segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

(2014/041) O termo "satan" em Zacarias 3,1-10

Trecho, ainda sem revisão, de um artigo que estou escrevendo, sobre o sentido da palavra "satan" na Bíblia Hebraica.

O Sä†än que se coloca à direita do grão-sacerdote Josué ali está para acusá-lo. Em hebraico, evidencia-se o jogo de palavras entre os termos “o acusador” (haSSä†än) e “acusar” (lüSi†nô) (Zc 3,1). Isso me parece indicar que o eixo da narrativa constitua justamente essa acusação. Qual seja a acusação que o Sä†än apresenta contra Josué, isso se pode identificar por meio das respostas que o Mensageiro de Yahweh dirige àquilo que funciona como as acusações não explícitas, mas respondidas, do Sä†än. A cena, então, pode ser interpretada como um “julgamento”, no qual o Sä†än exerce as funções de promotor e o Mensageiro de Yahweh, de defensor. Uma vez que as acusações não são explícitas, só se pode recuperá-las por meio da análise retórica da defesa.

O primeiro pronunciamento da defesa é este: hálô´ zè ´ûd muccäl më´ëš (“acaso não é este um tição tirado do fogo?” (Zc 3,2). A forma verbal é própria de uma ação efetivada sobre o sujeito por um terceiro – acusativo passivo: ele, Josué, esse tição, foi tirado do fogo. Parece que está implícito que Yahweh, representado pela defensoria, declara que ele mesmo o tirou do fogo. A ideia se encontra – no mesmo sentido – em Amós 4,11, onde também um tição é tirado do fogo. No contexto de Zacarias, a resposta da defensoria faz sentido se a acusação trabalhava com a afirmação de que Josué estivera no fogo – essa, então, seria precisamente a acusação: Josué, pretenso grão-sacerdote, fora, na verdade, um dos homens lançados ao fogo. A defensoria, por sua vez, não o nega – todavia, ela, a despeito de não negar, acrescenta que, apesar de Josué ter estado no fogo, Yahweh o tirou de lá, como se tira uma brasa da fogueira. Se fora caso de ter estado no fogo, não é mais – e não é mais por uma decisão da divindade.

O fogo, portanto, parece ser uma figura para o cativeiro. Josué, com efeito, é um dos homens da golah. Retornando décadas depois da deportação, a golah ensaia assumir o poder em Jerusalém. Alguém, todavia, reage: mas como pode você pretender governar sobre nós, você que foi deportado, mandado ao cativeiro, castigado pelo fogo do juízo divino? A defensoria não pode negar o evidente fato de que, com efeito, Josué esteve, até ontem, no cativeiro. Tão pouco a defensoria está em condições de negar que se tratara de “fogo” – isto é, de “castigo” (seja como for, de uma situação da qual é-se necessário tirar alguém). Assim, só resta à defensoria assumir o discurso da acusação, mas superá-lo: sim, Josué esteve no fogo – isto é, no cativeiro, ou seja, no “castigo” –, mas, agora, como se faz com uma brasa de braseiro, Yahweh o tirou de lá, Yahweh o trouxe, Yahweh o quer como governador do povo.

O julgamento não termina. A narrativa avança para constatar outro problema: Josué está vestido de vestes sujas (Bügädîm cô´îm) (Zc 3,3). Assim como assumira o fato do cativeiro/castigo, a defesa igualmente não tem dificuldades em assumir que o grão-sacerdote está com as vestes impróprias, sujas, conseqüência, certamente, de seu período de castigo na Babilônia. Está-se, aí, na continuidade do discurso acusatória da promotoria – que condições tem o grão-sacerdote de se apresentar como tal, ele que se encontra vestido de vestes sujas...? Da parte da defesa, da mesma forma como se assumirá a condição de “cativo castigado” de Josué, assume-se, agora, que ele, de fato, se encontra impropriamente trajado. Mas essa anuência entre a defensoria e a acusação funciona apenas como trampolim para mais um argumento da defesa: ordena-se que as vestes sujas de Josué sejam tiradas e substituídas por vestes limpas (Zc 3,4). Isso tem o significado de torná-lo “justificado”, “limpo”, “puro” – “eu tirei de ti a tua iniqüidade” (he`ébarTî më`älÊkä `áwönekä).
Com vestes limpas, um tição tirado do fogo, Josué está declarado em condições de cumprir a determinação de Yahweh – se ele guardar os seus caminhos, Yahweh o confirmará como juiz de sua casa (Zc 3,7). Até esse momento, a narrativa tratava de confrontar a acusação. Vencida a acusação e “inocentado” o réu, a narrativa, agora, volta-se à retórica da legitimação de seu papel de grão-sacerdote: na condição de que guarde os “caminhos” de Yahweh, Josué será colocado como “cabeça” em Judá.

Pois bem – toda a peça de defesa permite entrever no “acusador” ninguém mais do que o “povo”, em sentido amplo, ou grupos político-religiosos específicos que, em face do retorno da golah e, particularmente, da pretensão de Josué de tornar-se grão-sacerdote e, conseqüentemente, assumir o governo da “nação”, insurgem-se contra o recém-chegado, acusando-o de não ter condições de assumir o governo por força de seu estado de “pecado”, mais especificamente pelo fato de ter sido castigado por Yahweh, logo, rejeitado. O castigo é assumido como fato, mas a defensoria contorna as implicações dessa memória evocada e declara o proponente ao cargo um homem justificado e inocente, justo e limpo, levado a essa condução por ninguém mais do que o próprio Yahweh.

Isso posto, resta dizer que nesse Sä†än não há qualquer indício de um “diabo”. Sequer se pode entrever aí uma espécie de “embrião” do que, mais tarde, viesse a ser, aí sim, um “diabo”. O uso do termo Sä†än nessa passagem reveste-se do sentido prosaico do termo: acusador, adversário, e serve para tão-somente classificar, em registro metafórico, o contingente da população de Judá que rejeitou a golah e acusou-a de profanada. Sä†än aí não passa da própria população, adversária explícita e acusadora dos recém-chegados sacerdotes judeu-babilônicos.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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