quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

(2014/003) Edson Fernando de Almeida

Lamentavelmente, não me soou como nenhum tipo de surpresa. Fui informado por um amigo comum que o Prof. Dr. Edson Fernando de Almeida foi demitido, ontem ou anteontem, da Faculdade Batista do Rio de Janeiro (FABAT), IES sob a administração do secular Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (STBSB). Ele já me confirmou - por telefone - a informação.

Ser demitido é uma consequência possível e nada rara de todo contratado. A relação é profissional. Resolvem-se as questões homologáveis nos espaços de homologação e as reclamáveis nos espaços de reclamação. Estamos (ainda) em um Estado Democrático de Direto.

Todavia, que razões há para a demissão de Edson?

Financeiras? Mas, então, demiti-lo em janeiro e ter que, por força de Convenção Coletiva de Trabalho do Sindicato dos Professores do Rio, pagar-lhe, integralmente, todos os salários até junho? Não, não me parecem financeiras as questões.

Profissionais? Impossível. Fui colega de Edson por uma década naquela Casa, e fui seu coordenador de curso por pelo menos uns três anos. Impecável. Irrepreensível. Se havia um homem a ser vencido no quesito melhor professor da Colina, era o Edson - sempre. E penso que desde que saí de lá, em 2010, as coisas não se alteraram nesse quadro. Uma unanimidade entre alunos e professores. Penso, seguramente, que se trata inclusive de uma unanimidade para além da que eu teria alcançado, se consultados fossem todos os alunos da época em que estávamos juntos na carreira. Penso que haveria menos alunos desgostosos de Edson do que de mim, à época, porque, diferentemente de mim, Edson é pastor e de índole pastoral, um professor que, como ninguém, consegue fazer a ponte entre a academia e a pastoral. Eu sou apenas um teólogo crítico. Edson, um homem de alma enorme, de competência profissional irreprovável, de a uma coerência moral irrepreensível - para além dos jogos e encenações dos burocráticos. Um professor excelente. Um homem excelente.

Temo, portanto, que as razões que levaram à sua demissão não estejam distantes daquelas que reprovamos na pior dimensão da tradição batista. Com um passado de bons exemplos, desgraçadamente, nossas administrações institucionais-eclesiásticas recorrem - (quase?) sempre - aos piores modelos macartistas daquele país de tristíssimo exemplo. Estamos a dias da Convenção Geral da CBB - que data para demitir-se um "corpo estranho", não...?

Uma lástima para a Colina, para os alunos e para as alunas que lá ficam. O Seminário como um todo e a FABAT em particular experimentam, num dia, o que Eike Batista experimentou ano passado - está consideravelmente mais pobre a Tijuca, infinitamente menos rica, a Colina. Em nome de que valores?

Quero dizer a Edson que, onde eu for professor, ele é meu colega. Onde eu for coordenador, ele é meu professor. Se eu puder, se estiver em minhas mãos, faço de tudo para tê-lo como colega de cátedra. Não recomendo muita gente - Edson, recomendo de olhos fechados.

Fecho minha declaração pública lembrando o contexto em que Edson foi para a Colina. Israel Belo de Azevedo sonhou com uma Pós-Graduação de qualidade. Não havia batistas diplomados que dessem conta - eram os anos 2.000. Israel levou para lá homens e mulher de alturas monstruosas. Levou Haroldo Reimer, Ivoni Richter Reimer, Edson Fernando de Almeida, Eduardo Rosa Pereira e Luís Longuini Neto - que time! Fui aluno de todos e tive o privilégio de ter sido chamado por Israel para coordenar a Graduação, e, com exceção de Haroldo e Ivoni, todos os demais, inclusive Edson, lecionavam também na graduação. Com a saída de Edson, aquela página, aquela década, some, mais uma vez, sob os escombros dos desmandos feitos às saias de Deus, Deus, essa coisa de se usar para as razões mais inconfessáveis, Deus, essa coisa-retórica que os homens de Deus usam para se esconder do espelho.




Osvaldo Luiz Ribeiro

PS. Quando Marilena Chauí ataca os cursos de Teologia no MEC, meio mundo acha ruim. Pois eu acho que ela se revela cada dia mais certa. E não direi mais nada...

2 comentários:

Leonardo Martins disse...

O professor Edson é um grande amigo. Preciso me manifestar, tenho que fazê-lo, assim como fiz com a sua saída, igualmente lamentável. Sinceramente o que mais me aborrece o grande time de "indignados" protestado cordeiramente em silêncio.Hipocrisia irritante essa. Dá ânsia de vômito.

André Lima disse...

Uma perda sem medidas.

Minha pergunta...


Para aonde vai os rumos do Seminário do Sul, conforme já havia sinalizado em aula e para alguns colegas, a lógica da mercantilização da educação chegou também a nossa amada colina. Para os que acompanham os rumos da educação superior em nosso país vale lembrar que estamos em uma lógica mercantilista sim, aonde em menos de 10 anos cresceu muito o numero de universidades e institutos de educação superior, e com eles, inúmeros cursos e inúmeras vagas para graduação.
Isso seria uma boa notícia se essa política de pseudo-acessibilidade ao ensino superior, não abrisse as pernas para cursos que só tem o interesse em inchar suas salas de aulas e encher os bolsos de dinheiro dos grandes tubarões da educação. A lógica dos pós-médios, tecnólogos e cursinhos de rápida especialização coloca em cheque um dos princípios de uma boa educação, PESQUISA.
Será que em 2 anos existe tempo para um aprofundamento que permeia teoria e prática, acredito que não. Em 2 anos de ensino o que se consegue é pinceladas teóricas e superficiais e graduados prontos para atender a fome voraz da demanda mercadológica de mão de obra e não agentes de transformação.
Estamos retrocedendo a lógica, eternizada no filme “Tempos Modernos”, porém existe uma diferença preocupante, no filme a mão de obra mecanizada e adestrada é formada nas fabricas e industrias no dia a dia laboral, hoje essa mesma mão de obra, tem sido formada e moldada dentro das nossas instituições de ensino superior.
Por fim, vejo uma lógica igual chegando ao nosso espaço, espaço esse que aprendemos a pensar o que se pensa sobre Deus de forma livre e desafiadora de nossa fé.
Vejo o nosso seminário caindo nas garras dessa mercantilização, daqui a pouco estaremos formando pastores e ministros em cursos politécnicos, em 2 anos os pastores estarão formados e “prontos” para assumir seus “ministérios” e atender a alta produtividade de criação de novas igrejas, moldadas, padronizadas, normatizadas, com uma mensagem focada na batalha dos mundos, na dicotomia céu e inferno, na luta entre o sacro e o profano, na batalha entre o mundano e o crente, e não no Deus de pés descalços, no Cristo de toda raça, de todos os povos, de toda gente de todo universo, no Jesus subversivo e tão humano que só poderia ser Deus.
Agradeço a Deus por ter aulas com mestres como Edson e Oswaldo, protagonistas nessa resistência e que me desafiaram a permanecer resistindo e assim vou me manter. Lamento pelo futuro acadêmico e ministerial dos colegas que ficam e tenho receio quanto às futuras gerações de ministros e pastores que saem da Colina. Peço a Deus está errado...

Sinceramente

André Lima - Seminarista - FABAT

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