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sexta-feira, 30 de abril de 2010

(2010/351) Metáfora e sacramento


1. Se admitirmos que a Teologia como metáfora é uma classificação adequada para um tipo de Teologia que, apesar de articular-se politicamente com as "palavras da fé", não assume qualquer modalidade de reserva metafísica, isto é, que não parte do pressuposto de que, às palavras da fé, correspondem realidades extra-físicas, "celestes", nesse caso, então, penso não ser possível classificar Bultmann como um teologo metafórico. É verdade que a teologia metafórica rompe com a relação "histórica" das palavras da fé - elas são, apenas, "palavras instrumentais", drágeas de encenação litúrgico-psicológica, poética. Do mesmo modo, Bultmann - e ainda mais radicalmente - cortou a relação retoricamente genética entre as palavras da pregação - o querigma - e a historicidades das cenas que elas descrevem. No entanto, ao passo que Bultmann continua fiel a uma eficiência salvífica da pregaão, a teologia metafórica lida com as mesmas palavras fazendo delas palavras performativas, roteiro narratológico e cênico, plástico, para o "cuidado", para a "manutenção" da comunidade de fé - o uso político da estética. Ambos são pastorais, mas apenas um é realmente metafórico - e não é Bultmann.

2. Para Bultmann, as cenas descritas nos Evangelhos são mito. O nascimento virginal é mito. A ressurreição é mito. A ascenção é mito. A parousia, mito. As curas, mito. Apesar disso, é justamente a pregação dessas cenas que constitui a pregação, o querigma. Para Bultmann, não são as palavras em si que "salvam": é o jogo da pregação, da proclamação, porque, nos termos da racionalização do teólogo "existencialista", é durante a proclamação do querigma que se abre o momento em que Deus põe diante de si o homem, que, em face de sua abertura ou seu fechamento ao jogo querigmático, à pregação, autentica ou não a sua exitência em Deus.

3. O resultado do querigma de Bultmann é uma pregação, ou melhor, o conteúdo de uma pregação que é pura metáfora, mas igualmente um conjunto de palavras "mágicas" que têm um poder sacramental, quando articuladas no formato da liturgia da proclamação. Não é a morfologia, a semântica, a sintáxe, a prosódia - é o fato de elas serem proclamadas. Para Bultmann, querigma é sacramento. O sacramento de Bultmann é um saquinho homilético de metáforas...

4. Se alguém questionar (o) um querigma (por não ter) sem lastro histórico, isto é, que se possa conceber que, sendo mito, logo, imaginação humana, tais palavras não têm qualquer fundamento, Bultmann poderia argumentar que a hóstia não passa de farinha de trigo com água, e, no entanto, a eucaristia constitui, para a fé, o momento do agraciamento místico, mágico, do homem. Se Deus pode utilizar-se de farinha de trigo, por que não pode utilizar-se de... mito? Assim como não é a farinha de trigo, igualmente não é o mito que "salva" - é a sua função sacramental. Fora do sacramnto, são idéias humanas: na encenação litúrgica, transubstancia-se o mito em sacramento, o que era metáfora, vira graça...

5. A teologia metafórica não chegará aí. Não pode. E, se chega, não é teologia metafórica - permanece, nesse caso, a modalidade bultmanniana de metáfora-sacramento. Bultmann tem um compromisso com a pregação, mais do que com o século XIX. Sim, Bultmann reconhece a propriedade crítica do século XIX - e tanto que aceita a classificação de mito para as narrativas do Novo Testamento. Mas Bultmann empreende todo esforço para manter o caráter soteriológico do jogo cristão, razão pela qual recorre ao conceito de "sacramento", ainda que aplicando-o ao "valor" protestante - a pregação do Evangelho. Já a teologia metafórica tem cmpromissos muito mais sérios - se os tem (mas, se não os tem, não é metafórica!) com o século XIX. De um lado, não pode tratar as narrativas neotestamentárias, nem as da fé, como "história", e, de outro, não pode olhar (mais) para as mansões celestes. Assim, seu amor pela comunidade, seu engajamento pastoral, impõe que torne a fé alguma coisa próxima da poesia, da festa, da celebração, cujo fundamento começa e termina aí mesmo, sem recurso à história ou à ontologia metafísica sobrenatural. Para a teologia metafórica, a metáfora não é sacramento - é metáfora mesmo...

6. Essa é uma questão muito importante, porque é possível identificar retóricas que, à superfície, parecem próprias da teologia como metáfora. Mas, a rigor, não são. Não são, porque, no fundo, o teólogo que as maneja ainda as articula, de alguma maneira, com o Ser, com Deus, ainda as emprega mágica e miticamente - dir-se-ia: ainda há "fé", aí. O ambiente onde se flagra com mais freqüência esse fenômeno de dar aparência metafórica ao que é, de fato, ontológico, é o ambiente que se assume como "plural". Aí, se decide respeitar as demais religiões, logo, os demais discursos religiosos. Como cada religião tem seus próprios discursos, os teólogos que se movimentam nesse abiente são forçados a aceitar diferentes discursos que descrevem realidades muito diferentes, iguais apenas no fato de apontarem, todos, para o supra-hmano, supra-físico.

7. É aí que acontece um fenômeno curioso, sub-reptício. O teólogo assume implicitamente (é seu "segredo"!) uma realidade metafísica - que é ontologia e metafísica, sob todos os aspectos. Não importa a fé das religiões, só há uma dimensão metafísica, um so "céu", uma só "divindade". Na seqüência, continua a racionalização: os discursos religiosos, todos, são metáforas para esse mesmo mundo metafísico. Assim, o teólogo consegue olhar para seu discurso e vinculá-lo à metafisica enterrada sob a metáfora que ele mesmo usa, mas, ao mesmo tempo, pode "aceitar" a retórica do amigo/irmão religioso, porque, afinal, o discurso dele refere-se à mesma realidade metafísica a que ele mesmo se refere por meio de sa própria metáfora. Ainda que à sperfície pareça que o outro fala de outra coisa, não, a metáfora do outro refere-se, se bem interpretada, àquela única realidade espiritual por trás de todas as metáforas...

8. Ora, a estratégia cristã sempre foi trazer as consciências para seu mundo teológico, fazê-las catequisadas, convertidas. Esse tipo sub-reptício de teologia ainda faz o mesmo, mas "retoricamente", apenas. O teólogo faz-se acreditar no fato de que, se o discurso não-cristão é, ao fim e ao cabo, uma referência metafórica à verdade - cristã! -, seque que a "missão", afinal, chegou ao fim... É um jeito curioso de resolver as questões.

9. O problema é quando o jogo é revelado. Aí fica claro que não se resolveu foi coisa nenhuma, e que o que se chamou de pluralismo fora, o tempo todo, maquiagem evangelística. E a metáfora sai da sala com o rabo entre as pernas, envergonhada de ser flagrada como ontologia metafísica dissolvida em estratégia política.


OSVALDO LUIZ RBEIRO

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

(2010/032) Das metafísicas - distinção de termos


1. O termo "metafísica", levado ao pé da letra, pode significar tudo quanto esteja acima da Tabela Periódica: não é constituído de átomos, é metafísico. A Matemática, por exemplo, que, a rigor, só existe como sistema abstrato na consciência do matemático e de seus interlocutores humanos. A música, conquanto seja "matemática em dança erótica", é física, não metafísica. Quer dizer, é psico-física, já que as ondas sonoras (física) devem zser/são interpretadas pela psiquê humana. A imaginação, em si, é física, porque é o cérebro quem a produz, como no caso da matemática, também. No entanto, o "produto" dessa operação, as "imagens em ação", são metafísicas, como os mitos, por exemplo.

2. Assim, os componentes da Teologia são, a rigor, metafísicos, conquanto seja o cérebro humano que a produz. Não há teologia que anjos façam - nem deuses -, porque anjos são metafísicos, e a teologia é produção neuronal humana... No caso cristão, da teologia, quero dizer, o Jesus histórico é físico, o da fé, metafísico.

3. Eu acho curioso que se tente, aqui e ali, tratar toda a metafísica como se fosse a mesma coisa. Mas não é, não. Quando a ciência exclui a metafísica, ela não exclui tudo quanto é supra-físico, porque a ciência, sem a matemática, fica muito, muito, muitíssimo reduzida - algumas de suas expressões resultam, inclusive, impossibilitadas. As ciências não operam, e nisso estão certas, é com os conteúdos imaginados, as mitologias, as doutrinas, as "revelações".

4. Imagine a ciência tentando compreender o planeta... por meio de Gênesis! Não dá.. Isso não tira o "valor" de Gênesis, mas ensina algo sobre como somos cabeças-duras, teimosos até o absurdo, capazes de fecharmos os olhos, os ouvidos, o coração, e nos agarrarmos a "narrativas" absolutamente dogmáticas, como se o próprio Deus no-las houvesse contado... A Teologia é, mesmo, uma fábrica de cabeças-duras. E, talvez, o pior de tudo, é que a Teoloia, envolvida que é, sempre, com o Poder, acabe cercando-nos de medo - medo de Deus, medo dos sacerdotes, medo das Normas.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

(2009/504) "Cata" e "apo" o quê?


1. Catafática e apofática. Dois termos - de origem grega - para designar dois tipos de teologia: teologia catafática e teologia apofática.

2. A teologia catafática é aquela e toda aquela que parte do pressuposto de que de Deus se pode falar, e que isso que se fala de Deus é de Deus mesmo que fala. A teologia catafática é, assim, proposicional, positiva, doutrinária, dogmática, catequética, ortodoxa.

3. A teologia apofática é quela e toda aquela que parte do pressuposto de que de Deus não se pode falar, e tudo o que se diz de Deus é pecado e blasfêmia. A teologia apofática é, assim, não-proposicional, negativa, mística, contemplativa, pietista.

4. A teologia catafática pode assumir formas diferentes: a barthiana, de caráter radical e extremamente positivo, a ponto de postular uma doutrina só para todo o Cristianismo (não é à toa que a Sistemática católica contemporânea use e abuse de Karl Barth!); a tillichiana, mais "envergonhada" de dizer, mas, ainda ssim, "dizente", ainda que o que diga, e diz, ah, e como diz, diga-se constituir "símbolo" - "Deus é símbolo para Deus"; a bultmanniana, que, mesmo rompendo com a história e a positividade da revelação, pressupõe o anúncio sacramental-existencial de Deus no querigma; a teologia hermenêutica, uma tentativa de contornar os excessos de Barth e de Bultmann, um Fuchs mais bultmanniano e um Ebeling mais barthiano, mas, ambos, tentando dissolver as radicalidades, resultando num ainda dizer teológico, logo, catafático; pannenberguiana, pseudo-histórica, mas, a rigor, um envergonhamento barthiano dissimulado em história, mas, sobretudo, um dizer de Deus como que na história; e por aí vai.

5. Também a teologia apofática pode assumir diferentes formas - com Mestre Eckhart, quer-me parecer que temos a sua forma mais radical, a "teologia negativa", mas que rivaliza com o Budismo Chan, cuja fórmula é: "se vires Buda, mata-o" (que distância estamos da Sistemática de Tillich e de sua fórmula "Deus é símbolo para Deus"!).

6. Pois bem: são a mesma coisa. Ainda que uma seja absolutamente negativa (os alunos se assustam com ela, porque percebem que uma teologia apofática desmonta as estruturas políticas da teologia performativa e catequética/evangelizadora), a teologia apofática é "crente" - ela "sabe": Deus é de tal modo sublime, tão inimaginavelmente numinoso, que não se pode apreendê-lo - a simples tentativa de o fazer constitui "blasfêmia" (e o teólogo apofático "sabe" disso). A teologia apofática é metafísica e ontológica. É justamente porque ele "sabe" quem é Deus que ele reconhece, "humildemente", sua incapacidade de falar dele - nem tenta "caminhos" dissimulados para o fazer.

7. O mesmo se deve dizer da teologia catafática - ela "sabe". O que ela diz de Deus é de Deus mesmo que ela o diz, seja analogicamente, seja simbolicamente, use ela os subterfúgios retóricos que pretender, para fazer saber aos mais esclarecidos que o que ela fala, tudo que ela fala, é tão somente racionalização humana a partir da fé humana - e nada mais. Mas, internamente, para ela mesma, e para aqueles que ela prega, e confiam nela, Deus é tal como ela diz que é. É metafísica, a senhora teologia catafática, e, naturalmente, ontológica.

8. As diversas classificações que circulam nos manuais de teologia são - todas - classificações internas à metafísica. É o problema da teologia - e dos teólogos. Não se consegue sair de si mesma para olhar-se a si mesma. Ela diz e pronto. Todas as teologias até o século XX foram ontológico-metafísicas. E só o podiam, porque a "morte de Deus" e a Fenomenologia da Religião são invenções do século XIX - que demoram - muito - para surtir efeito sustentável. Mas, agora...

9. É divetido ver "evangelicais" desprestigiando teologias "fundamentalistas", e vive-versa, é liberal pra cá, é fundamentalista pra lá, e são, todos, metafísicos/ontológicos, são, todos, conhecedores de Deus. Bem, se são, Deus é bastante zombeteiro, e zomba de seus "sacerdotes", mostrando-se de várias formas, de modo que cada um vê uma coisa diferente do outro - mas sempre, todos, muito seguros de "saberem" de Deus... Os anjos devem divertir-se... Eu, por exemplo, não chego bem a me divertir, mas a entediar-me, ao deparar-me com livros que falam de Deus, do Cristo "glorioso" e do Espírito Santo como grandezas metafísicas "dadas" positivamente na doutirna ou na metáfora. É que, quando você "se dá conta" de que se trata de política...

10. Tivesse eu nascido nos séculos passados, seria um herege. Nasci entre o XX e o XXI - sou , pois, um extemporâneo: não chegou, para o mundo, ainda, a hora de despir-se diante do espelho, e, eu reconheço, minha insistência é absolutamnte impertinente... Em todo caso, esperaria dos teólogos um pouco mais de compromisso com o século em que vivemos. Menos política. Mais compatibilidade.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

(2009/491) Do "além" e do advir


1. Se eu tivesse que responder - hoje - de onde vem nossa "consciência" (isto é, nossa "intuição") de um "além", de um "lugar" além de todo lugar - eu diria que isso advém da relação "dialogal" ("computacional", diria Edgatr Morin) entre nossos cérebros/espíritos e o mundo real, a ecosfera, que nos cerca.

2. Não acredito que o conteúdo da intuição do "além" seja inato. Ele nasce culturalmente, conquanto nunca houve - até agora, que se saiba - cultura e povo que não desenvolvessem a experiência metafísica.

3. Assim, é culturalmente desdobrável, a experiência do além, mas é biopsicologicamente fundamentada, posto que, malgrado cada povo invenar para si uma narrativa e um conteúdo muito próprios sobre esse além, todos os povos e cultura os "inventam".

4. Penso que se trata de uma consequência do funcionamento hermenêutico de nosso cérebro. A mente humana constrói uma representação holística, uma narrativa, uma cosmovisão, a partir da e para, com ela, recobrir a ecosfera. Não vivemos, nenhum de nós, na própria ecosfera, mas, sim, na noosfera que fabricamos, hermeneuticamente, fazendo-a pousar e "coincidir" com a ecosfera. Cada um de nós e cada macrocultura vive em seu próprio mundo noológico, alimentando-se dialogal/hermeneuticamente da ecosfera física.

5. A cosmovisão, portanto, é sempre mais do que a simples soma de tudo que se vê, porque todo todo é sempre mais que a soma de todas as suas partes. Assim, quando chegamos ao ilmite das coisas reais, o resultado da intuição é, necessariamente, mais do que os limites do real. Provavelmente foi assim que os primeiros homens e mulheres imaginaram o "além", porque tudo vem de algum lugar o peixe, da água, as aves, do céu, o porco, da floresta, os macacos, das árvores... Tudo que é vivo, vive em algum lugar. As hierofanias, revelando mistérios vivos nas coisas - na pedra, na árvore, no céu, no rio, no mar, na montanha, na terra, tinham de explicar de onde vinham esses seres vivos, essas forças vivas que se manifestavam.

6. Só podiam vir de além da terra de baixo, de além dos céus, de cima, de onde, já se sabia - vinham as águas... Ainda aí, o "além" é meramente uma continuação do "aqui". Mundos infra-humanos e sobre-humanos, abaixo de nós e sobre nós, eram, apenas, extensões de nossos mundos, de tal sorte que se intercomunicavam. As abstrações filosóficas tratarão de dar a esses "aléns" uma condição não-material, secundária. Assim, hoje, por mais que tenhamos descoberto que não há nada sobre as nuvens, o Além permanece... um Além "espitirual, não-físico...

7. Mas essa compreensão é sabidamente mítica - é mito. O além, seus povos, seus valores, suas narrativas, são, todas, fruto da imaginação dos povos, também nossas. Empurrar as fronteiras do além para cada vez mais longe, mais, mais, ainda mais longe, a cada nova observação dos ultra-hiper-telescópios espaciais, é, simplesmente, adiar a auto-compreensão...

8. Somos, nós, os criadores do sentido. Sob o sentido, resta uma ecosfera não-semântica, um mundo físico que não conhece a consciência, que não se pergunta sobre si, sobre o não-si, sobre o além-de-si, que apenas nasce, copula e morre. Fugindo a esse destino, por um golpe do destino, inventamos nossas narrativas.

9. Mas é de dentro de nós que vem a pulsão de inventá-las. Saber que as inventamos, não cessa a pulsão. Como Freud dizia, as narrativas são invenções, ilusões, e são - mas a fonte das pulsões., não. Não há como fechar a fonte. Elas continuarão jorrando demandas de mito. O de que precisamos é de uma relação nova com esses mitos, uma relação nova com nossa própria consciência, uma relação nova com a consciência dos povos.

10. Aproxima-se de nós uma era de autoconsciência que não redundará no desaparecimento dos mitos - impossível! -, mas produzirá uma nova era de relação entre os homens e as mulhres e suas inventivas narrativas cosmogônicas.

11. Uma nova espiritualidade se faz imperiosa - a de saber que nós, seres humanos, somos como estrelas - elas, produzem a matéria, cada átomo, em suas fornalhas siderais. Enquanto elas produzem pó de matéria, nós produzimos pó de magia - somos fábricas de deuses. Somos, nós as próprias águas cosmogônicas - teogônicas! Somos amnióticos...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

(2009/478) Como assim "sociedade pós-metafísica"?


1. De um lado, a absoluta falta de recursos, e, de outro, a absoluta falta de articulação político-institucional implicaram em minha não-participação do Congresso da UNISINOS a que Haroldo faz referência e de cuja palestra de encerramento apresenta transcrição. Todavia, gostaria de ter estado lá, apresentado comunicação.

2. Diria assim: "Do que se está falando? De que 'sociedade pós-metafísica' se está falando?". Apesar de o Congresso dar-se na UNISINOS, em São Leopoldo, não se pode estar falando de nenhuma região das Américas. As Américas, todas, desde o norte até o sul, são, integralmente, ainda plenamente metafísicas. Deus aí é fato e dado, ontologia inequívoca. No máximo, para atender a alguns muxoxos, poderíamos admitir rincões duvidosos no Canadá, menos ainda, nos Estados Unidos da América, mas, do México para baixo, desde o Caribe católico-anímico, até a América Latina absolutamente católico-mágica, falar em "sociedade pós-metafísica" parece filme cult... europeu...

3. Ora, a própria Teologia - a que está no MEC, a brasileira - está esperneando - literalmente - contra uma decisão de tratar-se Teologia como "ciência humana" de verdade, argumentando que todas as Ciências Humanas são humanas, mas a Teologia é divina! Ora, se os administradores da metafísica e da ontologia acabam de dizer que a metafísica é inegociável, e essa é a porção, digamos, mais "intelectualizada" do espectro cristão, o que dizer das massas, aquela que vai atrás das romarias e das liturgias?

4. No Congresso último da ABIB, em São Paulo, alguém apresentou um trabalho sobre a necessidade de uma gramática do grego apropriada para a consciência pós-metafísica... O professor André Chevitarese (UFRJ) estava na "platéia", e interveio, algo assim: "mas, no Brasil, vivemos, ainda, na Idade Média - como assim sociedade pós-metafísica?". Eu estava lá, e pensei comigo que isso era no que dava a importação acrítica de termos europeus. Vattimo no Brasil - faz-me rir... Sequer por 1789 passamos. Nem levamos a sério a expressão "República". Onde Kant abriu o olho, Barth os furou! Fazer de conta que a geopolítica, a sociologia, a antropologia, a psicologia, a teologia brasileiras estão de acordo com o calendário europeu não me parece muito pertinente...

5. Talvez tenha sido providencial minha falta de recursos e traquejo institucional. Teria sido uma espécie de desmancha-prazeres. E desmancha-prazeres não são lá muito bem queridos.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/476) Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica

1. Por estes dias aconteceu na UNISINOS, em São Leopoldo, um simpósio internacional sob o tema "Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica". Acabo de receber release da palestra de encerramento feita por um professor da Universidade de Madras. Mesmo não tendo tempo para um comentário, compartilho o conteúdo.


HAROLDO REIMER


domingo, 16 de novembro de 2008

(2008/49) O que pode ser o fim da metafísica?


1. Por mais que se queira, pós-modernamente, afirmar que não haja chão, que não haja fundamento, toda e qualquer afirmação tem, sempre, chão e fundamento. Fenomenologicamente, cada sentença pronunciada por qualquer pessoa faz-se emergir a partir de uma determinada plataforma que lhe serve de alicerce. Mesmo as modernas teorias "hermenêuticas" auto-ditas não-fundacionais. Mesmo elas, sim, têm fundação.

2. O Ocidente, em tese, teve a oportunidade de sair da plataforma ontológico-metafísica platônica há duzentos anos. A "porta" - nunca cansarei de dizer (a Tese, achei-a pela primeira vez em Tilich, e está ilustrada bem em O Nome da Rosa) abriu-se bem antes, depois que os árabes introduziram Aristóteles, na Europa, através da Península Ibérica. Aristóteles fermentou, fermentou, e levedou toda a massa platônica ocidental, que lhe reagiu. Um lado, seguiu Platão - todos os cristianismos, as religiões de modo geral, determinadas escolas filosóficas e algumas utopias políticas. Outro, encabeçado pelas Repúblicas, pela secularização, pela emancipação cultural, pelas ciências, seguiu Aristóteles. Aí, por um acidente histórico, ao que tudo indica, a invasão franco-napoleônica à Alemanha, arrebentou o Romantismo - um ovo realmente novo, porque, ao passo que para Platão e Aristóteles, a verdade está lá fora, para o Romantismo, ela é construída aqui dentro. Não foi Aristóteles quem fez ruir a metafísica, mas o Romantismo, e a ele Platão reagiu furiosamente, seja em Roma, seja em Wittenberg, seja na "América".

3. É na estrada aberta pelo Romantismo - eles são os próprios batedores (Apolo, facão na mão, abrindo caminho através da hylé, para fundar uma cidade) - que caminham, novos homens, Kant, Schopenhauer, Feuerbach, Nietzsche. Dois mil e quinhentos anos de Platão! Quinhentos, mas muito mal pesados, muito esboroados, de Aristóteles! Duzentos, de Romantismo! Fim programático da metafísica, manutenção programática da metafísica. Platão ainda está de pé.

4. É muito curioso acompanhar os discursos epistemológicos das correntes que discutem o fim da metafísica. Pensam colocar-se do lado de cá, pensam estar além da metafísica, mas, no fundo, não conseguem livrar-se dela. Platão ensinou-nos (o Cristianismo inculcou-nos a idéia até ela fazer parte de nossas sinapses) a ontologia metafísica, a verdade "dura", divina, verdade verdadeira, deu-nos o olho de Deus, verdades de Deus, a certeza subjetiva da verdade ineludível - de Deus. Aristóteles não pensava diferente, conquanto, pelo menos, afirmava que cada um podia descobri-la por si mesmo, sem precisar de sacerdotes e filósofos mediadores - um grande passo.

5. É essa verdade divina que morre, se cai a metafísica. O defunto é o qualificativo "divina", não a palavra que ele, politicamnete, qualificava. Os "hermeneutas" não-fundacionais partem do pressuposto de que, se a metafísica caiu, não há mais fundamento, não há mais "verdade". É o mesmo fenômeno entre teísmo e ateísmo: ou existe ou não existe. A "geração" pós-moderna, a geração "hermenêutica", só sabe pensar assim: se não tem fundamento de Deus, então não tem fundamento nenhum (porque todo esse povo, no fundo, guarda a fé no fundo da alma). E tudo, então, vira um blá-blá-blá, para citar, parece-me, Pondé, comentando, favoravelmente, as teses de Karl-Otto Apel sobre a necessidade de um critério de verdade para a civilização pós-metafísica.

6. A lógica do pólo não demorou muito a emergir. Um Heidegger logo aproximou o conceito de "linguagem" ao do fundamento ontológico platônico. Idéia - Deus - Linguagem (Platão - Agostinho - Heidegger): "a compreensão não mais é vista como um ato do homem mas como um evento no homem" (R. Palmer, Hermenêutica, p. 217, grifos meus). Gadamer, mais do que depressa, ultrapassa (mantendo-a) a Linguagem com a Tradição: "no diálogo hermenêutico, o tema geral em que estamos inseridos - tanto o intérprete como o texto - é a tradição, a herança" (Idem, p. 202). Linguagem, Tradição, substitutos pálidos, mas de mesmo nível, para o Ser que se inventou (não é curioso que os livros ensinem sobre os filósofos atenienses como sendo, eles, filósofos? E o eram? Não - eram, antes de tudo, teólogos!). Caímos na armadilha - se não a armamos!: a) primeiro, assume-se que o fundamento necessário é (o) ontológico, b) em seguida, afirma-se que com o fim da metafísica, findam-se os fundamentos, c) terceiro, com o passo "a" trabalhando nos bastidores, propõe-se uma refundação "não-metafísica", quero dizer, não "religiosa", não "mitológica", mas, eis a surpresa, que mantenha o status quo exatamente como era antes do fim da metafísica (eis a que, a meu ver, se resume, por exemplo, a proposta de Vattimo): Linguagem e Tradição.

7. Penso que o rumo dessa viagem foi corrompido. Era falsa a idéia de que é necessário um fundamento ontológico e metafísico para a existência humana, para a sociedade. Alguma coisa entre uma saudade patológica do medievo e um programa político de manutenção dos eixos de força atuantes na sociedade insistem na estratégia pendular. A saída Romântica, contudo, recusa o pólo. Recusa, por exemplo, que não haja fundamentos, ao mesmo tempo que recusa que haja um fundamento. Há fundamentos: locais, situados, históricos - válidos, diga-se, operacionais. Não há "revelação" que se faça "saber" e que, por meio de tal prestidigitação sacerdotal, proponha-se como "fundamento" ontológico. Isso foi a maior das invenções políticas da História - um quê de Pérsia (administração subjetiva, por meio do mito, das consciências conquistadas) e Grécia (ontologização da estratégia mitológica de administração das consciências conquistadas). Farsa.

8. Não é necessário, nunca foi, mentiram para nós, um fundamento ontológico. Nossos olhos são e serão, para sempre, humanos. Construiremos para nós, sempre, fundamentos situados, válidos intra-comunitariamente. À medida que a comunidade cresce - torna-se planetária, por exemplo -, ampliamos, dialogalmente, os fundamentos, jogando, no risco, com o "real", captado por nossos sentidos e tratado por nossas sinapses representacionais. Isso que construiremos não é ilusão, mas não é, tampouco, "verdade", isto é, verdade no sentido em que Platão e Aristóteles cuidavam ser possível - o homem ter a visão (por dom sacerdotal ou investigação autônoma) dos deuses, os homens verem como os deuses vêem.

9. Sugiro que esqueçamos definitivamente Platão. A metafísica dos deuses, do Ser, acabou (Linguagem e Tradição são ídolos de sofrível aparência). O que não significa que chegamos a um beco sem saída - não! Mil vezes não! Saímos foi do labirinto maldito da política ontológica e metafísica, do controle das consciências por meio de mitos. Podemos voltar ao ponto onde estávamos antes do canto de sereia, do "murmúrio" da Cidade Bela, e podemos voltar a construir os fundamentos com os quais continuaremos a edificar nossa História. Nem ontologia nem blá-blá-blá: lucidez histórica e epistemológica. Que me remete àquela velha citação (de memória) de Pascal - "o homem é um caniço que pensa, e o peso do Universo o esmaga. Mas ele sabe".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 11 de novembro de 2008

(2008/38) De minhas impertinência e incontinência


1. Meu amigo Haroldo, seu último post (2008/36) é um "pronunciamento" bastante impessoal. É como que dirigido a todos - logo, a ninguém em especial. E, contudo, encontro, nele, reações ao meu "programa" de Transformação da Teologia.

2. Penso que é necessário que eu amadureça minha posição. Logo, não vou polemizar, reagindo ao seu post, Haroldo, não uma reação ao estilo de que gosto: pinçar excertos-chave, e comentar. Deixemos o tempo agir. Homeopaticamente.

3. Gostaria apenas de deixar registrado que não se trata, absolutamente, no "meu" caso, de "inventar a roda". Por outro lado, Haroldo, não se trata, tampouco, de andar em roda velha. A pertença à tradição, a meu ver e juízo, logo, a meu risco, não se faz apenas necessariamente pela recitação de "textos fundantes" - pode-se fazê-lo pela sua crítica. É o meu caso.

4. Haroldo, considero que o século XIX inventou a roda. Kant, Schopenhauer, Marx, Nietzsche, Dilthey, Peirce, um certo Heidegger... Nele, depois dele, a roda é (pode ser!) nova. Meu mero desejo, libido de um velho homem cansado, é, apenas, adequar minha herança - a Teologia velha - aos pressupostos apresentados por aqueles senhores, a quem tributo todas as honras. Quero ser-lhes compatível. Quero merecer-lhes.

5. Confesso, Haroldo: creio, hoje, mais neles do que em toda a "tradição" teológica herdada. E, contudo, não debandarei de minha posição enquanto nascido dentro dessa tradição. Ficarei aqui, impertinente. Não farei, contudo, como Barth, não posso: abdicar da "razão" e agarrar-me ao dogma como "revelação" (com todas as prestidigitações teológicas próprias desse tipo de racionalização). Não posso, contudo, fazer como Vattimo, que não crê mais, em nada disso, mas acha que é últil para a manutenção do status quo que as palavras sejam ditas, porque, tais quais as velhas, "não voltam vazias", e põem "cada macaco em seu galho", se me entende. Claro que entende. Só me resta inventar-me, re-inventando-me por meio da crítica de minha tradição.

6. Para mim, Haroldo, é essa Teologia, como método crítico, e não como ruminação da "tradição" que deveria estar na academia. Posso, contudo, estar errado. Refletirei, criticamente, sobre essa minha posição. Mas acredite-me, amigo, com toda a honestidade - se a Teologia, de qualquer modo, não puder transformar-se em "ciência humana" (sem tergiversações, tangenciamentos, dissimulações, privilégios epistemológicos, essas coisas políticas e retóricas), não será preciso contar até dez - pulo fora.

7. Minha única esperança, Haroldo, como homem do século XXI, de encontrar valor em minha caminhada teológica é ela poder enquadrar-se no projeto de civilização desenvolvido pelos valores e paradigmas da República. Não me agrada uma Teologia que considere poder falar quanto e o que queira, porque o Estado é laico. Quero uma Teologia convertida ao Estado laico. O mais, não posso mais. Entendes-me? Não é um projeto institucional. Sou "eu". Minha carne.

8. Mas essa é minha eventual patologia, Haroldo. Não merecerá, decerto, preocupações maiores. Diante da avassaladora posição cripto-metafísica da Teologia acadêmica, a desconfiança profunda e radical de um desajustado não importa muito. O paquiderme sacode o torso, e a pulga cai. Eventualmente, um passarinho vem e come. E acaba a impertinência.

9. Mas, meu amigo Haroldo, algo me diz que placas tectônicas se encontram e se tocam, aí, nesse tema, com todas as conseqüências que o encontro de placas tectônicas traz.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

(2008/31) A Mãe de Todas as Batalhas


1. Dá-me taquicardia. Literalmente. O coração dispara. Sim, sofro, há um ano e meio (a origem é bem anterior), de crises de ansiedade profunda, o que, volta e meia, me deprime. A reação cardíaca é resultado, vá lá, dessa condição psicossomática. Mas são as notícias que leio no Terra Magazine (Bob Fernandes), no Nassif, do PHA, no Mino, a respeito da "Operação Satiagraha" e d"Os Intestinos do Brasil". O Brasil flutua sobre um mar de esgoto, e as fezes invadem as altas instituiçõs - sem exceção: a crise é grave, crônica e endêmica. A Itália teve seu momento de enfrentamento da máfia - nós temos, agora, o nosso. Que batalha!

2. Lá fora (com tentáculos aqui dentro), Obama e McCain atraem todas as atenções, surfando na "onda" do "terrorismo" e da "crise financeira internacional". Há cem anos, repete-se exaustivamente, não se deflagrava uma crise tão grave. Outra senhora batalha!

3. Ainda lá fora, ecossistemicamente, debatemo-nos entre ideologias planetárias, e somos alimentados com informações úteis aos ideólogos de plantão. Absolutamente incapazes de analisarmos por nós mesmos a questão ecológica (como?), somos levados por uns e outros para onde uns e outros querem-nos levar, arregimentados por números, cifras, estatísticas, medições, cálculos, previsões, "provas", deduções, inferências, induções. No sofá, estarrecidos, vemos ser desenhado, em chamas, diante de nós, o inferno-estufa. Batalha terrível!

4. De um lado, "Os Intestinos do Brasil", de outro, o Negro e o Herói, bem como o Planeta. Não nos sobra muita coisa com que nos ocuparmos.

5. Mas há. Nesse momento, silenciosa, trava-se uma "batalha". O campo é a Teologia. Os soldados, os Teólogos. As armas - a retórica. O prêmio - o status quo. O que está em jogo é a necessidade de admitir-se, explicitamente, que o discurso teológico, o "saber" teológico (ah, Zabatiero, que favor lhe fez Habermas!), o conteúdo (todo) de todas as teologias (sim, von Sinner, a "teologia" não é, mais, "cristã" [apenas], mesmo quando se faz "confissão, como queres): discurso, "saber" (racionalização!) e conteúdo devem ser admitidos, no conjunto, e sem exceção, como "imaginação", "projeção", "racionalização", "invenção" (notícia velha, embolorada, com mofo de tempo e umidade, velha de cem anos, olvidada à custa do assassinato de reputação de Feuerbach [outro dia, eminente teólogo dizia que o século XIX "enganara-se" a respeito da "religião". Fala sério!]).

6. "Deve ser admitido", essa expressão que uso, prende-se ao fato de que a "teologia" entrou (definitivamente) no MEC. Já estava. Há vinte, trinta anos, mais ou menos, a CAPES já sucumbira - e, contudo, nada, de verdadeiramente revolucionário, aconteceu: duas, três décadas depois da "adesão", a teologia ainda é mediúnica, monasterial, medieval, ontológica e fideísta onde quer que ela finque raízes (não se vê, por exemplo, que Tillich ainda é ontológico e medieval, malgrado as prestidigitações retóricas de sua teologia). Aí, onde a teologia é pós-graduada, ela (ainda) é "revelação" - ponto (claro, do "seu" ponto de vista, inoculado, naturalmente, qual veneno de serpe, nas veias teologais). Self deception.

7. Mas eu dizia - a "teologia" federalizada de segunda onda (a primeira, "pós-graduação", a segunda, "graduação"), tem exigido pronunciamentos a respeito do estatuto epistemológico da "teologia". Tenho analisado alguns na http://www.ouviroevento.pro.br/. Até agora, não encontrei nenhum a defender que a teologia, como está, das duas uma, ou transforma-se em "ciência" (logo, arranca o terceiro olho que pensa ter, aquele igual ao de Lobsang Terça-feira Rampa), ou vai construir heteronomias em outra freguesia. Tenho lido que ela deve ficar na "academia" - como está! -, tanto quanto que ela deve sair, mas que, mesmo saindo, é "saber racional público" sim, senhor, que tudo é "racionalidade", habermasianas racionalidades... O que se insinua em ambos discursos é a "manutenção" do status quo: a teologia deve permanecer como é, os teólogos, como são. Acho isso tristíssimo.

8. Porque triste é a auto-imagem de uma "teologia" que despreza o que aprendemos desde meados do século XVIII (meninos-diabos gritaram no meio da rua que "o rei está nu", que a metafísica é um fantasma da imaginação): uma auto-imagem que não apenas ainda lida com os conteúdos téológicos como "metafísicos", mas, coisa de teólogos, como se quem lidasse com eles fosse dotado de olhos metafísicos, pescoço metafísico, percepção extra-sensorial: olhos, nariz, boca, mãos e ouvidos metafísicos - que Barth chamou, e nós repetimos, de "revelação". Triste, porque negamos a todos o que não suportamos imaginar ser negado a nós - e quem nos negaria? Quem? Triste, porque não temos coragem o suficiente para olhar para nós mesmos e encarar nossa inexorável solidão e angústia. Triste, muito triste.

9. Não sei como terminará a Mãe de Toas as Batalhas. Se a teologia tem futuro do jeito que pensa ser, que se fez, que se faz, mediúnica, medieval, metafísica. Vai agarrar-se à sua auto-imagem, e, ficando ou saindo da Universidade, anunciar anjos, demônios e deuses aos transeuntes, que ela quer ver apavadoros diante disso, para, em seguida, lhes oferecer conforto? Vai sair, admitindo o risco que corre em aceitar a plataforma do jogo epistemológico das ciências, mas, saindo, jogar de dizer que é sabida, expert em coisas divinas, racionalmente sabidas por meios nada, nada racionais? Vai ficar, aceitar a regra do "novo" jogo, e experimentar, pela primeira vez, a quenosis, o esvaziamento, a humanização, o grande sapo cururu da beira do rio transformando-se em um girino a nadar no mar das regras teórico-metodológiocas de consenso? Que te espera, amiga? Que farão de ti?

10. Quanto a mim, já saí. Trago, na mão, um nome: "teologia". Mas não é ela, mais, o que dela se diz nos livros - quase que a absoluta e constrangedora totalidade deles. Como a "consciência", conforme dela disse Nietzsche, a teologia que carrego na mão, esse nome para essa coisa ainda em construção, é orgânica, nasceu da carne. O futuro é incerto. Descobri-lo na casa dos quarenta, ao cabo de um doutorado, é bênção - ou maldição?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

(2008/24) Pragmatismo e bolha especulativa


A. Epígrafe a posteriori - I - "Agora não há desculpas. Um bando de desavisados assumiu a direção de instituições financeiras e transformaram propriedades imobiliárias em meros registros contábeis. Multiplicaram garantias reais ao infinito e no infinito encontraram o nada (...) Dilapidou-se a confiança, base fundamental do capitalismo" (Cláudio Lembo, E as lições do John Bunyan?).

B. Epígrafe a posteriori - II - "A crise não está na economia real" (Profª Drª Maria Conceição Tavares [Reuters/Nassif]).

C. Epígrafe a posteriori - III - "uma economia que se revela agora fantasma" (Boaventura de Sousa Santos, na CARTA MAIOR [link no Azenha])

1. Não quero, aqui, levantar nenhuma "tese". Trata-se apenas de uma percepção. Nos últimos dias, vimos acentuar-se o risco ou o princípio do fenômeno de dissolvição da "bolha" financeira internacional, cujo epicentro encontra-se, naturalmente, nos EUA. No olho do furacão, encontra-se o fato de que a economia, tal como se desenvolve há algumas décadas, baseia-se numa meta-realidade. A "riqueza", contada em trilhões de dólares, não encontra "lastro" no mundo "real", mas apenas em derivativos, de derivativos, de derivativos. Riqueza metafísica, que, na ponta, converte-se em riqueza econômica. Enquanto se crer.

2. Trata-se de um gigantesco, descomunal castelo de cartas - se a primeira cai, caem todas as que se sustentam nela, logo, cai todo o castelo. Porque grande parte dessa "riqueza" simplesmente não existe na "realidade" - ela consiste numa sucessão de sustentações "metafísicas", geradas pelo jogo de valor que se aplica a garantias que, a rigor, não garantem nada. Apenas valem enquanto se crer.

3. No caso estadunidense, por exemplo, garantias hipotecárias super-avaliadas sustentavam uma "ciranda" de derivativos que, dissolvida a base, dissolve-se cadeia a cadeia, elo a elo, chegando aos grandes - Merrill Lynch, Lehman, AIG e os próximos da fila. Toda a cadeia financeira baseada na metafísica do valor financeiro, encontra-se, agora, sob severo risco.

4. O que me chamou a atenção é que esse é o país, os EUA, de Richard Rorty, pai do "pragmatismo", para quem o "real" não existe, e, se existe, é desprezível, uma vez que as relações humanas dão-se por "consensos lingüísticos descolados". A vida, diz Rorty, não passa de jogo de palavras - o conhecimento não é uma questão de saber lidar com a realidade, mas de saber jogar com as palavras. No fundo, um cinismo disfarçado em teoria filosófica. Quase um deboche, eu diria.

5. E contudo, é exatamente assim que a metafísica financeira se construiu. Do lastro baseado em ouro, saltou-se para o dólar, e, daí, para valores e garantias cada vez mais etéras e ectoplasmáticas. No momento, assistimos à crise econômico-financeira internacional, que, a rigor, é, de um lado, uma crise de fé - já que as garantias são metafísicas, e não existem no mundo real, de modo que, dando-se conta da imaterialidade da "riqueza", a teologia se esgarça -, bem como, de outro, uma crise material: a absoluta falta de lastro ponderável para o sopesamento dos valores empenhados no jogo. Não diria que os jogadores blefavam o tempo todo, esse tempo todo em que vendiam derivativos, compravam derivativos. Jogavam um jogo "real", cuja regra, contudo, era jogar com coisas irreais, imateriais. Jogar com a fé.

6. O bolso dói. Talvez a comunidade internacional aprenda a lição e re-organize as bases da economia. Como, no entanto, a "fé" religiosa não passa de um véu hermenêutico sobre o real, que tolera, inclusive, a esquizofrenia de viver em mundos irreconciliáveis, malgrado o século XIX ter-nos ensinado, a nós, teólogos, que nossas doutrinas "não passam de" coisas imaterais e sem substância, a nós tanto faz - damos de ombro, tomamos o irreal pelo real, e vamos em frente.

7. Não vejo, à frente, sinais de que, nós teólogos, nos emendaremos, de que levaremos a sério as transformações culturais que nós mesmos, protestantes, engendramos, desde a Reforma. Nós, pais das Ciências Humanas, da Secularização, da Modernidade, detestamos a idéia de levar a sério o que nós mesmos criamos. E, como saída, enfiamo-nos no quarto escuro da teologia medieval, esperando que passe o furacão, e voltemos a contar nossos derivativos teológicos. Nossa segurança, cremos, não está em sustentarmo-nos com os pés no chão - está em que todos entrem na ciranda da fé, que todos comprem nossos títulos, que todos aceitem a nossa loucura.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

(2008/12) O lugar da exegese nos programas de ciências da religião

1. Nestes dias acontece em São Paulo, na PUC, o I Congresso da Associação Nacional dos Programas de Pós-Gradução em Teologia e Ciências da Religião (ANPTECRE). Eu estava previsto para estar numa mesa de comunicações sobre o lugar da exegese ou dos estudos de textos sagrados em programas de ciências da religião. Acabei não podendo ir para atender 'tarefas'. Lá diria mais ou menos o seguinte.

2. Não há, na atualidade, clareza epistemológica sobre o procedimento dos estudos nos campos das Ciências da Religião. A nomenclatura não é unificada. Discute-se se é uma disciplina ou se são várias ciências em olhar multidisciplinar. Se se supõe uma pluralidade de ciências, o método e a pertinência de algumas ciências também não são claras.

3. Por extensão dessa discussão no campo das Ciências da Religião, a Teologia também não tem (mais) clareza de sua epistemologia. O reconhecimento “oficial” da Teologia enquanto “ciência cidadã" na academia impõe novas demandas e desafios. A grande desconstrução no campo da Filosofia no século XIX pede um repensar do fazer teológico sem o lastro da Metafísica clássica.

4. Apesar desses desencontros e demandas, Ciências da Religião e Teologia estão juntas como subárea da Filosofia na Capes/CNPq. A relação com a própria subárea de Filosofia carece de precisão e aproximação; há mais desencontros do que encontros. Enquanto Teologia e Ciências da Religião não constituírem área própria não terão alcançado a cidadania acadêmica, pois 'cidadania' presspõe igualdade, ainda que com diferenças.

5. As Ciências da Religião se nutrem epistemologicamente da chamada “virada antropológica”. Fé, crença, religião, teologia são entendidos como frutos da potencialidade e capacidade humana de simbolização. Todo o aparato religioso é entendido como parte constitutiva da construção cultural. Dentro dessa perspectiva, a Teologia precisa prestar contas, epistemologicamente e metodologicamente, do caráter próprio do conceito de “revelação” com que sempre trabalhou e ainda trabalha.

6. Nos cursos de Teologia, de forma tradicional, a exegese ou os estudos sobre a interpretação de textos sagrados – no contexto ocidental trata-se classicamente da exegese e interpretação de textos bíblicos – tem tido lugar assegurado no labor acadêmico. A Renascença e o espírito científico “moderno” ajudaram a fomentar e desenvolver um “método histórico” para o acesso aos conteúdos e à história dos textos. No desenvolvimento de um método “histórico” já se vislumbrava certa tendência de superação de um “método dogmático”, tradicionalmente típico da Teologia. Os estudos de exegese e interpretação, com seu aparato lingüístico, filológico, gramatical, arqueológico, constituem/constituíram elemento emancipador e via de acesso privilegiado às “essências” da religião ou das religiões sem constituir (somente) mero processo de justificação de “verdades” teológicas próprias nas confissões cristãs e entendidas como recebidas por revelação divina.

7. Esse caráter emancipador da exegese e dos processos hermenêuticos tem sido fomentado nas últimas décadas com o acréscimo de novas perspectivas como a “história dos efeitos”, com influência inegável das reflexões de Gadamer. Mais recentemente, a epistemologia e a metodologia da história social têm deixado suas marcas nos estudos de textos sagrados, buscando situar os conteúdos de textos sagrados no campo da história das mentalidades e na própria reconstrução do cotidiano de grupos, comunidade e povos que estão por trás da produção de tais textos.

8. Essa perspectiva, aliada aos estudos em campos conexos como a Arqueologia e a Etnologia possibilitam superar as formulações dogmático-doutrinárias em prol de um acesso (mais) histórico à materialidade e à vida das pessoas e dos grupamentos humanos que projetaram em textos suas realidades, utopias, interdições, leis etc.

9. Agrega-se ainda a perspectiva fenomenológica na análise do processo de produção social de textos (sagrados). Com a perspectiva fenomenológica, busca-se focar o próprio fenômeno do processo e não somente os conteúdos eventualmente aproveitáveis em termos doutrinários ou supra-históricos. Creio que a exegese latino-americana, em boa medida, deu passos importantes neste tipo de estudo, claro em sintonia com o que faz em outros espaços acadêmicos na Europa e Estados Unidos. Há aí um processo de questionamento da tradição e da autoridade que lastreiam a Teologia. Os estudos exegéticos têm a potencialidade de subverter o arco da tradição na medida em que se foca sobre a materialidade e a historicidade dos textos sagrados, em geral tão vitais para as construções das confissões religiosas em particular.

10. É evidente que “novas” perspectivas hermenêuticas como as de classe, gênero, cultura e etnia (feminista, negra, ecológica, homoafetiva) tornam os olhares múltiplos e mais atentos sobre os textos sagrados, suas construções, seus interditos. Interesses de leitor ou leitora podem ajudar a redescobrir e acessar sentidos de textos sagrados dantes não assim percebidos. Aí haverá que se perguntar se o interesse do leitor serve como luz e guia heurístico ou somente como canalizador de interesses.

11. Com isso, a “exegese” tem lugar garantido, honrado e privilegiado na Teologia, com reais chances e possibilidades intrínsecas ao seu método e epistemologia de realizar estudos transdisciplinares e interdisciplinares.

12. A pergunta que fica é quanto ao lugar da “exegese” ou “estudo de textos sagrados” em programas de Ciências da Religião. Aparentemente, a Sociologia e a Antropologia da Religião capitaneiam, ou querem capitanear, os estudos multidisciplinares sobre o fenômeno religioso. Nisso há razões e certa razão, uma vez que estas ciências têm epistemologia e metodologia elaboradas e reconhecidas no campo acadêmico. Mas, o multidisciplinar não pode se esgotar aí.

13. É necessário assegurar, pleitear, propor, defender o lugar justo, digno e honrado da “exegese” ou de “estudos sobre religião e literatura sagrada” em programas de Ciências da Religião. A exegese há tempo já deixou de ser mera fornecedora de conceitos atemporais para a construção de edifícios teológicos dogmáticos para ser uma disciplina crítica e propositiva no acesso às realidades de grupos e comunidades em tempos e espaços diversos. Como justificativa, toma-se o próprio desenvolvimento da epistemologia e da metodologia histórica inter- e transdisciplinar deste campo de estudos. Ciências da Religião deve ter olhares múltiplos sobre o fenômeno religioso em diversos recortes de tempo e espaço – contextos locais e distantes; tempos presentes e tempos passados. A exegese e os estudos de textos sagrados devem ter aí o seu lugar assegurado, não por concessão tradicional, mas por mérito de sua operacionalidade metodológica e epistemológica. É sobre isso gostaria de conversar.

HAROLDO REIMER
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