sábado, 29 de janeiro de 2011

(2011/046) Tanto trabalho... para nada: breve narrativa irônica sobre histórias que catequistas contam




1. Eis a história, conforme ma contaram os catequistas. "Deus" criou o homem bom. Depois, criou a mulher igualmente boa. Alguns catequistas, mais ciosos das hierarquias teológicas, chegam a especular que, talvez, dado o fato de o homem ter sido criado da terra, e a mulher, do homem, sendo a mulher uma espécime de, digamos, segunda geração, seria, então, menos pura - mas, ainda assim, pura. Registre-se, é um dado importante: aos catequistas, é imperioso que a criação do homem e da mulher se dê como seres puros, porque é o caráter de "Deus" que, em última análise, está em jogo. Os homens e as mulheres são meros "peões" - na Teologia, o que conta é "Deus". Se todos os homens e mulheres desaparecem, mas "Deus" permanece, teologicamente, é um bom resultado...

2. Por alguma razão que a Teologia não consegue explicar, tão-somente racionalizar, no que ela é sempre muito bem-sucedida, a serpente não era lá tão boa, o que, todavia, deixa uma porta escancarada para especulações legítimas sobre a morada do mal no coração da própria divindade, o que se evitará, certamente, racionalizando-se uma co-existência eterna entre o-que-quer-que-seja-a-serpente, de um lado, e, do outro, "Deus". Assim, se o "mal" (mas, alto lá, em Gênesis não é o "mal" - advérbio -, mas é o "mau", adjetivo) constitui uma emergência dentro da esfera divina, não há como reputá-lo a nada que não o próprio "Deus". Para evitar essa, digamos, "culpabilização" de "Deus", só tornando o "mal" alguma coisa ontologicamente equivalente - um segundo "Deus", digamos, como o queria o zoroastrismo, ou o final da poesia de O Trem das 7, de Raul Seixas.



3. O fato é que, no mito, a serpente põe as asinhas pra fora. Primeiro, cai a mulher: o que faz sentido, já que o mito se escreve em cultura patriarcal. Depois, cai o homem, o que faz sentido, porque os homens fazem quaisquer bobagens mesmo por conta de um rabo de saia... Apesar de que, então, saia não havia, razão pela qual compreende-se a muito rápida queda de Adão... Fosse uma história real, e, ao sair do Éden, ele teria dito a Eva, piscando um olho: Mas que valeu a pena, valeu... Todavia, o que os sacerdotes-escritores-redatores queriam com a história era outra coisa, de modo que a história termina como seus autores deseja(va)m que termine, como de resto, todas as histórias escritas por escritores.

4. Os catequistas, então, me contam que "Deus" decide regularizar a situação decorrente da queda do casal primitivo. Vai dar um trabalho danado. Primeiro, convencer-nos de que a raça humana é imprestável. Deixá-los reproduzirem-se aos milhões, e, então, afogar a todos, exceto um - que assim se contam famílias, então: o "pai". Depois, dos descendentes deste, escolher um - Abraão, e, daí, fazer um povo, e daí, encarnar nele, e daí, morrer. Os catequistas me disseram, então, que essa morte resolve aquele pecado de Adão, e eu devo, então, aceitar duas coisas - primeiro, que devo satisfações a Adão, e, segundo, que a morte de "Deus" resolve essa situação embaraçosa. Recordo-me de ter perguntado aos catequistas porque eu não preciso aceitar o pecado de Adão, que me mata, mas tenho que aceitar a cura que Deus providencia, e se essa diferença não traduzia que Adão era mais eficiente no "mal" do que "Deus" no "bem", mas os catequistas me disseram que as coisas reveladas são para os homens, e as ocultas, não... Mas eu fiquei pensando, escondido, se a cura não devia ser automática e universal, tanto quanto o veneno da serpente... Essas histórias...

5. Mas eu falava da morte de "Deus" e a cura para o Éden. Resolvida a questão, o céu se abre. É verdade, entretanto, que, entre o céu propriamente dito, e minha vida atual, há um tempo a transcorrer - que Paulo considerava, inicialmente, ser breve, mas que, à medida que demorava, revelou-se que ia, mesmo, demorar, como demora até hoje... E, então, no meio desse tempo que transcorre, revela-se que, se a "culpa" foi resolvida, o resultado dela, não, porque os homens e as mulheres que permanecemos aqui, mesmo "salvos", somos aquelas mesmas porcarias que éramos, e que seremos, até que entremos no céu.

6. No céu, aí sim , será diferente. Por exemplo: lá só haverá salvos e "Deus" e anjos - e alguma garantia ainda não explicitada de que, dentre esses anjos, não surja outro Senjaza... Ora, se cá embaixo, as mulheres e suas curvas já assanharam os anjos antigos, quanto mais, lá, as belas mulheres, em coreografias no altar de "Deus", não excitará os novos anjos? Sei não... Seja como for, é o que os catequistas me dizem: salvos, "Deus" e os anjos. Mais nada. Nem lembrança. Não lembaremos dos amigos e parentes queimando no inferno, e, consideremos sempre as hipóteses, se lembrarmos, sentiremos um sentimento bom, de justiça, quase, um "coitados, mas bem-feito". Eu confesso que não entendo como se pode dizer que haverá, ao mesmo tempo, memória e felicidade no céu...

7. Além de amnésia, haverá canções - só canções. Digamos assim: se fossem os batistas da década de oitenta cantando, até ia. Mas imaginem, com todo respeito, cantores gospel das rádios evangélicas cariocas! Pelo-amor-de-Deus, saio imediatamente! Talvez os grandes compositores dos séculos de ouro dos clássicos estejam lá - e, então, talvez haja bolsões de tolerância sonora, mas se forem os funks pra Jesus, os pagodes de Deus, os rocks do Espírito Santo, sinceramente... Todavia, seja como for, quem acha que aguenta 24 horas por dia de... música?

8. E o que é melhor - ou pior? - não haverá mais pecado. Até o momento em que você entra, você carrega um corpo morto sobre as costas - como o disse Paulo. No instante em que você entra, ele cai, como o casulo da borboleta. E, aí, reside o problema... Será um ser-humano uma criatura que não pode... pecar? Será um representante da "Humanidade" uma criatura controlada por dentro, ética e moralmente, de modo que não tem mais o senso de escolha? Será que, no fundo, no fundo, a explicação para o "pecado" de Adão e Eva - "Deus criou-nos com o direito de escolher" - não terá qualquer validade na racionalização do céu? E se, a despeito do absurdo da racionalização, no céu não seremos mais "livres", porque cargas d'água já não ter criado Adão e Eva, assim, sob "controle", e evitar, assim, a desgraça da História? Os catequistas mudaram de assunto, mais uma vez...

9. Da forma como os catequistas me contaram, não vejo muito sentido na coisa. No início, sim, porque, sob o efeito hipnótico e normativo das catequeses, você crê em qualquer coisa que lhe contam, por mais estapafúrdia que seja. Todavia, em alguns casos, você pára para pensar, mais tarde, e chega à conclusão de que são histórias de fanfarrões... Essa racionalização do mito platônico, ops, paulino, não me parece fazer qualquer sentido, ao menos à luz da afirmação de que "Deus" criou homens sujeitos ao pecado, porque queria que fossem dotados de liberdade, quando, no final da história, serão lobotomizados num céu gospel... Digamos assim: "Deus" queria homens e mulheres, não antas, já que não dá pra conversar com uma anta, e "Deus" queria, no fundo, era ter com quem conversar. Entretanto, no final das contas, no céu seremos, se não antas, robozinhos-primatas... Não faz sentido, faz? Ou será que, depois do céu, teremos Éden II - a missão?

10. Felizmente, isso é o que os catequistas me contaram. A história que os catequistas contam não faz sentido. Mas é a história dos catequistas. Eventualmente - quem sabe? - a história seja bem outra. E, então, chego à conclusão de que me parece mais prudente aguardar que Deus ma conte, pessoalmente, quando e se a contar. Porque, cá entre nós, esses catequistas...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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