sábado, 29 de março de 2014

(2014/076) A Bíblia que eu amo


Falem o que quiserem, digam o que desejarem dizer - adoro a Bíblia. Não tem livro de que eu goste mais. Mas não é a Bíblia que o crente lê aquela de que eu gosto - essa só existe no púlpito e na cabeça dele. Na vida real, não. A Bíblia de que eu gosto é aquela que eu desmonto, que eu cavo, de sobre a qual eu tiro os entulhos da tradição, os pedregulhos do dogma, a poeira das espiritualidades, e fica só os ossos daquela gente já morta, caveiras, cabelos, dentes, só o que sobrou- e, então, eu tento, pacientemente, com carinho e amor, sim, amor, amor ao livro e não às catequeses que, zumbis e fantasmáticas, voejam sobre ele, vou tentando animar os cadáveres, ei, acorda, ei, levanta, e vou tentando reanimá-los, e eles, mortos-vivos, e elas, mortas-vivas, se levantam, nem vermes mais há ali, há tanto morreram, e conversamos, sem ninguém a nos encher o saco com teologias nossas, liturgias nossas, mitologias nossas, porque interessam-me só os mitos deles, as teologias deles, as mitologias deles, suas histórias, suas mentiras todas, suas verdades, a sua vida. Amo essa Bíblia. A dos crentes, não, que não amo coisas inventadas.







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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