sábado, 2 de março de 2013

(2013/183) Do engodo das metáforas


1. Uma coisa é uma corrente de ouro, constituída de elos interligados, um saindo de dentro do outro - se você toma um elo e faz, com os dedos ou com os olhos, o caminho de um até o outro e, daí, até o próximo e, então, sempre em frente, até o seguinte, constatará que não há, aí, nem começo nem fim, que somente se você retornar à mesa do ourives e descobrir que elo elo colou ao último, fechando o ouroboros, você poderá apontar um começo e um fim - mas, se você abstrai a mão do artista, e toma a infinita série de elos, bem, então não há começo, não há fim, só o colar eterno em suas mãos...

2. É como a metáfora, se você levar a sério o que se diz... A metáfora tem sido usada para fugir à realidade objetiva das coisas: você faz que não diz - mas diz, e, no entanto, não era para dizer coisa alguma, já que metáfora alguma estaria, então, aprumada sobre algo sólido e concreto, mas, antes, como querem os discursos metafóricos, flutuando como bolhas dentro de bolhas dentro de bolhas, sem nunca ter chão, nem tero, nem paredes, uma infinita rede de relações infinitas, sem, contudo, você poder tocar qualquer uma delas...

3. Sim, orque, se tocar uma delas, terá de admitir que saiu das metáforas, que chegou à estação onde o trem para... Mas é justamente a estação que os metafóricos querem evitar, negar, contornar. De modo que temos aqui um flagrante: os metafóricos não têm o que dizer, porque, se admitirem que há algo de concreto a dizer, negam a funcionalidade das metáforas...

4. Todavia, alguém que acredite na objetividade do real, esse, sim, poderia usar metáforas para falar, metaforicamente, do concreto, concreto que ele julga ver e admite ver, que ele diz existir independentemente dele e de sua vontade...

5. O metafórico, não - sequer pode admitir sua própria existência, porque isso já é concreto demais...

6. Metáfora só pode ser meio - quando se torna fim ou o próprio mundo, dissolve o discurso que pretende sustentar e dentro do qual respira...

7. A metáfora, nesse sentido, é um engodo, uma mentira, uma manipulação.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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