domingo, 3 de novembro de 2013

(2013/1315) Da mais mal-feita doutrina da fé cristã


Na mais antiga tradição judaica, Deus era bom/mau, era bom e mau, não era nem bom nem mau - escolhe. Era pensado como os reis: fazia o que lhe dava na telha. Se o bem, o bem, se o mau, o mau. E dane-se...

Duvide, não, rapaz, que ele tinha orgulho disso. Leia lá Is 45,7 e presta atenção...

Não havia contradição lógica entre a vida e a teologia: se você está bem, é Deus, se está mau, é Deus. Pronto. Mito por mito, esse era fácil de aplicar, e valia tanto para dias de chuva quanto para dias de sol...

Então, por obra do acaso da História, os persas tornaram-se formidáveis e senhores de Judá. Os judeus aprenderam que Deus ou era bom ou era mau, mas não podia ser, ao mesmo tempo, bom e mau, não fazia sentido. 

Então, os judeus decidiram que Deus era só bom...

Nesse dia, deu-se a desgraça. O mito tornou-se imprestável. Ora, se Deus é bom, por que ocorrem coisas ruins? Até hoje, tem gente boa, da pastoral, tentando resolver o que não tem solução: deixaram-se arrastar pela corrente aleatória da história, e acham que se trata de um mistério teológico, quando, a rigor, é só mito mal feito mesmo...

O que os judeus fizeram é uma coisa horrível, em termos de lógica. Como não puderam pensar um deus mau que fosse adversário do deus bom, criaram o monstro teológico de um mundo desgraçadamente mau que era administrado por... um deus bom! Voltaire divertiu-se à beça com isso...

Mais tarde, a coisa ficou ainda pior, porque a mitologia bruta transformou-se em refinada filosofia (ai!) - e a conta fica ainda pior de fechar... Um teísta filosófico só perde para um teísta com bomba...

Inventaram, então, que deus tinha um adversário. No início, era só o que puderam pensar. Mais tarde, lhe deram nome, feições, história. Fora um dos filhos de Deus que, descendo à terra, fizera sexo com as mulheres, ele e um bando de melachim (mensageiros). Deus não gostou, castigou todo mundo e, como vingança, eles ensinaram as coisas más aos homens e às mulheres.

Mais tarde ainda, parte desse mito foi deixado de lado, e, no lugar, pôs-se outra invenção cultural: não foram anjos descendo a terra para sexo, mas um anjo, no céu, querendo tomar o lugar de Deus que, então, o expulsa. Muda o começo do mito (para tentar afastar a ideia de sexo entre homens e anjos), mas mantém-se o resto, porque há que ter alguém, que não seja Deus, para culpar-se pelo mau...

Bem, nenhuma doutrina é mais mal acabada do que essa. Se Deus fez os anjos, então os fez mal-feitos, porque se tornaram maus. Se Deus fez os homens, então os fez mal-feitos, porque se tornaram maus. No fim, a culpa sempre cairá no colo de quem é o único responsável...

Dá até para dizer que tudo que Deus fez, acaba dando errado...

Fico a pensar na solução para isso: um céu de perfeições... Bem, o céu não era perfeito, antes de o diabo pecar? E o jardim não era perfeito, antes de Adão e Eva pecarem? Um céu perfeito, é? Bem, a julgar pelo que Deus fez no passado, e no que deu, se for ele a fazer esse céu, de novo, não duvido que comece tudo outra vez...

Coisa mais mal-feita essa doutrina, viu...?








OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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