sexta-feira, 19 de julho de 2013

(2013/754) Rascunho para um romance



Sem sursis
– o julgamento de Yahweh


A sala era gigantesca. Não, enorme mesmo, sem exagero. Muito grande, com uma cúpula cujo ponto mais alto apenas se adivinhava aqui de baixo, já que é impossível que uma cúpula seja construída com um buraco em cima – vai que chove.

Yahweh sente-se desconfortavelmente pequeno, e comenta, meio assustado, com Nehushtan: _ Eles fizeram de propósito, não? Quero dizer, enfiar a gente aqui nesse mausoléu dos infernos, grande como o diabo, pra eu me sentir menor do que sou. Nehushtan apenas olhou a face assustada de Yahweh, bateu as asas, e arrumou-se na cadeira: _ Dura demais essa cadeira.

Um barulho muito alto, surdo, encheu o mundo – aquele lugar era do tamanho de um mundo, mesmo. E soube-se que alguém entrava. Tão longe era a porta, que primeiro chegaram os barulhos dos passos, pés contra a madeira secular, milenar, da sala, e, somente depois, começou a desenhar-se, ao fundo, contra a claridade da porta, ainda aberta, a figura daquele velho. _ Ah, ele chegou.

O velho aproximou-se muito lentamente, muito solenemente, do grande púlpito, desde onde a figura terrível do Juiz se pronunciava. Ele, o velho, trajava um manto muito antigo, com mangas largas, de enfiar os braços todos, pano demais para uma pessoa só. Nada sobre a cabeça – protocolo –, seus cabelos brancos, compridos, lhe davam um certo ar de empréstimo a Gandalf, idéia que me vem agora à mente, para meu desgosto, que deste eu até gosto.

Olheiras profundas, de um roxo de chumbo, de boêmio, de cantor da noite. E que nada! De fato, ele traz – sempre – consigo o seu pote. Um pote de vidro antigo, com tampa ainda de ferro batido, cheio o vidro de formol. Carrega-o como a um tesouro, e, pela posição, próximo do peito, com o braço virilmente apoiando-o em seu peso, será natural tomar uma tal atitude como ostentação, orgulho, vaidade, mesmo, que ele ainda não se terá arrependido de sua insanidade – ou coisa pior.

_ Aproxime-se!

O que fez. Não, contudo, sem antes, virar-se de um lado, lentamente, e, desconfio, como a forçar que o vidro, colado ao peito, fosse observado por esse lado do auditório, a platéia dividida como os dois lados do Mar Vermelho, tendo ele, qual Moisés redivivo, atravessado o leito seco. Depois, virou-se também lentamente, meneando a cabeça, em cumprimento – ele acha que isso é um espetáculo!, não se lhe dá a gravidade da situação –, para o outro lado, também onde apinhavam-se centenas, milhares de curiosos, todos sentadinhos, como manda o figurino. Depois, sim, aproxima-se, a luz incidental de um candelabro batendo sobre a superfície tagarela do vidro, exponde-se, lascivamente, o conteúdo indecente.

_ Sabe por que está aqui, Agostinho?

Ah, sim, eu acabei deixando de dizer – é Agostinho. Em pessoa. De Hipona. O arquiteto. Eu diria tratar-se do plagiador dA República, mas estamos na Corte, e convém prestar atenção.

_ Penso que sim, meritíssimo. Penso que sim.

_ Quem o representa?

_ Eu mesmo, meritíssimo. Eu mesmo.

_ Sente-se, então.

Agostinho olhou à esquerda do Juiz, desde onde surgiam inícios de degraus, espiralando-se suavemente. Caminhou, pôs-se a subir por eles, deu duas voltas em torno do centro, e sentou-se, lá em cima, na cadeira. De lá, pôde contemplar o gigantesco auditório, as milhares de cabeças, o dobro de olhos, corações palpitando, curiosidades escorrendo pelos poros.

O Juiz até ofereceria o meirinho, para guardar o vidro, mas, sabia, Agostinho recusaria. De fato, o vidro foi meticulosamente colocado sobre o joelho direito, firmou o tronco, ergueu a face, levantou o nariz, e sorriu, ao mesmo tempo em que dirigia um olhar para Yahweh, que, decodificado, dizia: “_ Tranqüilize-se. Está tudo bem. Estou aqui, agora”.

_ Você poderia começar, Agostinho, apresentando seu depoimento a respeito do acusado. Digamos, primeiro, dissertando a respeito de seu caráter, essas coisas. Ao final, poderia, então, tratar especificamente do caso em julgamento. Parece-lhe bem assim?

_ Naturalmente, senhor meritíssimo. Naturalmente.

Agostinho levantou o vidro até a altura do peito, abraçou-o com um dos braços, e, com o outro, apoiou-se no braço da cadeira. Levantou-se num esforço de aparentar mais jovialidade do que, todos sabemos, realmente tinha. O Juiz distraíra-se por um momento, consultado anotações e assessores – de fato, há um número enorme de pessoas atrás dele –, e não vira o gesto de Agostinho, que já ia abrindo a boca. _ Por favor, Agostinho, sente-se. Seu depoimento deve ser apresentado à Corte, estando você assentado. É o protocolo. E, afinal, não estamos em uma, na sua, igreja. _ Naturalmente, meritíssimo. Naturalmente. Ao que um constrangido Agostinho voltou à sua posição, na cadeira, devolvendo ao joelho o vidro de formol. Não gostou do burburinho que se fez, obviamente por conta de uma certa animosidade da platéia em relação ao defensor de Yahweh. E, por causa disso, tanto quanto para ver se silenciava a platéia, bradou um “senhores” bem alto, que, subindo até as indiscerníveis alturas da cúpula, ecoou algumas vezes, fazendo vibrar o salão inteiro. Nehushtan lembrou-se do dia em que um Isaías atrevido aproveitou-se de seu descuido, e invadiu, também ele, os aposentos sagrados de Adonay. Acho que foi por causa do efeito da voz contra a madeira do salão, que o fez vibrar, como num terremoto, como numa forja.

_ Senhores...

... e, num ímpeto, Agostinho põe-se de pé, suas juntas muito velhas rangeram, mas ele agüentou firme, sempre, sempre, para sempre ostentando, abraçando-o contra o corpo, aquele vidro. _ O que é que tem naquele vidro, Yahweh? Pergunta uma Nehushtan curiosa.

_ Estamos aqui, reunidos, no dia do ano da graça do Nosso Senhor Jesus Cristo, diante do trono da graça do Nosso Senhor Jesus Cristo, mercê...

_  Por favor, Agostinho. O senhor não pode – não pode – discursar aqui.

_ Mas, meritíssimo, vê o povo. Ele pede.

_ Agostinho, por favor. Sente-se e reserve-se o dever de  a p e n a s  apresentar seu depoimento a respeito do caráter do réu.

_ Mas, meritíssimo...

_ Senta, logo, Agostinho!

Não, o som, a voz, não saiu da mesa do Juiz. Milhares de olhos, também o do Juiz, o de Agostinho, buscaram freneticamente a fonte daquela ordem, Agostinho, inclusive, antes de obedecer-lha, e ei-la, um Yahweh, de pé, dedo apontando firmemente para a cadeira das testemunhas: _ Senta logo esse traseiro gordo nessa cadeira. Agora.

Não, juro. Foi exatamente essa a palavra que Yahweh usou – “traseiro”. Ah, sim, muita gente, inclusive umas senhoras beatas, uns senhores sisudos da Opus Dei, uns jovens seminaristas evangélico-protestantes brasileiros, e um sem número de gente, constrangeu-se de que Yahweh pudesse usar um termo assim, digamos, tão chulo. Eu, confesso ri-me por dentro, achando graça. Talvez a expressão tivesse tido mais efeito se, em vez de “traseiro”, Yahweh tivesse dito “rabo” – _ Senta logo essa rabo gordo nessa porcaria de cadeira, Agostinho! Não é? Mais incisivo, mais realista até. No fundo, as pessoas que se enrubesceram, que se constrangeram, não têm por hábito ler – traduzir que seja – os textos hebraicos do seu Velho, digo, Antigo, digo, Primeiro Testamento, digo, Bíblia Hebraica, digo TaNak, ai, meu Deus, quanto esforço para ser politicamente correto. Eu aqui me recordo daquela passagem em Ex 33,18-23, especificamente ali, no verso vinte e três, em que essa palavra, “traseiro”, é usada para referir-se ao “traseiro de Yahweh”. Não, é verdade. Juro. Não me crê, vai lá e lê – no hebraico, claro. É aquela passagem em que Yahweh, de forma sumamente sarcástica, negando a “ele” – “ele”, apenas, que o nome “Moisés”, malgrado constar das versões tão devotas, não consta, não, do texto hebraico –, sugere tomá-lo, enfiá-lo numa buraco, ali, da penha, e, então, tapar com a mão a boca do buraco – uma paródia da caverna de Elias, está claro. Tapado ali dentro do buraco, lá fora, Yahweh passa. Quando termina, tira a mão, e, então, “ele” pode olhar – mas não verá a face de Yahweh: verá, apenas, seu traseiro. Um Almeida mais sutil preferiu “costas”.

_ Senta esse traseiro gordo aí, caramba! Yahweh insistiu, porque Agostinho demorava-se a sentar-se. _ Agora! Agostinho respira fundo, olha ao redor, para todos, todos olhando, agora, não mais para Yahweh, porque a cena inaudita já fora assimilada, afinal, ele é Yahweh, mas para ele, a ver se vai, mesmo, rá rá rá, pôr o traseiro gordo na cadeira. Pôs. Três anos e meio depois – tanto que demorou. Mas pôs.

_ Ainda sou eu quem dá as cartas, Nehushtan. Ainda sou eu. Anotação: isso foi dito por Yahweh, claro, a Nehushtan, óbvio, pelo que, mais tarde, pode-se reconstituir, pelo depoimento de algumas pessoas próximas, que ouviram, apenas elas, e juram, o cochicho dito em tom meio escuta-não escuta.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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