_ Porque eu sou Amor, não vê?
_ Não, não vejo. Vejo apenas essa sua cara de bonzinho, mas não vejo Amor...
_ Como não?
_ Bem, eu tenho dificuldades de conciliar sua função no mundo com o Amor...
_ Como assim?
_ Bem, ou você é responsável, poderoso, ama e a vida de todos seria perfeita, ou você é responsável, mas não ama, e a vida de todos é como você quer, seja sofrimento, seja alegria, ou você ama, mas não é poderoso e cada um está entregue à sua própria sina, podendo contar só com seu igual sofrimento...
_ Não. Eu sou Poderoso e eu sou Amor...
_ Então, essa sua cara de bonzinho transparece cinismo...
_ Esqueceu com quem está falando?
_ Não: nesse momento, com a ideia de Deus que os teólogos apologistas têm, então, faça seu papel e eu faço o meu...
_ Nem aqui tenho paz...
_ Pois é: agora, voltando à questão: se você é Poder e é Amor, então não consigo entender o sofrimento dos inocentes - o estupro de uma criança de três anos...
_ Mistérios, meu amigo...
_ Não, apenas uma caixa preta onde se enfiam as contradições da fé. Quando a gente as traz à tona, os apologistas evocam Satanás. Assim, funciona com os ingênuos, mas com quem não tem medo de fantasmas e de cara feia de apologistas, não funciona...
_ Tem ideia melhor?
_ Não sobre você. Você me parece um problema sério. Não sei se uma simples recauchutagem resolve...
_ E como eu faço pra tirar essa cara de bonzinho?
_ Não faz. Não depende de você. Depende deles, os teólogos, que te fazem. Convencer você é fácil. Difícil é convencê-los...
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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