terça-feira, 12 de novembro de 2013

(2013/1345) Sobre suicídio


Matou-se. Não tem direito ao céu.

Mataram mais de um milhão - galardões os esperam das mãos do próprio Deus...

E o demente é o suicida...

(...)

Ser contra suicídio: prova inequívoca de absoluta incompreensão da auto-determinação intrínseca humana e, no fundo, servidão a velhas doutrinas religiosas - por mais que disfarçadas em alta filosofia "humanista"...

"Sou contra o suicídio", diz o idealista...

(...)

Nascer não é um ato de vontade. Antes de José tornar-se um sujeito de vontade, Maria e João deitaram-se ao pé de alguma árvore e entregaram-se a toda sorte de amores, ou, eventualmente, nem bucólica era a cena, foi um encontro esporádico e sem maiores conseqüências em um terminal de ônibus - pelo menos não maiores do que José, naturalmente...

Ele, então, foi cuspido na terra pelo corpo que, depois de o criar, o manda embora. E ele está lá, sub-ele, sequer tem noção do que seja, não tem vontade que se expresse por meio de nada a não ser o impulso de gritar - ainda que haja bebês que não o façam, e é esse o seu modo de reagir ao abandono.

Se José teve sorte, depois de lhe terem parido, sem que pedisse ou soubesse, vão lhe dar de comer, beber, viver. Um dia, despertará desde si mesmo e para si mesmo e, então, se descobrirá como um "eu", preso, todavia, à família e suas injunções, à sociedade e seus imprintings, à cultura e seus casulos. Mesmo um "eu", ele é ainda mais "outros" dentro de si do que ele mesmo...

No fundo, a única coisa que ele pode fazer, de si, por si, sem que ninguém o possa impedir, se ele para isto estiver ferreamente determinado, é matar-se. 

Matar-se. Ato humano fundamental. Ato do eu. Soberano. Alguns tomarão o ato como doentio - mas, senhores, cá entre nós, mais do que a própria vida?

Encaro esse homem aqui e agora como dono de si - reconhece nele essa soberania - porque ele pode e eu não vou mistificar sua soberania, para fazê-lo crer que ele não possa, não deva, que é feio.

Não. Não é feio. 

Conquanto, eu reconheça, seja, muitas vezes, a feiura extrema da própria vida o estopim que dispara a bomba da máxima ação autônoma.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Sobre ombros de gigantes


 

Arquivos de Peroratio

Ocorreu um erro neste gadget