segunda-feira, 30 de setembro de 2013

(2013/1129) Sobre "um" recorrente Israel que eu nunca encontrei na Bíblia, mas que habita os manuais de Introdução ao Antigo Testamento


Que força é essa que opera (sub-repticiamente?) em muitas Introduções ao AT e até em muita literatura extra-canônica?

Explico: trata-se, quase sempre - senão sempre - se pensar-se a produção de determinado livro como produto da relação "Israel" (como um todo) e os povos ao redor. Fala-se de memória, produto cultural, cultura, fé, seja o que for, mas, sempre, de "Israel" - aí, tratado como uma grandeza monolítica em face do qual se apresentam, como contexto e/ou adversários/deuteragonistas, os povos ao redor.

Por exemplo, Enoque - trata-se de tratar o livro como resposta de "Judá/Israel" aos gregos. Acabo de reler um capítulo de Zenger, Introdução ao Antigo Testamento, em que Herbert Niehr, introduzindo o Livro de Josué, faz a mesma operação - Judá versus Babilônia. Eis o parágrafo:

"Em nenhum outro livro do AT fala-se com tanta freqüência de guerras, atos violentos e aniquilamento de pessoas e animais como no livro de Josué. Como de resto no antigo Oriente, as guerras narradas neste livro são realizadas por incumbência do Deus da terra. Ele dá a ordem de submeter um país e aniquilar seus moradores, caso ofereçam resistência. israel imaginou sua conquista da terra, no tempo anterior ao reinado, de acordo com esse modelo. Não se pode ignorar que o livro foi concebido no momento da maior impotência de Israel, depois da perda da terra em 586. Nessa concepção da ocupação da terra desembocaram as dolorosas experiências de Israel e Judá com a dominação assíria e babilônia, que demonstraram na Palestina como se subjuga uma terra habitada" (p. 175).

Israel é o "autor" de Josué. Eu poderia apontar algumas impropriedades no parágrafo, mas quero apontar apenas uma questão: não será muito mais simples pensar que não se trata de Israel versus Babilônia, mas de a elite de Israel versus a população campesina, de resto considerada pela elite gente desqualificada, idólatra e tudo o mais que o juízo sacerdotal fez questão de deixar claro? Não será que a violência do livro serve apenas para emular a violência efetiva que a golah dirigiu à população? Não se está falando, com Josué, sumosacerdote da golah, de efetiva tomada da terra dos camponeses, quando do retorno da elite sacerdotal da Babilônia? Josué não é, afinal, Josué?

Será que, no fundo, quando abrimos tais livros, os lemos como "igreja" - e tal sorte que, sendo a igreja contra o mundo, tratamos de ver, sempre, Israel contra o seu próprio mundo? Quando transformamos Israel e suas contradições internas, seus grupos sociais em conflito, suas teologias antagônicas, em uma grandeza unificada, não estamos, aí, operando a dissimulação dos fractais eclesiásticos numa hipóstase mítica que nos anima a consciência e, então, a embota?





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

Um comentário:

julio zabatiero disse...

Em minha "Uma História Cultural de Israel", a sair pela Paulus, há uma breve discussão sobre o nome Israel e seu referente... apesar de historiadores de "Israel" trabalharem a questão, ainda se usa o hábito de reificar e absolutizar um sentido teológico ou religioso do termo Israel ...

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