terça-feira, 6 de janeiro de 2015

(2015/052) Questões sobre o retorno da religião reacionária a partir de 1850

Eduardo Calil Ohana e demais interessados sobre os préstimos da teologia ao reacionarismo político-social no século XIX.

Minha pesquisa sobre a raiz br' levou-me à constatação factual de que, a partir de 1850, a crítica filológico-histórica foi solapada pela reação conservadora-ortodoxa teológica. Os verbetes foram sistematicamente alterados. Ninguém me contou - eu li todos os verbetes que encontrei, algo em torno de 20 léxicos e dicionários em alemão, latim, inglês e francês de 1750 a 1913. De 1750 a 1850, a abordagem é filológica - e tudo quanto se diz, hoje, da raiz, não encontra um fundamento sequer naqueles tempos.

A partir de 1850, muda tudo. Os verbetes de bará são todos reescritos e teologizados. Percebi uma tsunami de reação conservadora e posso demonstrar isso factualmente, por meio da indicação dos verbetes de antes e de depois de 1850. Gesenius, por exemplo, teve seu verbete totalmente alterado.

Ainda não se inventará aí a teoria das três raízes (isso é coisa de 1913), mas inventou-se a ação exclusiva da divindade sobre a raiz, pelo artifício de a) afirmar que o sentido teológico está em qal e que b) só Yahweh opera essa raiz com esse sentido (o que não é correto sequer veterotestamentariamente, já que ocorrências em Ezequiel o desmentem).

Isso eu descobri sozinho. Liguei o fato aos três movimento de reação conservadora da teologia europeia e americana: a) Vaticano I, b) Barth e a teologia neo-ortodoxa e c) o fundamentalismo histórico dos EUA.

Mas foi Domenico Losurdo que me fez entender a razão dessa onda conservadora, capitaneada pela teologia nos espaços eclesiásticos, mas operada para fora das igrejas e transbordada para a plataforma pública: por isso, não me engano com essa história de "teologia pública" hoje.

Losurdo afirma, indica os personagens históricos, cita seus textos e esclarece a questão política de fundo: 1848 e a nova onda de revolução na França apavorou a Europa. A Igreja e a Teologia convenceram-se de que era preciso frear o movimento emancipatório das massas e que a crítica bíblica estava exercendo um papel nefasto no tecido social - isto é, na manutenção do status quo!

Todo o resto é fácil de compreender... O que foi a Teologia da Libertação, na América Latina, a Teologia europeia o foi, em sentido contrário, no século XIX - aqui, cafeína, Lexotan; lá, ópio e Prozac. Nos dois casos, drogas para as massas.










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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