sábado, 26 de março de 2011

(2011/204) Dos morcegos de Thomas Nagel e de seu anseio por uma solução - que, a meu ver, já foi dada


1. Ando febril. Literalmente. E em dois sentidos. Tenho febre há quatro dias. Dor no corpo. Hoje, a dor deu lugar à tosse. Febril, nesse sentido, e febril, todavia, em sentido metafórico: estou devorando tudo que me vem à mão sobre a relação mente e corpo - não apenas por conta de minha "palestra" na UFRJ, em maio, sobre Descartes - "eu", a "alma" e "Deus" -, mas porque penso que essa é a Esfinge: se não resolvemos essa questão, toda a epistemologia aparece como um exercício deslocado, fadado ao insucesso.

2. Por caminhos de referências cruzadas, cai-me nas mãos duplamente febris - corro risco de alucinações? - o texto de Thomas Nagel, Como é ser um morcego. Tradução de
Paulo Abrantes e Juliana Orione,
Cadernos de História da Filosofia e da Ciência, Campinas, Série 3, v. 15, n. 1, p. 245-262, jan.-jun. 2005 (o
riginal: What is it like to be a bat? Em:
Rosenthal, D. (ed.) The Nature of Mind. New York: Oxford University Press, 1991, p. 422-28).

3. Thomas Nagel defende (corretamente) o não-reducionismo fisicalista no trato da questão mente e corpo e, para ilustrar a impossibilidade de reducionismo, analisa o modo próprio de ser de um morcego, concluindo que não é possível para um ser humano alcançar o que seja ser um morcego, mas que, da mesma forma, a um morcego não é possível alcançar o que seja ser um ser humano - e que, todavia, apesar de ao morcego tal façanha ser impossível, isso não significa que não haja algo como um estado de ser como ser humano, devendo ser válido que haja, igualmente, a despeito de a isso não termos acesso, um modo de ser próprio de morcegos.

4. A certa altura, Nagel escreve o seguinte:

O fato de que não tenhamos expectativa de poder algum dia acomodar, na nossa linguagem, uma descrição detalhada da fenomenologia dos marcianos, ou dos morcegos, não deve levar-nos a descartar, como carente de sentido, a alegação de que marcianos e morcegos tenham experiências completamente comparáveis às nossas, em toda a sua riqueza de detalhes. Seria bom se alguém viesse a desenvolver conceitos e uma teoria que nos permitissem pensar sobre essas coisas; mas pode ser que nunca as compreendamos, em virtude dos limites da nossa natureza. E negar a realidade ou a significância lógica do que nós não poderemos nunca descrever, ou entender, é a forma mais grosseira de dissonância cognitiva.

5. Ora, a menos que eu esteja errado, claro, afirmo que Edgar Morin propos - a meu ver, a contento - a solução para o problema. Não se trata de pensar o morcego ou o ser humano isoladamente - se trata de pensar o que seja a vida e os seres vivos. O que quer que tenhamos de vivo e subjetivo constitui estratégia de mapeamento do real, sejam os sentidos humanos, sejam os sonares dos quirópteros. O erro consiste em querer analisar o morcego isoladamente de sua instalação no ecossistema (da história dessa instalação) - o morcego evolui no sistema biofísico, assim como os seres humanos, e suas qualidades subjetivas dizem respeito a essa evolução localizada, situada, ecossistêmica.

6. Cada espécie encontra as saídas histórico-evolutivas para os mesmos problemas: adapatar-se, sobreviver, perceber, caçar, comer, fugir. Por exemplo, assista-se a esse vídeo do Fantástico - morcego pescador (a partir de 1:22).



7. O morcego "sabe" onde está o peixe - seu sonar não é uma idiossincrasia ecolutiva isolada: é a forma como essa espécie evolui no mapeamento do real - no que ele é soberbamente eficiente, seja para caçar peixes debaixo d'água, seja para capturar insetos em pleno voo. Pobres teorias da inacessibilidade ao real! Chega a ser desconfortável. Quanto a Nagel, não se pode compreender - jamais - a evolução dos estados subjetivos do morcego sem instalá-lo, antes, em seu ecossistema: nem o morcego nem o homem evoluíram isolados do real, do mundo - evoluíram no jogo de comer, de fugir, de caçar, de viver. E, neles, tais estados de subjetividade têm a mesma funcionalidade que nossos pertinentes estados de subjetividade têm em nós. Não poderemos sentir o que seja ser um morcego - mas podemos conceber o que isso significa: ser centro de um mundo, mapeá-lo e viver à custa de nutrir-se de suas matérias.

8. Edgar Morin gastará quatro volumes antes de tratar do Homem - volume 5 de O Método. Antes, gastará um volume com a Natureza, a matéria, outro, com a Vida, outro, com o conhecimento - enquanto estratégia de mapeamento do real -, outro, com as Idéias, marca característica da subjetividade humana, e, então, aí, sim, depois de o ter instalado na matéria, na vida, tratar do Humano.

9. Um erro comum das abordagens mente/corpo me parece ser um vício platônico/cartesiano permanente: cuidar poder tratar da subjetividade, da mente, da consciência, como algo em si, e, ainda que algo "derivado" do cérebro, alguma coisa em si com esse cérebro. Esquece-se de que um e outro, cérebro e mente, são respostas evolutivas a um jogo, esse sim, o único, da vida: matar e morrer. Viver. O que se faz, sempre, inapelavelmente, no ecossistema, função inexorável de qualquer estudo sobre a vida e o humano, incluídos aí, os morcegos. Não é possível falar do morcego e do homem, sem falar do mundo em que evoluíram, e do qual são parte indissociável.



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Um comentário:

Luciano disse...

Quando Nagel diz que “negar a realidade ou a significância lógica do que nós não poderemos nunca descrever, ou entender, é a forma mais grosseira de dissonância cognitiva” ele nos mostra o porquê de o ateísmo não ser uma saída racional, como querem fazer parecer alguns ateus. Por outro lado, quando você diz que “não é possível falar do morcego e do homem, sem falar do mundo em que evoluíram, e do qual são parte indissociável”, você nos mostra o porquê de a teologia como se nos apresenta hoje, fundada na epistemologia de Platão, não pode ser, simplesmente porque eles dissociam todo fenômeno religioso do meio em que o homem vive e evolui. Não sei se entendi corretamente.
Uma questão à parte: como então, pôde Schopenhauer, na introdução a “O mundo como vontade e como representação”, aludir à necessidade de, antes de ler o seu livro, se ler Platão, além de Kant, mas Platão, que ele chama de “o divino Platão”, quando ele vai tratar de uma visão de mundo a partir do homem que, vivendo nele, o representa, se Platão vai partir exatamente da possibilidade do conhecimento deste mesmo mundo desde o mundo das Idéias, ou seja, dissociado do mundo em que o homem vive e evolui?

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