sexta-feira, 30 de agosto de 2013

(2013/979) Amazing Grace - só que não...


O  negro, recolhido ao canto escuro, úmido e sujo do navio, chora. Seu choro sai de seu corpo. Seus ancestrais todos, choram. No tombadilho, o povo branco, cristão e crente, espera a terra da liberdade, o país de Deus e de Jesus, que lhos deu - o país, os vermelhos e os pretos.

No porão, chora um preto. E canta.

Um branco, crente de Jesus, anota a melodia. É, realmente, bela. Produzida pela dor e pela violência de Deus, mas, que se dane, quem se importa? É linda e dará um bom louvor...

Compõe-se o louvor. Para o Deus dos escravizadores. Depois de libertos - mas, mesmo? - os seus corpos do tronco, pretos, vencidos na fé, escravos, agora, do antigo Deus dos escravizadores, cantam a maravilhosa graça...

Talvez eu esteja pesando demais o olhar crítico.

Mas dê um passo atrás, suba a montanha e olhe toda a cena desde uma distância capaz de ver os atores todos, brancos, Deus, Jesus, pretos...

Maravilhosa graça.

Afinal, Deus não foi à África arrancar os corpos de lá para lhes dar... Jesus?




No final, a Ideia venceu.

Acima de toda memória e toda dor, a Ideia venceu.

Faz de conta, senhores, que não era ela, a fincar o tronco e a segurar o açoite que lambe as costas sangrando de quem ainda canta...

(...)



Resistência?

Outro nome, mais verdadeiro, despedaçaria o resto da alma da gente...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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