sábado, 19 de janeiro de 2013

(2013/035) A cara de bonzinho de Deus

_ Por que você tem essa cara de bonzinho, Deus?

_ Porque eu sou Amor, não vê?

_ Não, não vejo. Vejo apenas essa sua cara de bonzinho, mas não vejo Amor...

_ Como não?

_ Bem, eu tenho dificuldades de conciliar sua função no mundo com o Amor...

_ Como assim?

_ Bem, ou você é responsável, poderoso, ama e a vida de todos seria perfeita, ou você é responsável, mas não ama, e a vida de todos é como você quer, seja sofrimento, seja alegria, ou você ama, mas não é poderoso e cada um está entregue à sua própria sina, podendo contar só com seu igual sofrimento...

_ Não. Eu sou Poderoso e eu sou Amor...

_ Então, essa sua cara de bonzinho transparece cinismo...

_ Esqueceu com quem está falando?

_ Não: nesse momento, com a ideia de Deus que os teólogos apologistas têm, então, faça seu papel e eu faço o meu...

_ Nem aqui tenho paz...

_ Pois é: agora, voltando à questão: se você é Poder e é Amor, então não consigo entender o sofrimento dos inocentes - o estupro de uma criança de três anos...

_ Mistérios, meu amigo...

_ Não, apenas uma caixa preta onde se enfiam as contradições da fé. Quando a gente as traz à tona, os apologistas evocam Satanás. Assim, funciona com os ingênuos, mas com quem não tem medo de fantasmas e de cara feia de apologistas, não funciona...

_ Tem ideia melhor?

_ Não sobre você. Você me parece um problema sério. Não sei se uma simples recauchutagem resolve...

_ E como eu faço pra tirar essa cara de bonzinho?

_ Não faz. Não depende de você. Depende deles, os teólogos, que te fazem. Convencer você é fácil. Difícil é convencê-los...




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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