a teologia que se pratica na academia, é tão descomunal o descompasso entre os conteúdos estudados nas Instituições de Ensino Superior e os conteúdos circulantes nas comunidades de fé que é absolutamente lícito perguntar-se, afinal, para que cursar teologia.

Nas instituições confessionalmente controladas, o “ensino” dá-se sob regime de total submissão ao dogma denominacional – cada denominação tem sua própria doutrina, seus próprios dogmas e suas próprias ferramentas de inculcação dessas crenças e normas. Nesses espaços, o estudante não vai além de um receptor passivo da Tradição.

Nas instituições mais deslocadas do controle eclesiástico, as teologias são, conforme o caso, mais ou menos alinhadas com tradições doutrinárias. As mais confessionais procuram até ser críticas em relação à tradição, mas o percurso que percorrem é o de aprofundamento dessa tradição a que estão vinculadas. Crítica, aí, ou é a crítica da sociedade, à luz de programas ético-teológicos tradicionais criticamente aprofundados, ou é a crítica da própria tradição, no sentido de retornar a uma fidelidade ancestral criticamente pressuposta.

Ou seja, ou se faz teologia para repetir dogmas tradicionais e lhes dar uma aparência de cientificidade, ou aprofundar criticamente a tradição, na busca do retorno aos fundamentos de ouro da fé ancestral e fundante ou, finalmente, a crítica da sociedade a partir de um olhar supostamente capaz de, desde sua posição, estabelecer caminhos e direções.

Compreendo cada um desses modelos, mas não tenho (mais) relação subjetiva com eles. Para mim, o estudo da “teologia” tem outros sentidos, outros objetivos.

Primeiro, a compreensão histórica da tradição, a compreensão do passado fora das narrativas ideológicas que se engendraram no percurso histórico das religiões: cada uma delas produz suas elegias e louvações, suas narrativas autorizadas. Frequentemente, são falsas.

Segundo, a compreensão da religião de modo geral e em todos os sentidos como fenômeno humano. Sem negociações falso-epistemológicas. Fenômeno humano quer dizer exatamente isso e apenas isso – fenômeno humano. Para mim, o estudo da teologia deve se dar a partir das câmaras internas das ciências que se debruçam sobre o fenômeno humano e, nesse caso, religioso: as ciências das religiões e suas componentes disciplinares.

Terceiro, a reconstrução interna do teólogo de seus programas de compreensão de si mesmo, do mundo e da vida, o que implica, necessariamente, em dar um passo para fora da tradição e da crença, tomando-as como elementos a serem reconfigurados consciente e programaticamente. 

Os desafios desse terceiro objetivo da teologia, sempre conforme meu parecer pessoal são consideráveis.

Primeiro, o teólogo assume-se radicalmente como sujeito epistemologicamente autônomo. Por si só, esse desafio já o retira de sob a administração religiosa – é ele, agora, quem, programaticamente, se põe sobre a religião, não mais se deixando estar sob ela. A autonomia é, para todos os fins, um obstáculo de difícil contorno para a expressão religiosa clássica – quanto mais as de recorte monoteísta.

Segundo, sem discriminações e exceções, o teólogo assume os conteúdos das religiões como mitos de cultura – extraindo daí todas as consequências bastante óbvias. Em harmonia radical com o preceito anterior, a autonomia em face da religião, o fato de o teólogo assumir como mito o conteúdo da fé parece ser a expressão mais ampla possível daquela máxima neotestamentária a que tanto me refiro: o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o homem. Se o teólogo não pode assumir como mito toda e qualquer doutrina de toda e qualquer religião, põe-se em estado de subordinação epistemológica em relação a essa religião. Na prática, compreende-se como tendo sido feito para ela...

Terceiro, finalmente, reconstruir as suas relações com a própria teologia, com a história, com a comunidade de fé, com as comunidades religiosas de modo geral. Não há conhecimento verdadeiro, se ele permanece na superfície da pele – o que se traduz em descompasso entre o aprendido e a vida real. Aprender é radicalmente levar isso que se aprende a sério. Aprender é levar isso que se aprende à sua materialização na vida.

Por tudo isso, penso que a teologia seja – se não o mais – um dos cursos de maior desafio subjetivo: mas isso apenas se ele se faz sob o recorte de cortar a própria carne, de rasgar a própria alma.

Também por isso tudo, penso que cada um e cada uma de vocês fez um curso diferente. Uns, estavam interessados em recuperar a pedra filosofal da fé. Talvez tenham saído com alguma pedra na mão, e talvez a embalem por muitos anos, convencidos de sua obra alquímica... Outros, fizeram um curso que lhes parece ter dado um mirante a partir do qual podem, agora, denunciar as injustiças da sociedade, da vida, dos homens e das mulheres. Faz-se um profeta com diploma, agora... Outros, simplesmente aprofundaram sua fé até profundidades nunca imaginadas, conquanto eu poderia considerar que, nesse caso, profundidade é uma palavra sem sentido. E, quem sabe, tenha havido aqueles que fizeram o curso mais difícil – é como os arbustos espinhosos da caatinga, verdadeiros labirintos de espinhos, que cobram pele, carne e sangue pela sua travessia.

Eu não sei quem dentre vocês fez qual curso, mas gostaria de lhes revelar um segredo: no meu coração, dei aula sempre para os últimos...



Vitória, 12 de dezembro de 2013








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Um comentário:

Amanda LIMA SANTOS disse...

Não me formei em teologia, mas sou um estudante, aprendiz de vários filósofos que imperam em sua realidade suas verdades e experiencias. Discordo nesssa frase colocada abaixo pelo professor ,não como afronta mas crendo que posso através de um dialogo aprender mais sobre a profundidade de alguns jogos de linguaguem.

" Em harmonia radical com o preceito anterior, a autonomia em face da religião, o fato de o teólogo assumir como mito o conteúdo da fé parece ser a expressão mais ampla possível daquela máxima neotestamentária a que tanto me refiro: o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado foi feito para o homem."

Aceitar a Fé como conteúdo do mito é corroborar para o enfraquecimento da teologia como ciência (Estudo), pois ela passaria por ser parte teórica de marcos apenas sociais ou da psique humana. Assim Mircea Eliade e Apostolo Paulo seriam,Estudados apenas na Antropologia e psicologia, entre outras... A história seria escrita sem encontrar na interpretação a sub linhas da experiencia não explicada pela lógica.
Acabaria esse recorte onde a fé é mais que um fenômeno histórico de um psique coletivo. Poderíamos deixar a racionalização ditar o que é ciências da religião ou a ciência da religião como alguns gostam de dizer. O mito fundante seria o afundante para o ainda inexplicável do ponto de vista Teológico e não apenas lógico. Essa simples argumentação é para pedir uma ajuda sobre a concepção de Fé e mito. obrigado desde já pela resposta que será ministrada.

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