terça-feira, 19 de março de 2013

(2013/280) "Recepção", então tá: sobre copos d'água e cordões de prata


1. Dois casos de "recepção" espontânea da tradição bíblica.

2. Minha família era religiosamente muito eclética... Tudo junto e misturado: de um, tudo. E era, também por isso, espírita. No centro, sempre lá estava o copo d'água sobre a mesa. Bebia-se dele e se tomavam, assim, bons fluidos...

3. Ao lado de um grande centro espírita, na Rua Paraná, ficava um prédio. Na frente dele, uma espécie de outdoor, onde se lia: "e quem quiser, receba de graça a água da vida". Metido até o pescoço em tradições de copo d'água, também na Umbanda se usavam copos com água, sempre achei que aquele prédio era, também, alguma coisa assim, e sempre que passava em frente, indo para o centro de Mesquita, imaginava que se tratava de mais um centro espírita - pudera, de um lado do prédio, o terreiro de Umbanda de minha tia!, do outro, um enorme centro kardecista - e aquele prédio no meio: o que queriam que eu pensasse?

4. Em 10 de agosto de 1984, descobri que aquilo era uma igreja, vejam vocês - a Primeira Igreja Batista de Mesquita. E lá fiquei, vindo a descobrir que o outdoor nada tinha a ver com copos de água, mas com Apocalipse 22,17, que passei a ler cheio de medos e terrores noturnos...

5. Foi por essa época que lembrei que minha avó tinha uma velha Bíblia, que eu nunca lera. Encontrei-a, perdida em gavetas, e comecei a ler, sem nenhuma orientação, nem sabia por onde começar. Umas coisas esquisitíssimas, eu ia lendo, sem entender patavinas, nada de nada...

6. Até que, de repente, deparei-me com alguma cisa que eu conhecia muito bem!

7. Falei que minha família era religiosamente eclética: espírita, umbandista e, além disso, quase-meio-um-pouquinho-budista, mas apenas por meio dos livros de Lobsang Terça-Feira Rampa. Li-os (quase) todos. Adorava. Deliciava-me com as histórias de viagens astrais - Lobsang ensinava que tínhamos um corpo astral e que ele podia viajar pelo Universo, pelas estrelas, de mundo em mundo, preso apenas ao corpo por um "cordão de prata"...

8. Ah, eu sabia tudo sobre "cordão de prata"...

9. Então, uma noite, lia eu avidamente as páginas da Bíblia, sem entender nada, e, súbito, encontrei-me: li a única coisa que eu podia entender: "antes que o cordão de prata se rompa" (Eclesiastes 12,6)...

10. Estava em casa...

11. Claro que, mais tarde, quando comecei a estudar a Bíblia com seriedade, e não por meio de doutrinas de qualquer tradição, descobri que não havia nenhuma relação entre o cordão de prata de Lobsang Rampa e o cordão de prata de Eclesiastes (será?). E aprendi que a única forma segura de entender os textos era tentar descobrir o que eles quiseram dizer, quando foram escritos, em lugar de pôr neles sentidos novos, ainda que cristãos.

12. Não é fácil.

13. Mas é o que tento fazer desde então...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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