quarta-feira, 20 de março de 2013

(2013/286) As mulheres de Deus e os pretos dos crentes - almoxarifado cultural, pecado estrutural


1. Almoxarifado é onde se guardam as propriedades. Fica lá, às vezes, um funcionário, que toma conta de tudo, cataloga, classifica, põe plaquinha, "imobiliza". Tem placa com número, tem dono. Está na rubrica do inventário...

2. Deus pôs a mulher no almoxarifado de seu povo.

3. Está nos Dez Mandamentos, que, contaram-me, ele escreveu com o dedo. Bem, se não mentiram para mim, claro... Na verdade, parece que as primeiras foram quebradas, dado um ataque de nervos do intermediador, que as teve de escrever ele mesmo, depois, de castigo, o que lhe fez perder a cabeça do dedo, e, quem sabe?, ele não andou alterando o que estava escrito? Não sei. Seja como for, se alterou e Deus deixou, é conivente...

4. E lá está escrito assim:

Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo (Ex 20,14).

5. Veja - almoxarifado. Na rubrica estão as coisas de que o homem é dono: o jumento, o boi, a casa, qualquer outro objeto, o escravo, a escrava e, naturalmente, a mulher - "objeto de cama e mesa".

6. Isso durou praticamente para sempre. Só ontem, quando, não faz duzentos anos quase, inventamos o Estado Democrático de Direito, ficou constrangedor tratar mulheres como objetos e propriedade - chegar no aeroporto e pesar mala e esposa, para ver se há excesso de peso... Então, alforriamos esse objeto e passamos a considerar - às vezes - que sejam pessoas...

7. Não sei o que Deus pensou disso. Mas muitos de seus filhos discordam veementemente do que fizemos - não lá atrás, mas ontem, libertando-as do jugo...

8. Falar em alforria, jugo, vale a pena ver uma fotografia de 1864. É de uma casa de venda de escravos em Whitehall Street, Atlanta: NEGRO SALES, está escrito no letreiro. Quer comprar um jumento?, prefere um negro? Temos...



9. Terra de crentes...

10. Almoxarifado. Gente tratada como objeto, como coisa. Veja a data: 1864 - quase cem anos depois da Revolução Francesa. O país da "liberdade" - direito à propriedade, à expressão, inclusive, de vender e matar negros... Que beleza...

11. Quando nós, brancos e crentes, decidimos fazer as coisas ao nosso modo, segundo nossos valores concretos, defendidos em nosso grupo e bando, a pessoa pode ser tanto propriedade nossa, disponibilidade nossa, que, ainda em 1916, se podia amarrar um preto a uma árvore e, depois de torturá-lo, queimá-lo. Observe o riso de prazer nos dois sujeitos à direita...



13. Tudo isso - mulheres tratadas como coisa-objeto-propriedade, negros tratados como coisa, como não-homens, como menos do que nada - são coisas feitas à sombra e à ordem de Deus. O povo crente, de ontem e de hoje, usam Deus - sempre! - para perpetrar as barbaridades de que gostam, de que sentem necessidade e prazer.

14. Não podem chegar a público e dizer: não gosto deles, não os quero, ou, antes, quero aproveitar-me, eu, eu mesmo, e, então, apelam para Deus e justificam em Deus a sua desgraça de alma e miséria ética.

15. É por isso que Deus ainda legitima a caça aos gays. Nenhum homofóbico crente terá a coragem de dizer que é ele, ele mesmo, que os detesta até a alma - e, então, mais uma vez, como há séculos e séculos se faz, para bem e para mal, jurará e mentirá, para si mesmo e para nós, que é Deus... Ele não é um pária ético - ele é um servo do Deus Altíssimo!

16. Mas ele sabe que eu sei que ele sabe que é Deus coisa nenhuma: é a sua alma, a sua maldade, o seu estado de miséria ética.

17. Nada mais...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Um comentário:

Débora Tavares disse...

Que dizer? Nada a acrescentar.

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