sábado, 19 de outubro de 2013

(2013/1172) O que há por trás do símbolo de Deus mesmo?


Magia é a linguagem, mágica é a palavra... Se eu, aqui, agora, escrevo, água, você, aí, agora, pensa a coisa água, sente a sede dela e experimenta, sem ela, seu quase gosto... A palavra traz a coisa, sem que a coisa esteja aqui...

Mas a coisa há. Se eu escrevo água, a coisa que a palavra água representa existe. Não está aqui, mas existe além da palavra, independentemente da palavra, independentemente de mim.

Há, pois, um modo de ser simbólico das palavras que se fazem símbolo de coisas que existem. No fundo, toda palavra é simbólica...

Quando um teólogo diz que a palavra sobre Deus e mesmo Deus é símbolo, parece que ele está a dizer algo diferente do que os dogmáticos dizem: mas não está.

O dogmático diz que Deus é a coisa que ele ensina, daquele jeito e forma, assim e assado, e, porque trata a coisa pela palavra, faz o que a palavra diz.

Já o simbolista, cá entre nós, ele diz que o discurso sobre Deus é simbólico, mas o Deus que ele diz ser simbólico é o mesmo do outro - Trindade, Pai, Jesus, Espírito Santo - e mais, ceia, igreja, culto, liturgia, homilia... O que falta aí? Nada...

O simbolista apenas não quer confessar que ainda é dogmático no fundo, mas envergonhado das palavras que emprega. Quando ouve um fundamentalista dogmático, constrange-se. Ele mesmo, no fundo, ainda o é, mas, para não se constranger a si mesmo, usa de dizer que é simbólico...

Não funciona, porque as palavras que ele usa são simbólicas em relação ao mesmo velho Deus da tradição, da catequese. Quando ele fecha os olhos, lá ele está ele, lá estão eles.

Se eu dou um passo e assumo que a fé é mito, é cultura, não funciona sequer mais a retórica do símbolo - porque o símbolo o é para algo que posso apontar, descrever, pensar: e, cá entre nós, que coisa mais sem-sentido um Deus que não posso descrever, mas que descrevo por meio de símbolos... Claro!, porque, no fundo, eu o descrevo...

Não funciona.


O simbolista ainda é um crente clássico. Envergonhado e constrangido. Mas clássico.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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