2. E tocou-se no assunto de minha "reação" no Congresso.
3. Para os desatentos ou desinformados, trata-se de uma vulcânica e pulsional reação que proferi à fala de Julio Zabatiero e Wanderley Pereira (ambos, meus chefes!), no Congresso da Unida, dia 19 passado. Não estava prevista a minha fala, alguém faltou e, então, Wanderley pediu-me que reagisse, como pedia o programa, às conferências que os dois profeririam.
4. Reagi.
5. Uma das coisas que disse foi que a Igreja se fechou em torno do modelo sacerdotal, e ela não consegue se pensar como outra coisa que não essa neurose de sacerdotes - tudo nela, é templário: os padres e pastores, o "altar" lá na frente, os cânticos intermináveis, as orações, os ritos de lavar e lavar, a auto-imagem do homem como um verme vermiforme, a imagem de Jesus como "Cordeiro" (morto no altar), o papel teocrático do poder... Tudo, aí, tem cheiro de Jerusalém.
6. Um fetiche. Um equívoco histórico de proporções incalculáveis. Isso é minha opinião - e qualquer pode sentir-se livre dela. Mas não eu.
7. Há outros modelos. O profético - da caridade - e o sapiencial - de eleger a vida como expressão da "espiritualidade", isto é: pão, vinho e sexo, ou, dito de forma mais bíblico-poética, "come o teu pão, bebe o teu vinho e goza a vida com a mulher da tua juventude" (ou o homem da tua juventude, faz-se mister registrar).
8. Eu elegi - para mim - o modelo sapiencial. Não me dou mais às práticas sacerdotais e não me fiz suficientemente desprendido para o ativismo de caridade, de resto que, no que diz respeito a meu dia a dia, assumi a dinâmica sapiencial de recorte "eclesiástico" (bem entendido, do Livro de Eclesiastes).
9. Alguém pode dizer que isso seja individualista.
10. E é. No que me diz respeito, é. Todavia, pensando enquanto modelo, não. Ele quer dizer que todo homem e toda mulher poderiam e deveriam viver assim, ter seu pão, seu vinho, seu amor. Não se trata de ser individualista. Se trata de pensar a vida como sendo seu próprio valor. Se trata de não imaginar um sentido para a vida fora da vida - num céu, em anjos, numa escatologia mitológica. Trata-se de olhar para a vida e perceber, como Eclesiastes, que a vida pede é mais vida, e que essa vida que ela pede, sem que para isso seja necessário um mito fundante!, é, com simplicidade, pão, vinho e amor.
11. Retornar a vida para a vida. Para cada um de nós e para todos. Democratizar o "shalom" bíblico - terra, casa, família, pão, saúde - para cada um e para todos os seres humanos. Para isso, voluntarismo apenas não é suficiente: mas as rotinas para alcançarmos essa situação são políticas, não são "religiosas". Não será na liturgia que isso se dará. Nesse sentido, a liturgia pode inclusive ser alienante. Ou não. Mas mesmo quando a liturgia se fizer "prozac", e não "lexotan", ainda assim não será ela a conseguir o pão, o vinho e o sexo.
12. Quando você escolhe o valor, o que é fundamental, tudo o mais se torna dispensável. O valor, para mim, é a vida, o pão, o vinho, Bel, que cada um tenha seu pão e vinho e "sua Bel" (ou "seu Bel"). Não será, decerto, sem luta, que alcançaremos essa situação.
13. Lamentavelmente, a Igreja transformou-se numa "coisa", numa "estrutura" divinizada e que se fetichizou. Um ídolo. Ela, que iniciou sua história manejando a palavra liberdade é, hoje, uma cadeia - seja operando conscientemente para isso, seja operando psicologicamente no diapasão pós-moderndo da alienação neoliberal.
14. Uma desgraça.
15. Respeitadas as exceções - que talvez sejam muito poucas, foi em relação a essa situação que me posicionei de modo crítico. Mas não está autorizada qualquer interpretação de minha fala que a tome como um "viva eu e dane-se o outro". Não. Não quero para mim. Que para mim, também, mas quero para todos. Nesse sentido, de modo bem marxista: a cada um segundo sua necessidade, e acada um conforme sua capacidade. No macro, esse Marx. No micro, aquele Eclesiastes.
16. Agora, senhores, mãos à obra: que desejá-lo está longe de ser tê-lo. É preciso, pois, construir o desejo, fabricá-lo também de barro, que a vinda não é apenas sonho, e, se é, é de corpo a sonhar com corpos.
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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