quarta-feira, 6 de março de 2013

(2013/203) Quando Deus ainda está com os pobres, mas só vai compensá-los amanhã


1. Na disciplina de Textos 1, onde treinamos (alguns aprendem) leitura analítica (ler textos com competência), fizemos um exercício com Tiago 2,1-13, um excelente texto-modelo para leitura. 

2. No v. 5, Tiago faz uma pergunta retórica: "não escolheu Deus os pobres em bens neste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do reino"? 

3. Pergunta retórica é aquele tipo cuja resposta já está de posse da audiência - e, nesse caso, ela é sim, porque a comunidade sabe que Deus escolheu os pobres.

4. Quando perguntamos de onde a comunidade tirou essa ideia ("Deus escolheu os pobres"), precisamos especular, já que não temos nenhuma ideia concreta sobre o que a comunidade de destino do texto de Tiago pensava. 

5. Quem sabe não se trata da tradição veterotestamentária de que Deus levanta o pobre? Em 1 Sm 2,8 e em Sl 113,7, diz-se que "Deus levanta o pobre do pó e do monturo ergue o necessitado, para o fazer se assentar com os príncipes do seu povo". Deus ergue o pobre, levanta o necessitado... Deus escolhe o pobre... Será isso?

6. Sendo ou não, é curioso ver como Deus mudou de estratégia.

7. Em seu monumental Tribos de Yahweh, Gottwald trata 1 Sm 2 como uma caso típico de inversão de sorte: Deus ergue o fraco e abate o forte. Nesse caso, o pobre é levantado, e o forte/rico, rebaixado - o pobre é posto como príncipe - do chão, ao céu, do rabo, à cabeça...

8. No passado, alguém poderá dizer, Deus compensava o pobre ainda em vida - e o compensava com vida, com bens, com o principado...

9. Já Tiago acha que são novos tempos: os pobres estão aí, Deus ainda os escolhe, mas não mais para se assentarem com os príncipes - agora, devem esperar para serem ricos na fé, só na fé, nada de se assentarem com os príncipes, e, ainda assim, só no reino, quando ele chegar, se ele chegar...

10. Talvez os tantos impérios que esfolaram Israel - Pérsia, Grécia, Roma, tenham feito os judeus se darem conta de que discursos revolucionários são perigosos, que é melhor um pobre-sempre-pobre vivo do que um pobre-querendo-ser-rico morto.

11. Deus tornou-se conservador, em Tiago. 

12. Cansou-se da rebeldia - que lhe custou Jerusalém. 

13. Lembrou-se de que um dia dissera que mais vale um cão vivo do que um leão morto...

14. Meu reino não é desse mundo, dirá o Cristo dos judeus-cristãos, olhando Jerusalém incendiada...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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