sexta-feira, 22 de março de 2013

(2013/310) Dos tipos de líderes de igreja em relação aos mitos e aos textos míticos da Bíblia


1. Em poucas palavras, desde que a enorme quantidade de textos, lendas, mitos, hinos, livros sagrados, tradições e tratados religiosos dos povos do mundo começaram a invadir a Europa que os cristãos protestantes começaram a entender o caráter mitológico de sua própria tradição. Obras como The Golden Bough, de Sir James Frazer, católogo colossal de mitos do planeta inteiro, por exemplo, revelam que os cristãos do Velho Mundo aprenderam com os fatos...

2. Os fatos são amigos - escreveu Carl Roger.

3. No Brasil, lamentavelmente, os cristãos de massa derivam de outra tradição - a fundamentalista tradição dos Estados Unidos. É verdade que no início do século até havia pensamentos bastante progressistas no meio evangélico nacional. Todavia, depois da década de sessenta, o processo de estupidificação evangélica começou a alcançar patamares insuportáveis.

4. O movimento carismático, em lugar de oxigenar o mundo evangélico, atrofiou-o ainda mais, reforçando a já suficientemente obscurantista trajetória  tradicional, encapsulada em sua leitura mitológica e dogmática - sempre denominacional, dos textos bíblicos.

5. O movimento neo-pentecostal elevou os números evangélicos a cifras inimagináveis - e aquela massa, já atrofiada e embolorada por ignorância de último grau, espalha-se agora como praga...

6. Os líderes evangélicos, com raríssimas exceções, entendem que a estupidificação da fé é o caminho para a glória - de quem? Não importa que a massa caia em grotas absolutamente pervertidas - o que importa é a manutenção das posições de poder.

7. O povo é ensinado a repetir constrangedoras demonstrações de fé - fé que, nesse caso, traduz-se como nada mais do que repetição acrítica e manipulada de jargões fundamentalistas, que, para piorar as coisas, a mega-onda emocional, mágica e carismática reforça, tendo os dois momentos em comum  a demonização de toda apreensão crítica da realidade, todo esclarecimento histórico-crítico, toda reflexão filosófica que não vá à reboque dos carros da glória...

8. Nesse contexto deplorável, consolidam-se alguns modelos de liderança.

9. No extremo mágico-fundamentalista, sem exceção de denominações, o líder reforça e exige ao povo que repita as leituras literais de mitos, tratando narrativas mitológicas como descrição da realidade. O líder acredita nisso mesmo - e seus seguidores repetem seu discurso, seja ele qual for. Não é preciso dizer o desserviço que isso causa ao país em termos de educação, ciência e cultura...

10. Um outro tipo coloca-se ao lado desse primeiro. Sociologicamente, é o mesmo tipo: prega as mesmas leituras fundamentalistas, faz-se ele mesmo um "mágico" cristão. Ele faz o povo crente repetir os mitos, como se literais fossem, depauperando-o intelectualmente, vitimizando-o no campo da cultura. A diferença é que ele mesmo, o líder, não acredita nisso: ele faz por profissão.

11. Outro tipo é o líder que se faz de progressista. Você quase acredita, se o ouve aqui, ali, de vez em quando. Ele até se arrisca a receber alguma repreensão dos pares mágico-fundamentalistas. Mas ele quer aparecer como antenado, moderno, um homem dos dias. Todavia, ouça uma série de dez sermões do sujeito e verá que o rótulo oferece produto "orgânico", mas, se você analisar de perto, vai encontrar sacos e sacos de DDT atrás do púlpito.

12. Há, ainda, o líder que está constrangido com a situação inteira. Ele sabe da condição mitológica dos textos - todos. Mas sabe que a massa inteira está vidrada, hipnotizada. Se ele disser alguma coisa, sabe que a massa pode reagir de forma "violenta". Ele está preso a uma conjuntura. No gabinete, no corredor, ele até esclarece, mas, no púlpito, tem receios. É perigoso. É uma vítima, mas, ao mesmo tempo, retro-alimenta o processo fundamentalista... Não, não é sua vontade nem projeto: mas seu silêncio consente...

13. É preciso um basta nisso. O povo evangélico não pode continuar na mão de líderes que o desrespeitam em nome de um poder divino. A nação não pode progredir em Ética, em Ciências, em Política, com uma massa acrítica, obscurantizada, manipulada por pensamentos mitológicos, tomados como revelação e realidade.

14. É preciso que surjam líderes - e não serei eu - que, em posições pastorais, desengatilhem a arma fundamentalista, descarrilem o trem obscurantista, esclareçam as consciências, eduquem (e não adestrem), orientem criticamente, empoderem.

15. É preciso fazer da vocação verdadeiro serviço à população. E não há maior serviço do que elevá-la à sua condição de autonomia.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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