sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

(2016/007) Teologia Negativa: para quem ainda não aguenta o espelho...

A Teologia Negativa foi uma pousada em que me guardei por talvez um lustro. A Teologia Negativa é um porto seguro psicológico para todo teólogo progressista que se dá conta da estupidez que é a doutrina, mas não tem forças, coragem e/ou condições de extrair daí a conclusão terrível... E eu cheguei lá, eu fiz nela minha parada de descanso: olhei para a teologia confessional e doutrinária e ela apareceu para mim como Voltaire a descreve em Deus e os Homens: tralha mitológica......

Quando você se dá conta de que a doutrina é um emaranhado de racionalizações mitológicas, a Teologia Negativa (que talvez para isso tenha sido criada) vem depressa e te salva.

O que é a Teologia Negativa? Bem, de forma bem simplificada, é a teologia que diz que Deus é inefável, inapreensível, incompreensível, inalcançável, de sorte que nenhum homem ou mulher pode chegar até ele, vê-lo, falar dele ou com ele, concebê-lo, entende-lo. Quando alguém fala sobre Deus, não é mais Deus que está ali, no discurso, só doutrinas, símbolos, vento. Deus mesmo permanece sempre além e, em termos humanos, somente no silêncio...

Isso salva você, porque você consegue um modo de se convencer de que ainda é como você pensa, Deus lá, cuidando de tudo, ao mesmo tempo em que você se engana com a conversa de que ele é inapreensível. Enquanto você não se depara com essa constatação incontornável: a declaração da inefabilidade de Deus é uma doutrina!, você permanece como que resolvido.

A Teologia Negativa tem suas vantagens políticas: não há como um teólogo negativo ser um fundamentalista intolerante. É, em certo sentido, ainda, um fundamentalista, mas ele está carregado de uma potência de tolerância colossal, porque ele não tem mais condições de brigar por doutrinas...
... exceto uma, claro: ateus são ignorantes! Percebem? O teólogo negativo não se deu conta, ainda, de que a crença na existência de um Deus inapreensível é doutrina! Ele finge que jogou fora as doutrinas, mas ao preço de não jogar fora a única que ele não pode jogar...

Quando eu descobri isso, nenhum teólogo progressista pôde (nem pode) me dizer mais nada, porque o teólogo progressista, quando posto contra a parede com os argumentos acima expostos, responde assim: mas teologia é crença em um ser superior...

... e eu não tenho mais como falar coisa alguma...

É óbvio que essa definição de teologia é tão equivocada quanto um teólogo pode ser. Mas ainda impera, seja entre fundamentalistas intolerantes, seja entre fundamentalistas tolerantes.

Quais deles eu prefiro? Os tolerantes. Mas não se enganem: o discurso a meio caminho deles acaba por ser ninho onde se chocam outros ovos.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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