sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

(2016/002) Entre um deus inútil e um deus horrível


Vamos brincar de racionalizar mitos, isto é, vamos fazer teologia clássica, moderna ou pós-moderna?

Vamos! Eba!

Assim: na obra de um pequeno templo cristão de periferia, uma criança fura o pé em um prego de tábua e vê-se acometida de tétano. Vai morrer em dois dias.

...
Pois bem.

Deus a pode curar?

Pode.

Curá-la seria um bem para ela?

Seria.

Bem, já que Deus a pode curar e curá-la seria um bem para ela, se Deus não a cura, e não cura mesmo, porque ela vai morrer em dois dias, e ela e milhões de crianças, todos os anos, então Deus peca, porque quem pode fazer o bem e não faz comete pecado. De sorte que Deus é pecador.
Não, porque Deus não pode curar...

Ah, não? E então como é Deus, se há algo que ele não pode fazer?

Não, mas ele mesmo é que limitou-se em seu poder por força do livre-arbítrio que deu ao homem...
Bem, não entendo o que livre-arbítrio tem a ver com um pé furado em prego de obra, mas, em todo caso, Deus fez uma lei que ele mesmo não pode contornar?

Sim.

Então, a lei é maior do que Deus?

(...)

Podem ser os mais desgraçados dos homens, por alimentar em fogo brando um deus tão desgraçadamente pervertido, mas a única teologia que faz algum sentido, se teologia é racionalização de mitologia, é o ultracalvinismo. Isso faz de Deus um pecador, já que ele é poderoso, pode fazer, mas não faz porque decidiu não fazer, mas, para um deus, é melhor ser uma besta pervertida, mas soberana, do que um espectro retórico que não pode fazer alguma coisa que devia... O deus pervertido ao menos não faz porque não quer.

Inútil um, um crápula, o outro.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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