quinta-feira, 7 de março de 2013

(2013/206) Jesus, filho de Maria... Mas quem liga?


1. É o último recurso: o sujeito apela para Jesus, para ratificar determinadas posições. Por exemplo, Jesus "endossou" a autoria mosaica do Pentateuco! Jesus "ensossou" a homofobia, quando ratificou que Deus fez homem e mulher... Jesus, que nunca escreveu nada, é o último apelo...

2. Não sei se choro, se rio, se dou de ombros...

3. Jesus aprendeu tudo que sabe com sua mãe. Depois, eventualmente, com sua comunidade. Bom judeu, foi com sua mãe que aprendeu as coisas da fé, da religião, de Deus. É fácil explicar isso. Mais difícil é explicar de onde ele tenha tirado toda a sua crítica contra o Templo, a religião, os líderes religiosos - provavelmente, de alguma corrente popular de caráter profético no estilo de Eliseu - ainda que distante e indiretamente, alimentada, então, por correntes messiânicas revolucionárias...

4. Voltemos a Maria. Boa judia. Quando Jesus fez oito dias, ela aceitou piamente, religiosamente, devotamente, a Lei - ela, imunda, faz imundo o seu filho. Amanhã ele vai ser Deus e messias, mas, agora, ali, nos seus braços, um pedaço de imundícia, o que é todo filho de mulher, coisa imunda, ela, coisa imunda, ele.

5. Maria, boa judia, cria nisso. Pegou os dois passarinhos, coitados, lá vai mais sangue, e os leva ao sacerdote, que os vai matar para que ela, boa judia, e ele, bom filho de uma boa judia crente e pia, sejam purificados. Purificados! Vocês sabem ler? Leram? Purificados - tornados puros. Por quê? Porque são imundos. Maria creu nisso, boa judia.

6. Ensinou todas essas coisas a Jesus, coisas de machos e fêmeas, de sangue imundo, de Deus, essas coisas. Ele aprendeu. Tudinho. Até que, um dia, sabe-se lá por que caminhos, criticou umas coisas, não criticou outras. As que criticou foram suficientes para condená-lo à morte.

7. Eu fico bem feliz que ele tenha se insurgido contra o Templo, contra a sinagoga, contra a liderança religiosa de sua época - faria o mesmo hoje, provavelmente. Mas cá entre nós: aprovarei o que ele fez não porque ele fez - mas na medida em que o que ele fez, ou disseram que fez, coaduna-se com uma visão de mundo plural, ética e livre.

8. Se, em vez de orar em meu próprio quarto, subversivamente (isto é, não preciso ir na sinagoga nem no templo), ele me mandasse ir para o Templo, eu diria a ele que Maria fez um serviço bom demais...

9. Usar Jesus para a defesa de posturas anti-éticas, disfarçadas em "moralidade", honestamente, não sei se o honra. Eu acho que não. Acho apenas que é mais um prego na cruz...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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