quarta-feira, 28 de agosto de 2013

(2013/975) Religiões, mitos e intuições - sobre re-encarnação, ressurreição, alquimia e nossa identidade humana


Por força da relação do homem com a terra - em contexto mágico-religioso -, há milênios o homem intuiu que o subsolo era o útero da Grande Mãe: a terra era uma espécie de embrião - com o tempo, o embrião crescia e o que era terra transformava-se em ouro. Daí servirá, talvez por primeiro na China, a Alquimia: tudo pode tornar-se ouro...

O mito alquímico, isto é, essa intuição alquímica, de base religiosa, estava certa. No século XX, descobrimos os segredos do átomo e das estrelas, e descobrimos que é verdade - pode-se transformar qualquer coisa em ouro. Na verdade, mais do que isso - qualquer coisa pode transformar-se em qualquer coisa. Na Tabela Periódica, vigora o princípio da transmutabilidade mútua - qualquer elemento químico pode transformar-se em outro - como? Por efeito da manipulação de seus prótons. A quantidade de prótons estabilizados no núcleo do átomo determina o que ele "é", suas propriedades físicas, de sorte que, se você toma um átomo de Hidrogênio (H), que tem um único próton, e acrescenta um próton, ele transforma-se em Hélio (He). Se fossem acrescentados 78 prótons, e não apenas 1, o H viraria Au (ouro).

É preciso uma energia gigantesca para conseguir-se isso. O Sol faz isso. Ele funde dois átomos de H em um átomo de He. O H vira H e o Sol libera uma energia absurdamente grande. Estrelas maiores fazem a mesma coisa com átomos maiores. Assim, as estrelas produzem Hélio, Carbono, Nitrogênio, Oxigênio...

Leu esses nomes? C, N, O? São a base da vida. Cada átomo deles de nossos corpos, nosso planeta e nossa atmosfera foi produzido em fornalhas celestes - monstros de fogo a queimar, em nível atômico, seus átomos. As estrelas produzem esses elementos, vomitam-nos no Universo, eles viajam por milhões de anos-luz, bilhões de anos - são virtualmente eternos - e, capturados em processos de auto-organização física, transformam-se em outros sóis, planetas e... seres vivos...

A Alquimia estava certa: tudo pode virar ouro. Mas era apenas uma intuição. 

O mito da re-encarnação, afinal, também está certo. Uma intuição muito imprecisa, muito parcialmente válida, mas, afinal, uma boa intuição. Os átomos que nos compõe já compuseram outros corpos - minerais, vegetais e animais. Nossos átomos podem ter constituído antepassados nossos, se permaneceram nas redondezas. Ou pessoas de outros continentes, se migraram até nós através de enlatados... Nossos átomos já foram outras coisas e, amanhã, depois que morrermos, serão outras coisas. Mais do que isso, dispensamos e adquirimos átomos incessantemente - perdemos pele, sangue, cabelo, e reconstruímos tudo. Vamos deixando pedaços de nós por aí, e pegando novos pedaços. Quando morrermos, já seremos outra coisa - em termos de átomos. Átomos que foram de alguém ainda vivo podem estar em mim, agora...

Mas não se trata de "mim". Difícil para muita gente olhar para isso de frente, o "mim" é uma emergência físico-biológica fortuita, um acidente formidável da matéria, que permanece enquanto essa forma material permanece organizada. Enquanto formos capazes de substituir nossos átomos e manter essa emergência viva funcionando, "mim" estará aqui. Se ela se desintegra, acabou... Nesse sentido, acho que não há re-encarnação. Mas, num sentido menor, menos poético, apenas real, sim...

Tanto quanto a ressurreição. Não, "esse" corpo aqui, duvido, não se levantará da terra, jamais. Ele servirá de comida para seres vivos - o que sobrar dele se transformará em tantas outras coisas mais. Todavia, o que o constitui, os átomos que me constituem, se levantarão e irão compor outras criaturas - vivas, inanimadas, qualquer coisa. A matéria re-encarna e ressuscita todos os dias: esse é seu processo, sua magia. Mas, "mim", "nós"... bem, acho que não.

Isso faz dessa nossa vida uma dádiva, ao mesmo tempo que uma maldição. Há quem queira fazer dela ilusão (Budismo e religiões orientais) e pecado (Cristianismo, a despeito de a considerar "criação"). Ir embora, eis a máxima da maioria das religiões...

Um fogo breve, brevíssimo, um segundo na eternidade, a acender e apagar - e, em lugar de experimentarmos ao máximo essa mágica, vivemos o desejo de que ela se apague...

Pena.

Seja como for, a lição que tiro disso é que há alguma intuição aproveitável na longa noite das religiões. Não acertam no todo, não acertam a propriedade exata da coisa, erram seu significado, tornam tudo mitológico, mas, lá no fundo, há um lampejo de criatividade, de perspicácia, de "visão" - que, todavia, os doutrinismos tornarão imprestáveis demais para nos tornar mais bem informados sobre nossa existência...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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