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quarta-feira, 1 de junho de 2011

(2011/321) É duro! Quer dizer, é mole demais - voltando, em crise, a Vattimo


1. Juro que tento. À minha volta, pipocam citações de Vattimo. É verdade que Losurdo lhe dá um golpe mortal, daqueles de fim de luta, mas Losurdo está longe demais do dia a dia, e suas 1.200 páginas desanimam e, para vattimonianos, pra quê?, de modo que são as reverberações pró-vattimonianas que nos afogam amiúde: a água já me bate ao pescoço!

2. Volto a uma página clássica: O Futuro da Religião, p. 64: "o conhecimento é sempre interpretação e nada mais do que isso". De modo que eu estou aqui a gastar - à toa - o meu tempo, porque isso que Vattimo acaba de dizer não é nada mais do que uma interpretação, e, pior, interpretação presa a si mesmo, porque não é que seja um interpretação de alguma coisa, é meramente, somente, apenasmente isso: interpretação - de nada, de coisa alguma, é uma espuma, é um dente-de-leão miraculoso, nascido de nada e de nenhum lugar, a voar ageograficamente. É um espetáculo, e ainda menos do que um espetáculo...

3. Se Vattimo me desse permissão para olhar para a coisa interpretada, a ver se posso dizer (ou não!) que ele esteja equivocado na sua interpretação... Mas não: ele é por demais escorregadio, para dizer pouco. É uma interpretação, toma!, e vira as costas, oracularmente. Na página anterior, dissera que a "hermenêutica" - que se tornou uma coisa, uma forma de dança - não tem a pretensão de ser um pensamento mais válido que outros, e que, escutem bem: "não pode evidentemente se sustentar com base em uma descrição de como (...) seria o real estado das coisas"... Fé! Vattimo prega a interpretação, e espera de nós a fé. Ou, para tornar tudo bem moderno: é cinema e televisão a sua filosofia - você assiste ao filme, quero dizer, lê o livro dele, e volta pra casa, para acordar às seis, na manhã seguinte...

4. Não me surpreende que insista o filósofo em que o Ocidente é cristianismo secularizado - saíram os anjos e Deus, mas a fé fica: sem fé é impossível agradar aos novos deuses filosóficos!

5. Registre-se: sou herege. Se duvido até do que Deus teria dito, quanto não duvidarei do que demiurgos escrevem? Mas eis o pecado judeu-cristão: a dúvida, a autonomia...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

(2010/581) Teologia pública na República - não vai dar certo isso



1. Se os leitores desejarem conferir uma constrangedora exposição de combate, neste corner, a Teologia, a religião, a fé, a "Bíblia, Palavra de Deus", com direito à referencia explícita ao "chanceler" do Mackenzie, naquele corner, posições nem um pouco acanhadas e comedidas, de caráter, digamos, "republicano", favor reportarem-se, e depois retornem!, ao post A teologia do chanceler do Mackenzie, no blog do Nassif, sendo necessária a leitura dos comentários. É alguma coisa para fazer corar.

2. Dá-se ocasião para que eu comente, então, sobre "Teologia pública". Digo-o de pronto: se não se tratar de uma teologia telúrica, quero dizer, epistemologicamente presa à cultura e à história, sem acesso privilegiado ao céu ou ao inferno, sem tergiversações "malandras" de disfarce "confessional" - chama-se confessional ao que é ainda e sempre medieval, político e anacrônico, como se isso justificasse o anacronismo, como se o termo "confissão" fosse um abrakadrabra, um shazan -, logo, uma autência "ciência humana", qualquer Teologia pública é uma indecência na República. Se está pressuposta a argumentação com base em supostas revelações, iniciações de mistérios e arcanos, viagens e visagens e que tais, não há a mínima possibilidade de a Teologia ser e estar pública. Sejam os teólogos minimamente educados, minimamente civilizados, trancafiar-se-ão dentro de seus templos, e aí, e só aí, despejarão suas palavras, seus mitos, suas crenças.

3. Sob a perspectiva republicana, a pregação pública, catequética, "evangelizadora", ouso dizer, é indecente. Por quê? Pela óbvia - caso contrário, estou absolutamente perdido e louco (pode ser!) - consideração de que, na República, a plataforma de argumentação tem de ser obrigatoriamente universal. Não é possível um jogo republicano em que João vá ao Céu, Maria, ao Inferno, José, ao Nirvana, Antonio, ao Hades, Miriam, ao Sheol, aquele, a Jesus, esse, a Exu, aquele outro, a Iemanjá, aquela, a Manitu, aquele ainda, a Buda, e, de lá, cada qual traga suas muito fundamentadas argumentações ontológicas - o argumento de um soará mito aos ouvidos do outro, o deus de um é o diabo do outro. O jogo republicano é um jogo não-religioso, não-teológico, não-metafísico, pela razão histórica, logo, inescamoteável, mesmo para os profissionais da fé, de que o jogo republicano foi inventado para superar justamente o jogo teológico, teocrático: os homens até se deixem governar pelo deuses - o "povo", não..

4. Não estou dizendo que as diversas crenças deveriam acabar. Não sei se fariam falta, é verdade, porque as necessidades que hoje temos delas, na sua ausência, nos levariam a criar outros mecanismos de satisfação, dado que não acredito que as religiões sejam meros caprichos humanos - todavia, não duvido que vivêssemos bem sem o sistema religioso tal qual inventado até agora. Mas recupero o fio de argumentação: estou dizendo que o jogo republicano impõe a mim e a você que, na ágora, na praça, quando estamos diante um do outro, reduzamos nossa base de argumentação ao que é comum a mim e a você ao mesmo tempo. No espaço da cidadania, da República, da "nação", não posso empregar argumentos cristãos, quero dizer, baseados nas doutrinas do Cristianismo, quando tenho, como interlocutores, não-cristãos - e, mesmo se todos nós fôssemos partícipes da mesma fé, ainda assim teríamos que, por força do jogo, reduzir nossa base retórica ao que é humano, demasiadamente humano...

5. Aí, que belo flagrante de infração do jogo republicano os argumntos desse senhor reverendo. Envergonha-me o fato de ele não ter vergonha. A isso se chama Apologética, nos cursos de Teologia - a cara-de-pau de defender o republicanamente indefensável. A Apologética é a arma do desarmado - mas se lhe dão um fuzil e o direito de usá-lo, eis a Inquisição, senhores... Ele não é capaz de ter aprendido que a Bíblia pode ser tratada como Palavra de Deus por ele e por seus féis - e só entre eles, mas que a República tem nela, nas Escrituras, apenas a consideração de que sejam livros sagrados de uma determinada fé, tão sagrados, para a República, quanto o Corão e os sonetos de Bocage. Todavia, nos argumentos desse senhor, profissional da Teologia, o fato de ele crer na Bíblia como Palavra de Deus pode e deve ser usado como argumento sobre todos os cidadãos. Não há como não concluir que esse senhor vive como que na Idade Média, como se a retórica pública se desse em meio a um regime teocrático, do qual, claro, ele fosse porta-voz. Se lhe ensinaram algo no Seminário, temo que tenha esquecido, se é que aprendeu. Vá um sacerdote do candonblé argumentar na mesma base, esse senhor reverendo há de satanizá-lo, revelando o grau de cidadania republicana a que se pode chegar, quando se troca o jogo republicano pelo jogo teocrático.

6. Naturalmente que a academia tenta - mas tenho medo das tentativas dessa academia! Mas a Teologia que se produz a partir de dogmas não tem qualquer parentesco com a academia universitária, ainda que a fachada dos prédios ostentem lá um letreiro com a mesma expressão. No entanto, a academia teológica, quando vai a público, falar de "Teologia pública", terá ela a noção do desastre republicano que defende? O que ela quer? Uma praça em que cada religioso palreie suas crenças, todas, para si mesmas, verdadeiramente verdadeiras, de granito e mármore de tão "duras", numa pantomina sem sentido? Ora, que isso se pratique dentro dos templos! Mas não! O que as religiões de conquista queriam e querem há séculos e ainda hoje, lá e então, é a conquista das massas - e, por isso, devem esforçar-se para ter acesso, ainda que anti-republicano - porque Deus é maior do que a República, naturalmente!... - à mente dos cidadãos republicanos, nessa feira de deuses e deusas, nessa Babel de crenças e descrenças, de graças e desgraças que é o mercado religioso.

7. Que os reverendos bradem suas espadas, quero dizer, seus argumentos velhos, ocos, puídos, descontextualizados, anacrônicos, superados, vá lá - digamos que faz parte de sua "profissão", e, quantas vezes, não é para o "mercado interno" que falam? Mas a Teologia universitária, antes de arvorar-se em portadora de uma "Teologia pública" (se não me engano, inventada no país em que a fé evangélica justifica a invasão do Iraque e legitimava, ainda ontem, um governo mentiroso e invasor), deveria é fazer um acerto de contas civilizatório, e decidir se, afinal, é, de fato, republicana. Se for, deverá, imediatamente, converter - transformar - a plataforma em que opera, transferindo-se da retórica confessional e metafísica, para a plataforma das Ciências Humanas. Caso contrário, não terá nada de republicana, conquanto tenha nas mãos a chave da sala de aula.

8. Os teólogos devem pagar o preço - ou não honrarão a vocação. Não se pode mais ser teólogo e sacerdote, estar a serviço da fé e da crença, ao mesmo tempo em que se deseja inserir-se na cidadania e na civilização republicana. Se o desejo é o sacerdócio, escolheu-se o interior dos templos, e é aí que se deve ficar. Se se optou pela cidadania, não há mais espaço para a boca de Deus - e aí só cabe uma Teologia, não-confessional, crítica, heurística. Ou se está a serviço do dogma, o que exigirá um discurso interno, de defesa do obscurantismo e do atraso - que é como julgo o discurso do reverendo - ou se está a serviço da República, desse modo novo de ser habitante de uma nação que não nega o direito à fé, mas solicita, muito gentilmente, que seja assunto de foro íntimo. Não há lugar na República para uma Teologia pública - ao menos enquanto a Teologia não se der conta de que "Deus está morto".


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 21 de novembro de 2010

(2010/573) Oração e magia


1. Talvez seja difícil para um cristão protestante / evangélico, histórico / tradicional, reconhecer que oração é ato de magia. No entanto, o fato de haver resistência diante da aceitação de fatos não decide a questão para o lado da resistência - que o diga a teoria geocêntrica! Oração é magia.

2. Duas observações, para ajudar a compreensão do fato de que a oração é magia. Primeiro: magia é o ato simpático por meio do qual se opera, através de um agente substitutivo qualquer, uma fonte poderosa presente fora do alcance direto do operador mágico. Ou seja: a divindade encontra-se "do outro lado", eu, "do lado de cá". Eu crio, descubro, aprendo, seja como for, um modo de, através de um objeto, de um gesto, de um rito, de uma palavra - simbólicos, naturalmente, por isso, substitutivos, representativos, simpáticos - existentes ou operados do lado de cá, agir sobre a fonte do poder, que está do lado de lá. Quando isso se dá, eu passo a poder servir-me daquele poder, que, apesar de estar distante, torna-se acessível por meio da magia que eu opero.

3. No Cristianismo, os "sacramentos" cristãos são um bom exemplo de magia: a "graça" divina atinge o homem através da operação desses "ritos": batismo, crisma, eucaristia, casamento, ordem, extrema unção e confissão, para o caso católico-romano. É muito interessante, porque a "graça" aí deixa-se subentender como uma "energia" que pode ser acessada por meio do rito. Lembra muito aquela passagem em que Jesus alega ter sido tocado, e, diante da estupefação dos discípulos, assevera que disso teria certeza, porque dele teria saído "virtude" - Jesus aí é quase pensado, se já não é, como um pote de energias mágicas, a que se pode acessar, inclusive, sem o seu consentimento expresso... O Protestantismo abriu as portas para a racionalização da fé, de modo que os sacramentos - flagrante ululante de concepção mágica - vão, a pouco e pouco, até a totalidade (no caso batista), dando lugar à operação platônica da crença na verdade como processo de salvação - com o que, todavia, estamos, de novo, diante da magia simbólica das palavras, tomadas, contudo, como reais.

4. A segunda observação é que o caráter prático da magia dependerá da configuração representativa da divindade: se a divindade é pensada como "pessoal", a magia há de ser operada em consonância com essa informação; se a divindade é impessoal, energética, nesse caso, do mesmo modo, a magia corresponderá a essa caracterísitica indisfarçável. Bem sabido: falo do modo como a comunidade imagina a divindade: é a isso que se resume a antropologia da religião.

5. Sendo assim, se o fiel tem na divindade a representação de uma "pessoa", a magia, isto é, a oração, deverá transformar-se em rito que se enquadre na relação interpessoal: aqui cabe bem aquela passagem em que a viúva deve insistir infinitamente junto ao juiz, para que este lhe faça justiça - é a insistência, até que a paciência do juiz transborde e, para ver-se livre do tormento da viúva a lhe azucrinar os ouvidos, a atenda, a chave da oração, isto é, da magia... Por outro lado, se a divindade é pensada como energia, a situação transforma-se radicalmente - a oração se converterá no processo segundo o qual o fiel deve aprender a operar rigorosamente a rotina correta da magia, da mesma forma como se deve apertar o interruptor, para que a luz acenda. Lembram-se de David (Paul) Young Cho e sua orientação quanto ao modo "correto" de orar? Você deveria dar os detalhes mais insignificantes de seu pedido, caso contrário, "Deus" não teria como atender... Considero que essa orientação traduza a miscigenação entre um conceito pessoal de Deus - o modo clássico do Ocidente cristão - e um cnceito oriental de Deus - o conceito impessoal, energético, de divindade -, miscigenação favorecida pelo fato de se estar, nesse caso, na Coréia do Sul, centro de confluência dos dois lados do planeta, logo, das duas concepções essenciais de divindade. Uma vez que Deus é, aí, pensado parte como pessoa e parte como energia, de um lado, a oração é, ainda, "pedido", e, de outro lado, ela é manejo eficiente do rito adequado. Não sabeis pedir...

6. Tanto o judaísmo tardio quanto o cristianismo tiveram suas rusgas contra a magia. Quando nos damos conta de que a oração - rito máximo dessas duas religiões - constitui, nada mais, nada menos, expressão clássica dessa própria magia, chegamos à condição de compreender que a disputa judaico-cristã não era com a magia em si, uma vez que a oração e os sacramentos são magia, mas uma luta contra a magia não controlada pelo clero e pelas mediações internas da fé judaico-cristã: judaísmo e cristianismo são casos clássicos de aprisionamento da divindade, para instrumentalização dela, a serviço de um clero institucionalizado, mercê da necessidade que dela cuidam ter os fiéis - se de fato têm ou não, não vem ao caso... Aprisionada, a divindade esqueceu-se - até! - de seu próprio nome. Independentemente disso, todavia, a interminável fila dos fiéis ainda crê que não ter, a divindade, nome, e não saberem, os fiéis, o nome dela, não impede que a sua energia seja catalisada para a satisfação das necessidades triviais da vida, e a manutenção do status quo dos sacerdotes. Parece, então, que a fé da oração mágica é maior do que a dos exorcismos mágicos, porque, no caso deles, é necessário ao menos saber-se o nome dos diabos a despejar...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

domingo, 11 de abril de 2010

(2010/310) Um parágrafo de tirar o fôlego - de Nietzsche


1. "A hostilidade dos alemães contra a Época das Luzes. Que se faça um levantamento das contribuições que os alemães trouxeram com o seu trabalho intelectual para a cultura universal na primeira metade deste século e que se considere em primeiro lugar os filósofos alemães: eles retornaram ao primeiro e mais antigo grau de especulação, pois procuravam a sua satisfação nos onceitos e não nas explicações, tal como os pensadores das épocas senhadoras - eles ressucitaram uma forma pré-científica da filosofia. Em segundo lugar, os historiadores e os românticos alemães: todo o seu esforço tendia a atribuir um lugar de honra aos sentimentos primitivos mais antigos, particularmnte ao cristianismo, à alma popular, às lendas populares, à linguagem popular, ao espírito medieval, à ascese oriental, ao hinduísmo. Em terceiro lugar, os estudiosos da natureza: eles lutaram contra o espírito de Newton e de Voltaite, e tentaram, como Goethe e Schopenhauer, restabelecer a idéia de uma natureza divinizada ou satanizada, com tudo o que isto significa comumente do ponto de vista ético e simbólico. A tendência maior dos alemães se opunha inteiramente ao Iluminismo e à revolução da sociedade que, por um erro grosseiro, passava como sendo a conseqüência daquele. A piedade por tudo o que ainda existia tentava se transformar em piedade por tudo o que tinha existido, simplesmente para que o coração e o espírito recobrassem mais uma vez a sua plenitude, e não mais abrissem qualquer espaço para os fins futuros e inovadores. O culto do sentimento foi erigido no lugar no culto da razão, e os músicos alemães, enquanto artistas do invisível, do onírico, do lendário, do nostálgico, realizaram a construção do novo templo com mais sucesso do que todos os artistas da palavra e do pensamento. Mesmo levando em consideração o fato de que muitas boas coisas fossem ditas, e descobertas no detalhe, e que mais de uma tenha sido julgada desde então com mais eqüidade do que nunca, não permanece menos verdadeiro, quando se considera o todo, que o risco geral não era negligenciável, sob a aparêcia de um conhecimento tal e definitivo do passado, de sujeitar o conhecimento em geral à dominação do sentimento, e - para falar como Kant, que definia assim a sua própria tarefa - "reabrir o caminho para a fé, mostrando para o conhecimento os seus limites". Respiremos novamente um ar livre: o tempo desse perigo passou! E coisa estranha: os espíritos que os alemães evocaram com tanta eloqüência se tornaram exatamente com o tempo os adversários mais perigosos dos desígnios daqueles que o evocaram - a história, a compreensão da origem e da evlução, a simpatia para com o passado, a paixão novamente desperta do sentimento e do conhecimento, depois de parecerem todas por algum tempo, emprestaram seu concurso compassivo ao espírito obscurantista, visionário e retrógrado, envolveram um dia uma natureza diferente, elas voam hoje com asas bem maiores, deixando longe, atrás e acima de si, os seus antigos evocadores, para se tornarem os gênios novos e mais fortes destas "luzes" contra as quais, justamente, se tinha feito a evocação. Estas luzes, devemos hoje fazê-las progredir - sem nos preocupar com o fato de ter havido uma "grande revolução", depois de uma "grande reação" contra esta, nem com o fato de que uma e outra ainda perdurem: elas são apenas um movimento de ondas em comparação com o fluxo verdadeiramente grande no qual "somos levados", e queremos sê-lo" (NIETZSCHE, Friedrich, Escritos sobre a História, Rio: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2005, p. 209-211).

2. É muito "reconfortante", digamos assim: para a "vaidade intelectual", encontrar num só parágrafo toda uma longa série de postulados históricos com os quais tenho trabalhado há já consideravel tempo, particularmente depois de meu "encontro" com José Carlos Reis, na disciplina de Teoria da História. Esse período - séculos XVIII e XIX (conquanto suas verdadeiras raízes avançam tão fundo quanto a cultura greco-romana, o século das invasões árabes na Península Ibérica e o século XVI alemão, de que tudo o mais é desdobramento "criativo") - define a modernidade ocidental. É aí que tudo que conhecemos hoje como Ocidente está em gestão acelerada, em revolução, em reação - é isso tudo uma grande metáfora de batalhas civilizatórias, de mundos colimados, de políticas, de culturas... A Modernidade é uma invenção ocidental, situada entre uma estrutura pré-moderna planetária e uma reação pós-moderna ocidental. A Modernidade é a Geni da história ocidental contemporânea...

3. O "encontro" entre uma França iluminada e napoleônica, de um lado, com uma Alemanha mística e medieval, de outro, produziu o fenômeno mais extraordinário da cultura Ocidental, se considerarmos os últimos 200 anos: foi justamente aí que conceberam-se as Ciências Humanas, essas, sim, verdadeiras iconoclastas, incontroláveis: a Teologia pôde cooptar para si a "razão" - mas as Humanidades... a essas, só os falsos teólogos e humanistas, híbridos de fraude e desmedida.

4. Se o leitor quiser deliciar-se com uma história ambientada nesse período crítico, no olho do furacão da guerra napoleônica de invasão à Alemanha que, em reação, vai parir o Romantismo, divirta-se com Os Irmãos Grimm. É necessário inglês. As demais partes estão disponívesi no Youtube, e reproduzo aqui, apenas, a primeira.

5. Esse filme encena de modo magnífico, conquanto não seja nem de longe esse o seu objetivo, o enfrentamento histórico das luzes francesas contra a mística alemã. É também sobre isso que fala Nietzsche. Mas ele o diz de modo (para mim) curiosamente novo: a idéia que tenho carregado comigo é a de que o Romantismo foi uma reação programática de anulação dos efeitos políticos da razão napoleônica, que, da mesma forma como "Deus" era usado pelo imperialismo cristão, utilizava-se da "deusa" razão para justificar seu alegado direito, assim vicário, de libertar os povos... Para anular o direito retórico francês, os alemães, que não o podiam vencer nas armas, retiraram de seus depósitos a tese do desvario da razão, a tese do assombro humano como fundamento do "mundo" hermenêutico humano, o estado de solidão e perdição humanos em face do mundo e do Universo, a história, enfim, como cenário único da espécie humana.

6. Já Niezsche considera que tudo isso se resumiu a uma defesa da mística... Talvez tenha sido assim, de fato. Mas o que me interessa é que o próprio Nietzsche reconhece que, no final dessa "reação" romântica contra as luzes, o estado da "mística" (a rigor, da Teologia) resulta pior do que antes, porque, ao passo que a Teologia podia suster-se diante do Iluminismo - a rigor, não houve reação alguma de monta contra o Iluminismo -, o Romantismo, por sua vez, retira toda a base de argumentação metafísica, o homem, aí, torna-se pura contingência inexorável, de modo que, pressentindo, aí, sim, o perigo, as igrejas - todas - reagiram de modo violento: Vaticano I, Karl Barth e The Fundamentals. Sim, os gênios voam, agora, com asas mais fortes, maiores, do que antes.

7. Ainda que a intenção - primeira?, segunda? - de Kant tenha sido "abrir [manter] caminho para a fé", delineando os limites do conhecimento, no final das contas, o que a Crítica da Razão Pura consegue é anular as argumentaões racionais a respeito da metafísica, das doutrinas, da fé - tudo isso cai por terra de uma só vez. A Crítica da Razão Prática sustenta-se, abrindo caminho para a fé, somente onde a Crítica da Razão Pura não é levada a sério. De modo que não importa tanto para quem Kant prestava serviços - seus serviços, a médio prazo, tornaram a Alemanha cada vez menos "atual".

8. Não é revelador que a Teologia se faça, ai, como se fora ciência, quando não passa de mito e metafísica? Não há racionalidade na Teologia - ela, lamentavelmente, cnostitui-se um bolsão reacionário de racionalização: para o constatar, leiam-se quaisquer das obras magnas dos sistemáticos da moda. O que da Teologia tornou-se verdadeiramente ciência, a exegese, ainda sequer tornou-se fundamento das "ciências teológicas", todas, sem exceção, agarradas à Nicéia (cada uma a seu modo, naturalmente). O Ocidente vive dividido em dois mundos, ainda - o político-teológico, medieval e obscurantista, e o científico-humanista, perdido, ainda, por falta de verdadeira adesão civilizatória: as "máquinas" são científico-humanistas, mas seus operadores, medievais.

9. Perfeito o parágrafo de Nietzsche. Eu o poderia ter usado em Teologia no Divã, se o conhecesse à época... Mas não é tarde...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 27 de março de 2010

(2010/266) Entender eu entendo...


1. Eu entendo o quanto é difícil para o homem religioso harmonizar a fé e o conhecimento. Principalmente o homem religioso de religião de livro, de religião de doutrina. Para essa espécie de homem, o mundo é conforme sua crença diz que é - e, se a sua crença diz que o mundo é assim, então o mundo é assim.

2. Isso se exlica por uma série de razões. Primeiro: uma educação absolutamente fundamentalista. Com fundamentalista, aqui, quero referir-me gerenalizadamente ao modo de reflexão racionalizada, cuja base é a doutrina, logo, o mito, mas o mito tomado como verdade, sem consciência de sua condição histórica. A religião que deixou de tomar-se como magia e mito, como religião, e deixou-se enganar, considerando-se "verdade", essa religião constitui um sistema coercitivo de inculcação. As mentes que caem nessa rede têm muita dificuldade de sair daí. Pior ainda se essa religião se tinha na conta de "verdade verdadeira", antes que o advento da racionalidade moderna classificasse tanta sabedoria como mito. Aí, então, o clime torna-se belicoso. Pobre catecúmeno...

3. Some-se, agora, àquela primeira razão, essa segunda: uma educação cultural baixa. Sozinha, ela não seria "a" causa, mas, aliada àquela primeira, é importante razão para a dificuldade de a mente religiosa harmonizar-se com o conhecimento moderno. O homem religioso, privado das disciplinas mais sofisticadas, mais críticas, dificilmente terá condições de sair do mundo parcial em que vive, do mundo quantas vezes obscurantista, em que os critérios de verdade e conhecimento se confundem aos de fé e crença.

4. Além disso, há uma razão programática - um sistema político inteiro montado, com cargos, salários, posições, luxos, privilégios, heranças, vaidades, benesses, honras, glória, sacralidades. O desmonte da máquina implicaria na perda desses benefícios. Mesmo que não seja programática a resistência - a simples inércia, mesmo a boa espiritualidade - ah, e eu convivo com grandes demonstrações de boa espiritualidade! -, mas mesmo essa boa espiritualidade, mesmo essa, concorre para a manutenção do mito e, na conseqüência, para a dificuldade da libertação da mente cientifico-humanisticamente não-esclarecida. O mito é uma dropa entorpecente... se não se encara como mito.

5. Outro dia, conversei com um amigo, um colega. Ele me dizia que pensa com duas cabeças - eu lhe dizia que ele era é lobotomizado: parte de seus raciocícnios é científico-humanista, quando ele veste a roupa de cientista-humanista, e parte de sua cabeça é teológico-espiritual, dutrinária, quando ele veste a roupa de pastor... Hum, interessante: não admira que haja tanto doido evangélico... Alguém assim "esclarecido" até consegue ficar de pé-lá-pé-cá, pé-cá-pé-lá, apesar de eu que não tá é com pé em lugar nenhum, no fundo, no fundo, ele é um perneta no asfalto quente, ai!, ui!, ai!. Desconfio que meu amigo não é nem cientista nem pastor... Mas há mentes que, quando se deparam com essa bifucarção na estrada, não podendo se lobotomizar assim, como meu amigo, não conseguindo resolver-se assim, nem de outro modo, piram - literalmente. É dar uma volta nos manicômios, pra ver como é.




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 30 de janeiro de 2010

(2010/117) Entender não é crer - e vice-versa


1. Durante a Idade Média, a racionalização teológica criou fórmulas tais como "crer para entender" e "fé que busca entendimento". Desavisados, apologistas engajados ou consciências axiologicamente excêntricas à racionalidade moderna consideram que essa postura coincida com "racionalidade". Na verdade, o dia em que a Teologia deixou-se enamoerar pela retórica da racionalidade, ainda que para administrá-la, assinou seu atestado de morte. No entanto, aquelas três espécies de teólogos, mesmo hoje, caminham como que desapercebidos disso. "Crer para entender" não constitui uma rubrica do capítulo da modernidade - mas uma forma de racionalização.

2. Não que a fé seja menos do que a ciência. Ela é, todavia, aí sim, absolutamente diferente. Conquanto haja elementos de fé - certo tipo de fé - na ciência, o nevrálgico, o incomparável aí é o regime em que a fé pode operar na ciência, porque, aí, ela exerce um papel segundo, subordinado, crítico, sujeito à morte.

3. Na Teologia - cristã - operam-se dois regimes fundamentais de fé. Um, com base em Normas da Tradição - o modelo católico (deixo de lado o problema crucial do Vaticano II que, a rigor, subverte o jogo, quando submete a Tradição às Escrituras - é a tragédia protestante contaminando Roma). O outro modelo - evangélico-protestante - opera com base nas Escrituras (deixo de lado o contingente dissimulado, eventualmente hipócrita, de, no fundo, as Escrituras apenas funcionarem de arrimo político para as retóricas denominaconais - mas tratemos da "tese" protestante e pronto).

4. De um lado, o modelo católico tem "corpo". Uma vez que é o "clero" quem determina o conteúdo da fé, a catequese é "objetiva" e didaticamente confortável. O prejuízo do modelo é ter de admitir que se trata de proposição tradicional, com base única e exclusivamente nos pronunciamentos de um corpo teológico organizado. Erasmo, por exemplo, não va problemas nisso, desde que Roma garantia unidade ao corpo cristão.

5. De outro lado, o modelo protestante dá uma no prego e outra na ferradura. Ele se revela mais "objetivo", no sentido de que o conteúdo da fé está registrado de modo definitivo na Escritura. No entanto, desde que se passou a levar a sério os problemas de interpretação - que só se resolvem dentro do modelo católico! -, as Escrituras tornaram-se cada vez menos politicamente úteis, de modo que a tendência ao discurso de "fé denominacional" acentuou-se - os "bíblias" tornaram-se crentes de partido, e a retórica política, cada vez mais cênica.

6. Minha relação com esses dois modelos está definitivamente rompida. O meu problema, agora, é de outra natureza. Empreendo relativo esforço para a interpretação histórico-crítica das Escrituras, e é a isso que se resume minha relação mística com elas - a busca pelo setido. No entanto, tenho consciência de que entender não é crer. Se, de um lado, as denominações evangélico-protestantes estão repletas, apinhadas, de crentes que crêem (das doutrinas), mas não entendem (as Escrituras), os métodos histórico-críticos, por sua própria configuração ideológica, promovem aprofundamento do entendimento (das Escrituras), mas, se honestamente praticados, subvertem necessariamente a fé (nas doutrinas).

7. A uma consciência crítica, histórico-crítica, restaria uma fórmula do tipo - "creio na minha interpretação histórico-crítica". Ora - que tipo de "segurança" espiritual essa atitude produz, se o leitor histórico-crítico tanto sabe de sua condição antropológica, quanto reconhece a condição humana dos hagiógrafos? Crer, um crente, no que um padre ou um pastor diz não é diferente de crer um histórico-crítico em sua interpretação crítica da Bíblia - trata-se do mesmo tipo de fé. A honestidade acadêmica, senhores, salvo engano, interdita a matriz evangélico-protestante. Resta ver se ela tem futuro nos moldes católico-romanos.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

(2010/082) Carl Sagan - teólogo...


1. Eis aí, esculpida em carrara, uma declaração que, se não tivesse dono - Carl Sagan - eu tomaria por minha. Se eu dormisse agora, acordasse em dez anos, e esquecesse que a lera em O Romance da Ciência, eu confessaria, sob juramento, tê-la redigido ao lado de três elfos iluminados...
Nem todos os que levantam questões sobre as hipóteses da existência de Deus e da alma são ateus. Ateu é uma pessoa convencida de que Deus não existe, uma pessoa que tem uma evidência contundente nesse sentido. Desconheço a existência dessa evidência. Como Deus pode estar ligado aos tempos e lugares mais remotos e às causas derradeiras, deveríamos saber muito mais do que sabemos sobre o universo para estarmos certos de sua inexistencia. Estar certo da existência de Deus ou estar certo de sua inexistência parecem-me extremos de confiança num assunto tão marcado pela dúvida e pela incerteza a ponto de inspirar, exatamente, muito pouca confiança. Uma larga margem de posições intermediárias parece admissível, e considerando-se o conteúdo emocional de que o assunto está investido, uma mente questionadora, corajosa e aberta parece constituir a ferramenta essencial para que estreitemos a margem de nossa ignorância coletiva sobre a questão da existência de Deus.
2. Ontem à noite, quando nem sonhava em, hoje, tomar às mãos esse volume encapado a plástico e guardado em minha estante, Bel e eu conversamos longamente sobre isso, abraçados e perdidos na penumbra de um quarto doce. Divagamos sobre o início de nossa caminhada, de nossa , sobre os abismos que atravessamos, juntos, pelo medo que sentimos, aqui e ali, da travessia, e a sempre cada vez mais forte paz de espírito que íamos adquirindo, à medida justamente que, a nosso tempo e modo, essas palavras agora de Carl Sagan iam entrando em nossa carne, diluindo-se em nosso sangue...

3. O medo se foi. A vida, nua e aberta ao vazio, tem horas, ameaça-nos. Nesse momento, sem constragnimentos, mas igualmente sem rituais, olhamos para o Mistério, e desejamos - foi a palavra que Bel usou - desejamos que Ele esteja lá, cuidando de nós, de nossos filhos, até que o sono, na forma da pomba que resta, pouse sbre nós.








OSVALDO LUIZ RIBEIRO
PS. Para a citação, Carl Sagan, O Romance da Ciência, 4 ed., Francisco Alves, 1985, p. 325.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

(2010/068) Tem certeza de que vai pular?


1. Eu penso assim: quer pular?, pula! Quer saltar da própria mão do Cristo?, salta! Quer lançar-se no abismo, com toda fé e confiança?, que seja! É de direito. É a isso que se chama fé, confiança, coragem...


2. Todavia, deixe-me adverti-lo de que - não importa a fé que você tenha, não importa a sua confiança, não importa a sua coragem: tudo... ou pode dar certo... ou pode dar muito, muito errado... E, se pode dar errado, vai dar errado. Até o "Cristo Redentor" sabe disso...

3. Bem, agora é com você. Vai saltar?



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 12 de dezembro de 2009

(2009/637) O nó górdio da Teologia


1. Minha intenção "era" escrever um post simples - acho que meus posts são complicados demais para a maioria das pessoas - eu escrevo pressupondo que meus leitores sabem do que estou falando... Assim, "ia" escrever algo bem simples - mas, já no título, meti lá o "nó górdio"... Estraguei tudo, né?

2. Trocando em miúdos - por que, no Brasil, desde o final da década de 90, a Teologia entrou numa sinuca de bico, numa camisa de sete varas, em palpos de aranha, numa furada? Por que a Teologia está - definitivamente - acuada, contra a parede, tonta, quase em coma?

3. Explico. Na prática, a Teologia tem-se dito "estudo de Deus". Nas salas de aula mais sérias, corrige-se. Mas essa correção é apenas "para inglês ver". Na hora hagá, nos púlpitos, nas capelas, nos artigos - Teologia volta a ser o que sempre foi, desde a Grécia platônica: estudo de Deus...

4. E lá se ia a venerabilis ordo theologorum - ai, de novo! - desfilando sua "ciência de Deus", de cátedra em cátedra, de púlpito em púlpito, de livro em livro... A CAPES fez que não via. Como igrejas na República, a Teologia, na CAPES...

5. Aí, deu prurido... Já que estava na Pós-graduação há tantos anos, por que não também na Graduação? Pronto... um passo maior do que a perna, uma mordida maior do que a boca, um olho maior do que a cara.

6. É que, na Graduação, a Teologia deixa de ser "cristã". Na prática, até pode "continuar a sê-lo", porque ainda não se tratou seriamente da questão. Mas, se cristã é essa aqui, aquela ali é umbandista (SP), aquela outra, messiânica (SP), e aquela mais ali é kardecista (PR). Ou seja, Teologia, agora, é coisa "multi-religiosa" (que horror!).

7. Bem, não dá mais - só por teimosia e indiferença (o cristão ou é conquistador ou indiferente - é Narciso por excelência!) - pra dizer, agora, que Teologia é "o estudo de Deus". "Deus" é uma palavra para referir-se ao modo como o(s) cristianismos pensam seu Deus (ainda que eles achem que é o de todos, é, na verdade, o deles - e só). Umbandistas têm compreensões - fés - diferentes. Kardecistas, idem. Messiânicos, nem se fala... Logo, não é mais possível dizer que Teologia é o estudo de Deus...

8. Bem, teólogos cristãos ainda vão repetir isso por anos a fio, como repetem de Adão e Eva. Ainda há quem diga que Teologia é para quem tem fé cristã! Contudo, os teólogos sérios - ao menos os atentos! -, esses hão de refletir a partir da situação em que a Teologia está - plural e em processo acadêmico. O resultado é imprevisível.

9. Pode ser que uma canetada acabe tudo. Chauí o quer(ia?). Muitos "crentes" o querem. Se a Teologia sai do MEC, a "academia" fica feliz, os evangélicos, alguns, saltam rojões, e, coitada, a Telogia, volta a ser mito... Lástima... Volta a "estudar Deus"...

10. Vamos ver como acaba essa novela. Como não somos chamados para opinar (e olha que não somos exatamente "leigos desinteressados"), como as coisas são resolvidas nas altas esferas, onde rondam as panteras, as políticas, as onças pardas, as pressões, nem Deus - qual deles? - sabe como isso vai acabar.

11. Vou sentar aqui na varanda. Enquanto isso, toda oportunidade que eu tive para denunciar que o rei está peladinho da silva eu a usarei. Como agora. Para constrangimento de muitos - para vergonha de todos nós.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/633) Pergunto ao Jimmy


1. Jimmy, o que você me diria, se eu ensaiasse a seguinte "tese": o caminho para uma teologia "positiva", que tentasse superar a aporia da "esquerda", da "emancipação", da supressão de todos os fundamentos dados como "ontológicos", é o cinismo? Quero dizer: o teólogo (ou seja lá o que ele vem a ser) sabe que não há fundamento algum, mas ele - ele?, a comunidade dele, nos termos e que ele a concebe... - (agora) cuida saber que é necessário, se não um fundamento, ao menos uma crença nele, um discurso sobre ele, uma ilusão dele, poesias-pirilampos sobre ele...

2. É isso? Não creio que para um "teólogo" que trate dessas questões, isto é, para um teólogo que "viu" - de fato! - o abismo insondável e sem fundo da existência, possa simplesmente fingir que não viu, e voltar àquela "fé" da ingenuidade e inocência... Para um homem assim, tal qual esse, apenas lançar-se no sem fim, ou usar de retóricas políticas...

3. Mas o que me deixa encafifado é: quem é que precisa dessas artimanhas de pôr discursos sobre a mesa? O teólogo? O público dele, segundo sua opinião e senso de "mercado"? Sua "comunidade", o que faz dele algo muito parecido com um... charlatão, ainda que, vá lá, um "charlatão do bem" (Aldous Huxley desesperaria de ouvir isso!).

4. Jimmy, meu amigo, há salvação para a teologia? Ou apenas o redil das confissões lhe permitiria dormir tranqüila, crendo-se "salvadora" do mundo? Do que é que se trata, Jimmy, meu amigo, afinal? É o teólogo, afinal, o herdeiro do cetro do mundo, da retórica do Pastor dos Povos?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

(2009/605) De novo, vespas...


1. Também assim, quantas vezes, é a fé - depositada na consciência, ela, a fé, impede que a pessoa cresça, desenvolva-se, autonomize-se, torne-se adulta, torne-se dona de seu próprio nariz. Grudadinha, ali, na consciência, sugando-a, cada ovo de fé promove o seu próprio desenvolvimento. A pessoa, contudo, vai vivendo, feliz, até, sem saber, coitada, quantas vezes, que está ali, parasitada por ovos que nunca mais a deixarão crescer, porque precisam dela, assim, pequenininha, lagarta-pintada, quem foi que te pintou? Aí está - o sacerdote é uma vespa?



Para entender, clique na foto



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. deve ser por isso que um livro sobre Bíblia e intérpretes de Bíblia afirma, categoricamente, que o método histórico-crítico é prejudicial às igrejas... é que é um método "mata-ovo"...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

(2009/602) Teologia na CAPES é fé cristã?


1. Bem, se o critério com base no qual se deve responder a pergunta é a entrevista concedida por professora doutora da PUC-Rio ao Jornal Folha Dirigida, sim. (1) Felizmente que nem todo teólogo se pronunciará em sintonia com tal entrevista. Ao menos não os teólogos de nova safra, "compatíveis" com sua inserção na academia - no MEC. Seja como for, confirma o que venho dizendo em Peroratio - a Teologia na CAPES nunca se deu por rogada: fez-se e faz-se, hoje, agora, nesse minuto, diante das "autoridades", diante dos olhos do mundo, "fé" e "confissão" - e o que é imensamente pior, deletério e revelador da invisilibidade que o "outro" tem diante do "cristão": "fé cristã"...

§ o "outro" só existe para o cristão como objeto: seja objeto da conquista para a fé, seja objeto para o exercício do amor e da caridade. Mas o "outro" não tem direito à existência própria e livre, e, quando o tem, é pecado e mazela. Na CAPES, no MEC, a boca torta da Teologia, há séculos fumando o charuto do solipsismo teológico existencial, ainda nomeia Teologia como "coisa de cristão". Isso me faz pensar que Teologia cega... A depender de mim, insistirei na denúncia desse pecado epistemológico, dessa blasfêmia civilizatória.
2. "Na minha concepção, em primero lugar o estudante de Teologia deve ser uma pessoa de fé cristã". Obviamente que, se uma tal "concepção" tiver algum fundamento - e não tem felizmente - o MEC estaria em paupos de aranha, posto ter credenciado falsas faculdades de teologia - kardecista, messiânica e umbandista. Falsas, sim, porque, se teologia é fé cristã, uma vez que não são cristãs tais faculdades, não podem ser "teológicas", como dizem ser:

§ Curso de Graduação em Teologia - Faculdade Mesiânica!
Curso de Graduação em Telogia - Faculdade Umbandista!
Curso de Gradução em Teologia - Faculdade Leocádio José Correia (kardecista)

Não - definitivamente - Teologia não é (mais) coisa [só] de cristão...
3. Haroldo, dias desses, lembrou-me de que não era nenhuma novidade a Teologia no MEC, porque ela já estaria no MEC desde a CAPES... Bem, meu amigo, eis a Teologi ada CAPES. Não apenas é pré-moderna, medieval, confessional, normativa, como ainda é desatenta, descuidada, para não dizer, arrogante. Esquece-se de que a fé cristã não é mais snônimo de teologia, se algum dia foi. Teologia é outra cosia, we, certamente, não mais fé crista.

4. A CAPES não conseguiu fazer nenhuma transformação na Teologia, porque a Teologia constriu, na CAPES, um "gueto", um compartimento protegido, isolado das Ciências Humanas, onde é ela, a Teologia, quem faz Antropologia, Sociologia, Psicologia, onde os teólogos dobram as disciplinas segundo o tamanho da gaveta teológica, quer duizer, que faz que faz, porque a Antropologia que aí se faz não é, sob nenhum critério, Antropologia, nem a Psicologia que aí se faz é, sob alguma base, Psicologia - as Ciências Humanas são, aí, subvertidas, corrompidas, cooptadas, violentadas, ad maiorem Dei gloriam... Pena que a glória de Deus é, quase sempre, o aviltamento do homem.

5. Não, profesora, não, não. O estudante de Teologia, no MEC, não precisa, não, ser uma pessoa de fé cristã. Pode até ser de fé umbandista, também, messiânica, se quiser, kardecista, que seja. Mas, a rigor, nem precisa nem ser de fé, pode ser atéia, cética. Aliás, nem mesmo os professores precisam ser homens e mulheres de fé, podem ser até ateus, e céticos. MEC não é catequese - e se é, é crime. Academia, CAPES, MEC - nada disso é Igreja, é Roma, é Wittenberg, e, se for, pára o mundo que eu desço.

6. Não me espanta, nem um pouco, que a Professora Chauí tenha proposto que a Teologia seja retirada do MEC. Na condição de filósofo, eu não pediria outra coisa. No entanto, na condição de teólogo, quero a Teologia no MEC. Mas não essa teologia aí, de fé e confissão, pelo amor de Deus! Quero uma Teologia que se transforme - está longe de o ser - em Ciência Humana. Para isso lutarei. Que a fé fique lá, quietinha, onde pode e deve estar - na consciência individual das pessoas: mas não, de forma alguma, na base do critério da teologia acadêmica.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(1) Folha Dirigida. Caderno de Educação. Especial Carreiras. 01 a 07 de outubro de 2009. p. 2.
PS. instado a comentar-me, Jimmy disse-me ter percebido um tom inquisitorial em meu comentário. Reli o texto. Alterei a segunda expressão do primeiro parágrado. O restante não me pareceu a fala de um inquisidor. Disse-me, ainda, que não ter revelado o nome da professora poderia ser considerado ainda mais constrangedor. Bem, nada me faria deixar de mencionar o nome da professora, salvo, e foi o caso, justamente o fato de que eu lamento veementemente a declaração, mas não a declarante. O fato em si é relevante, o fato de que se trata de um pronunciamento de uma professora da PUC-Rio, logo, de uma profissional vinculada ao MEC e à CAPES. Contudo, o nome da professora é irrelevante. Não é o fato de ter sido a professora xis a dizê-lo, mas o fato de ter sido uma professora.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

(2009/556) Do prurido evangelístico


1. Recebo um "spam" agora há pouco. Curioso - no final do "spam", o missivista insistia: "isto não é um spam". Pronto, não é um spam. No tribunal, o juiz pergunta ao acusado: como se julga? Inocente, senhor! Pronto, inocente...

2. O spam me convidada ao Evangelho e à fé. Não li tudo. Parei assim que tomei pé da coisa. Um dia, cedo, domingo, bateram-me à porta. Eram testemunhas de Jeová. Enquanto me dirigia a eles, educadamente, por dentro, mandava-os aos quintos dos infernos, por me encherem a paciência tão cedo já... E, não tardou, minha consciência me fuzilou - ué!?, mas e quando é você a bater de porta em porta (sim, já fiz isso muito)? Isso mudou minha prática.

3. O spam, poranto, era um "folheto" digital. Num primeiro momento, fiquei aborrecido. Mas, então, lembrei de 1988. Trabalhava na Dardo Transportadora. Eram os dias dos primeiros amores evangelísticos. Eu passava o dia datilografando conhecimentos de frete. Centenas por dia. Eu comia os teclados, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá, tá. Oito vias. Você praticamente martelava cada tecla... Não, não havia PC, ainda...

4. Lembro-me bem: no canto superior de cada conhecimento de frete, eu escrevia mensagens evangelísticas. Fiz isso durante semandas. Um dia, meu chefe proibiu-me. Achava eu fazer a vontade de Deus, e não é difícil imaginar que interpretei a proibição como uma "prova". Insisti. Uma enfermidade me tirou do emprego, e não sei como a coisa terminaria...

5. Recordo-me que eu "tinha" que fazer aquilo. Tinha que escrever. Era uma pulsão, uma compulsão. Se podes, e não fazes, pecas. Eu podia (bem, na verdade, não), e fazia e fiz. Era uma questão psicológica. A verdade e o mundo como eu os cria me obrigavam a fazer aquilo. Não havia como não fazer, pelo menos para quem decidisse, como eu decidira, a viver seriamente a fé. Ora, a fé mandava eu fazer. Eu fazia. Não seria eu a questionar os imperativos da fé.

6. Assim, tenho de, com uma válvula cardíaca, compreender o spam. Pulsão. Com outra, criticá-lo, como fiz com minha própria experiência, superada, eu acredito, por força de maturidade. Meus conhecimentos de frete andam por aí, em algum arquivo morto. O spam, deletei.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO


quarta-feira, 21 de outubro de 2009

(2009/547) Comentário Geral - TV Brasil


1. ATENÇÃO.

2. Mudou a data do episódio Fé, do Programa Comentário Geral, da TV Brasil. Será domingo próximo, 25/10, às 19:30 horas. Entrevistaram-me, e, atenciosíssimos, ligaram para avisar da alteração da data.


Domingo, às 19h30
Especial
- 25 de outubro de 2009

O professor de teologia Osvaldo Luiz Ribeiro, autor do livro O que é fé? descreve-a através de quatro sentidos: fé enquanto ensino, fé enquanto encontro, fé enquanto encanto e fé enquanto entrega. Por outro lado, o filósofo André Martins define a má-fé e mostra porque as pessoas agem dessa maneira.

O crítico de cinema do jornal O Globo, Rodrigo Fonseca, participa do programa para falar sobre o filme Anjos e Demônios, que foi condenado pelo Vaticano antes mesmo de estrear nas salas de cinema. O filme é estrelado por Tom Hanks, que interpreta o professor de simbologia Robert Langdon que, a mando da Igreja Católica, investiga o
misterioso desaparecimento de cardeais. O programa ainda exibe dois curtas-metragens: Santo de casa e Deus é pai. O comentário é do cartunista Allan Sieber.

Para explicar os conflitos no Oriente Médio e a estreita relação entre política e religião naquela parte do mundo, Comentário Geral convida o professor de História da UFRJ, Francisco Teixeira. E, como a igreja interferiu ou ainda interfere na política do Brasil e Europa? Quem responde a essa pergunta é o deputado federal do PSOL, Chico Alencar (RJ).

A fé é um termo tão abrangente que influencia até a moda. A empresária e designer, Maria Isabel Gasparian, da loja Santa Cor, do Rio de Janeiro mostra como esse mercado vem crescendo. Já o termo jurídico “fé pública” é assunto do advogado de família e presidente de honra da União Internacional dos Advogados (UIA), Paulo Lins e Silva.

Ciência versus fé. O professor de filosofia da PUC- RJ, Leandro Konder, fala sobre essa questão. E, o tema também está nos palcos. Sucesso de crítica e de público no Rio de Janeiro, a peça A alma imoral, uma adaptação do livro do rabino Nilton Bonder, agora está em cartaz em São Paulo. O espetáculo consiste em um monólogo em que a atriz Clarice Niskier faz o papel de si mesma enquanto conversa com o público citando parábolas judaicas e passagens da Bíblia.


(para o site do Comentário Geral, clique acima ou aqui)



OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 3 de outubro de 2009

(2009/511) Se Deus for calvinista...



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1. Se houver mesmo Deus, e ele for calvinista, e eu, um “eleito”, assim que eu puser o pé no céu dele, peço pra sair. Não posso permanecer no céu de um Deus calvinista. Não acho justo que uns sejam criados para a perdição e outros sejam criados para a salvação – e às favas, senhores, com todas as racionalizações político-teológicas, já antecipo, antes que me venham apoquentar os ouvidos com intermináveis ladainhas medievais! Acho a eleição um crime. Um Deus calvinista é um Deus que peca! A Paulo, que me adverte a não questionar o Criador, eu diria que, se um dia saí do lodo e da condição de animal, para tornar-me homem, não foi para outra coisa que não descobrir o quanto é cruel e covarde a Natureza, gnose revelada à minha condição humana, de modo que, encontrar-me com a Crueldade em pessoa, com o Pecado em carne e osso, não me fará retornar à condição de bicho, senão que utilizar-me-ei da máxima condição humana para arrostar-lhe em face a verdade que só os homens e as mulheres podem ver: que onde não há igualdade, fraternidade, liberdade, não há humanidade, porque há uma humanidade humana, e há outra humanidade, ainda animalizada, bestificada, carne de vermes e apenas carne de vermes. Desumano Deus, que concebe uma eternidade de homens fritos em óleo – e ainda quer canções! É o requinte da perversão! Num céu desses, não canto. Num céu desses, me mato. E fritar com os outros? Melhor com eles.

2. Mas como tudo isso não passa de projeção nos céus da crueldade de certas almas cristãs, de certas almas doentes, nem se me dá essa mitologia de reis e plebeus, uma teologia de Davi e Urias. Como Natan, arrosto-lhe a maldade na cara. E, se tudo, então, é projeção, projeto meu próprio mito – um amigo na varanda, um companheiro de observação de formigas, de empinar papagaios nos céus de Jerusalém, o único que sabe dos beijos que dou em Bel. E quanto aos maus? Bem, resolvamo-nos quanto a eles aqui e agora, posto que, quanto ao futuro, caminho mais por Eclesiastes mesmo, e já fiz saber essa lei ao meu hipostático amigo.

3. Enquanto "batalho" a batalha de transformar a Teologia acadêmica em ciência de verdade – experimento ensaiar uma espiritualidade cética e mística, de nada saber, um nada saber que interdita tanto a fé quanto a não-fé, e, dado que meu corpo e minha alma exigem um mito de amigo, não me acanho de narrá-lo ao pôr-do-sol, e esperar que a aurora ainda me encontre infantil. Isso – ser adulto na Academia, e criança no coração e na alma... Na minha Academia, meu amigo Deus está na primeira fila, mas ninguém o vê, nem eu, só o imagino ali, sorrindo, enquanto me vê brincando de gente grande.

4. Adeus, deuses-reis! Adeus, deuses-senhores! Adeus, deuses-potentes! Ao menos, reconheço, até minha próxima encruzilhada de dor. Aí – ai! ai! –, enfrentarei a tentação – cederei? – de criar para mim um amigo todo-poderoso que me cure o corpo e me conforte a dor. É duríssima a transição...







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

(2009/477) O que é fé?


1. Li com muito proveito o livro do Osvaldo, O que é fé?

2. A distinção entre as quatro formas de fé: como ensino, como encontro, como encanto, como entrega, constituem para mim uma reflexão profunda. A reedição do livro vale a pena e deve ser apoiada.

3. Destaco uma passagem: "No fundo, a fé como entrega sabe que há por trás do Sol, dos pássaros e das flores, um amor muito grande, do tamanho do Sol, da leveza do pássaro, da beleza da flor, e que esse é para mim e por mim, para nós e por nós" (p. 84).

4. Com tal afirmação nasce o teologizar enquanto experiência estética. Seu resultado reflexivo se situa neste campo. Pode ver a se tornar objeto de manejo político, que afirmará a realidade transcendente, ontológica. No encanto e na entrega, há um admirar-se e um perguntar pela conexão das coisas e pelo seu sentido. Será interpretação. Não há um referente seguro.


HAROLDO REIMER

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

(2009/475) O Que é Fé? no Comentário Geral


1. O programa Comentário Geral, da TV Brasil, "achou-me" no Oráculo. Preparam um programa sobre a palavra , e, então, acharam meu livrinho O Que é Fé?, publicado pela MK em 2004.

2. O Programa Comentário Geral passa aos domingos, 19 horas da noite. É um programa interessante, de formato diferenciado. Uma apresentadora "narra"/"apresenta" o programa, sempre montado com base em uma palavra - "armas"(domingo passado), "primavera (o próximo)", "fé". Fazem inúmeras - muitas, mesmo - entrevistas mais ou menos breves, e organizam o roteiro de cerca de meia hora a partir delas.

3. Domingo passado, assiti ao de "arma". É bem feito, bem apresentado, muito interessante.

4. Entrevistaram-me na capela do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Pediram-me para falar sobre o conteúdo do livro, os quatro "tipos" de : fé equanto encontro (mística), fé enquanto ensino (doutrina/catequese), fé enquanto encanto (magia) e fé enquanto entrega (confiança). Filmaram duas versões - uma mais e outra menos breve.

5. Irá ao ar dia 01/11/09, domingo, 19 horas.

6. Quanto ao livro, o contrato com a MK vence em um mês e meio. Penso em re-escrevê-lo e publicar por outra editora, já que a MK parece ter "dado um tempo". Manterei o formato e a estrutura, mas reformularei o regime discursivo.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2009/473) Um nome para uma "nova" teologia


1. Que nome dar a uma atitude teológica que, diferente do teísmo, não pode, não quer, não vai apontar para "deus"? Que nome dar para uma nova teologia que, diferente do ateísmo, não pode nem quer apontar para o não-deus? Trata-se, evidentemente, de uma expressão do ceticismo - mas como chamar esse ceticismo que é varado pela mística, que quer e não pode, que pode, e não quer?

2. O teísmo clássico, seja neoplatônico - Agostinho, Lutero, Barth, Pannenberg -, seja negativo - Mestre Eckhart -, seja liberal - Schleiermacher, Harnack -, seja existencialista - Bultmann - seja cripto-ontológico - Tillich -, o teísmo clássico é vontade e poder de crer e de tratar o crer como saber. Seja de modo analógico-doutrinário, seja de modo voluntarista-querigmático, seja de modo pseudo-fenomenológico, cada teólogo aponta para o que sabe e vê. Grita, eventualmente, envergonhado: "é (apenas) símbolo! é (apenas) símbolo!", mas, no fundo, é nada... ele(s) sabe(m), desmentem-nos as catequeses todas.

3. Croatto, em sua Introdução à Fenomelogia da Religião, chega a dizer (e, digo eu, equivocadamente), que o "símbolo remete ao desconhecido", quando, em qualquer situação, o símbolo remete ao conteúdo da doutrina crida, da formulação proposicional teológica formulada - você olha a cruz, e sabe, olha a pomba e sabe. Não há símbolo religioso que não aponte para uma grandeza conhecida, controlada, manipulada, seja pela fé-como-encanto, seja pelo rito, sempre, pelo sacerdote.

4. Por outro lado, o ateísmo é a negação de tudo isso, como se fosse possível negar para além do mero não querer saber. Nem o teísta sabe coisa alguma, nem o ateísta, mas fazem que sabem. Ambos, diante de uma formulação histórica - o "além -, assumem-no, positivamente, ou negam-no, positivamente... sem que nem um nem outro tenham qualquer modo de o fazer que não o mero e subjetivo voluntarismo fideísta. Para mim, há! Para mim, não há. Suprime-se o "para mim" e resta a fé: há!, não há!...

5. Tem-se que estar sumamente desinformado - a massa dos crentes - ou sumamente mal-intencionado - a massa dos administradores de crentes - para não dar de cara com a condição óbvia da humanidade inteira: historicidade radical. Somos seres de histórica, de cultura, e apenas isso. Depois de milênios de mito, finalmente perguntamos o que eram essas narrativas, e revelou-se-nos a estratégia: as religiões, os mitos religiosos, as teologias, as doutrinas, eram narrativas que inventávamos para dar conta de nossa situação no mundo.

6. No entanto, a experiência do sagrado encontra-se aquém desses mitos, desses véus. Ela é biopsicológica (Eliade, Morin) - a experiência do sagrado é um elemento da estrutura da consciência (Origens, O Método). De modo que as narrativas evaporam-se, mas a sua fonte, não. Pelo que me vejo na necessidade de pensar uma formulação teológica que dê conta da condição humana, ao menos do homem que se deu conta de sua situação alienada, fitando-se por meio das rotinas científico-humanistas dos últimos duzentos anos.

7. Um homem e uma mulher têm, dentro de si, um olhar para um além imaginado, mas possível, um delírio, mas possível. Transformar isso em fé - alienação. Negar isso - alienação. Tratar isso realisticamente/fenomenologicamente: um impulso para o além, mas apenas isso, sem conteúdo possível, sem personagens "dados". Um impulso para fora, para a "fé", que, contudo, não pode mais "crer" - mas quer. Uma fé que não quer mais crer - mas pode. Mas crer diferente. Crer descrendo. Crer sem saber. E nem crer em "algo" ou "alguma coisa" ou "alguém" - mas crer a partir e na abertura da consciência, abertura que nem se escancara na doutrina, nem se fecha no chumbo de uma condição telúrica.

8. De modo simples: olhar e "contemplar" a possibilidade do Mistério - Sem Nome. Do Inefável - Sem Forma. Do Incognoscível - Sem Rosto. Do Impronunciável - Sem Voz. Olhar para fora, a partir da compreensão desde dentro - psicológica, antropológica, sociológica, histórica, fenomenológica. Olhar para um além erótico - o Grande Atrator - sem reduzi-lo, jamais, a construtos doutrinários ou a cápsulas de fé. Uma fé biodegradável, consciente de ser produzida nas mitocôndrias do corpo.

9. Em que crês, amigo? Não sei se creio. Então descrês? Não, não descreio. Não entendo. Nem eu. Não tenho nome a dar, ainda, a isso. É uma atitude, um resíduo de cem mil anos, um milhão, filtro da compreensão humana, filtro das tradições dos povos. Há algo lá? Não sei nem se há o lá. E, então, por que olhas para lá? Porque o lá me olha. Não entendo. Nem eu. Mas entendo o processo - minha consciência está ciente de que é ela mesma quem produz essa sensação, esse Mistério, que, agora, me olha. Contudo, não é de uma natureza que se possa enxotar como a indesejáveis, xô!, xô!, mas um Peso - profundo. Talvez seja o resíduo da energia que consumimos para saltar da condição meramente animal para a de animais-homens. Ou o preço...

10. Vai ver é isso: a fé - essa - é como a radiação cósmica de fundo, vestígio longínquo, mas perceptível, da passagem de um mundo a outro, o Big Bang da consciência...

11. Mas, ainda assim, preciso de um nome para isso.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

quinta-feira, 4 de junho de 2009

(2009/325) Sobre "laicismo", apud Saramago


1. Saramago, que leio e que gosto (o certo seria "que leio e de quem gosto", mas o efeito de "que leio e que gosto" soou-me mais sonoro), Saramago, então, tem um blog. É O Caderno de Saramago. Mas ele não deixa você postar comentários - provavelmente porque haveria de querer ler e responder a todos, e seria um deus-nos-acuda. No entanto, você fica com vontade de reagir às provocações. Eu, por exemplo.

2. Seu último post, ainda quente do forno, parte dele diz:

2.1 "(...) o laicismo aparece-me mais como uma posição política determinada mas prudente que como a emanação de uma convicção profunda da não existência de deus e portanto da impertinência lógica das instituições e dos instrumentos que pretendem impor o contrário à consciência da gente. Discute-se o laicismo porque, no fundo, se teme discutir o ateísmo. O interessante do caso, porém, é que a Igreja Católica, na sua velha tradição de fazer o mal e a caramunha, anda por aí a queixar-se de ser vítima de um suposto laicismo “agressivo”, nova categoria que lhe permite insurgir-se contra o todo fingindo atacar apenas a parte. A duplicidade sempre foi inseparável das tácticas e das estratégias diplomáticas e doutrinais da cúria romana.

2.2 Seria de agradecer que a Igreja Católica Apostólica Romana deixasse de meter-se naquilo que não lhe diz respeito, isto é, a vida civil e a vida privada das pessoas. Não devemos, porém, surpreender-nos. À Igreja Católica importa pouco ou nada o destino das almas, o seu objectivo sempre foi controlar os corpos, e o laicismo é a primeira porta por onde começam a escapar-lhe esses corpos, e de caminho os espíritos, já que uns não vão sem os outros aonde quer que seja. A questão do laicismo não passa, portanto, de uma primeira escaramuça. A autêntica confrontação chegará quando finalmente se opuserem crença e descrença, indo esta à luta com o seu verdadeiro nome: ateísmo. O mais são jogos de palavras"
.

3. Já reagi uma vez à verve apologétco-ateísta de meu Nobel de cabeceira... Reajo outra vez. Não se pode "discutir" - muito menos "seriamente" - ateísmo. Não vê aquela obra triste e lamentável do Michel Onfray? Esperava eu um verdadeiro Tratado de Ateologia, e achei lá aquilo, tão velho que qualquer bom - bom, eu digo! - teólogo do século XX já tinha denunciado. O próprio Saramago, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo fizera muito melhor: a cor do cristianismo é o vermelho - sangue... Mas isso não fala do ateísmo tanto quanto fala de um Deus sanguinário. Ou será que nosso amigo ateu considera provável a máxima teológico-dualista de que, se é Deus, é bom?

4. Não, meu caro Saramago, de quem adorei Memorial do Convento (deves-me umas lágrimas pardias à dor ali). Não se pode "discutir" ateísmo. Pelo menos tanto quanto não se pode discutir "teísmo" ou qualquer outra madalidade de "aposta" metafísico-ontológico-mitológica. Se há ou não há deus, deusa, deuses ou deusas, pessoais ou energéticos, anímicos ou ectoplasmáticos, não se pode saber. Crer, sim. E, nesse caso, tanto crer que há, quanto crer que não há, porque as duas atitudes são fideístas.

5. Se você crê em Deus, e se se julga tão certo disso que, comissionado, passa a falar disso para todo mundo - um missionário, vejam só! -, que diferença há entre esse e um idêntico catequista ateu, que, crendo que "Deus" não existe, prega isso, anuncia isso aos ventos? Ambos poderão, com um muchocho, choramingar - "quem deu crédito à nossa pregação?".

6. Saramago, um pregador... Quem diria...

7. De qualquer forma, sua leitura a respeito de Roma - o que se poderia, além disso, dizer de todos os demais modus eclesiásticos - é bastante pertinente. Falar de laicismo é um modo de falar, indiretamente, de ateísmo, sem o constrangimento de ter de lidar com a questão, como quem fala de uma doença pelo nome de "mal" - "ele está com aquele mal" (Rorty também adotou a "moda" - ele não é mais ateu, é anti-clerical. Quer dizer, era, porque não tem mais como resolver a questão, já que estava certo, e se foi...). Assim, você não "atrai" a coisa... Mas isso apenas se o discursador é a Igreja. Porque, em sentido antropológico, "laico", logo, "laicismo", diz respeito a uma distinção relativa ao "clero", seja dentro da Igreja, seja, contudo, também fora, porque o Estado, a República, são laicas, e não se vai deixar de referir-se nunca a isso, uma vez que foi contra a Igreja, essa mesma, que a República se insurgiu, fazendo-se o que é. Contra a Igreja - mas não contra, necessariamente, Deus - ou Não-Deus.

8. "Graças a Deus", se me faço entender... Ou ao Não-Deus, tanto faz... Nesse caso, não faz a menor diferença...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 15 de maio de 2009

(2009/261) Amor ou verdade?

1. Há alguns anos, uns seis ou sete, talvez, um eminente teólogo canadense, velhinho já, daqueles de terem neve e, não, cabelos, falou-nos por ocasião de um café da manhã no Seminário do Sul. Havia umas quarenta pessoas. Ele falou de "amor": o Cristianismo tinha de "amar", como nunca, mais do que sempre, porque o segredo era amar, era amor. Os convidados, marejados, estavam praticamente em êxtase... Um Paulo redivivo, um profeta do amor, ali, com o segredo do Cristianismo...

2. Levantar a mão é claro que eu levantei, mas tinha o horário do avião, ele tinha que sair mais rápido do que o tempo de esfriar meu café com leite, e eu não fui selecionado para as perguntas. E eu faria essa: o senhor está convencido de que o que falta e faltou ao Cristianismo é o amor. Bem, ainda perguntando, o senhor acha que os cristãos que viviam na época de Nicéia, qando uma única doutrina sobrepujou-se às demais, não se amavam? O senhor acha que os cruzados, cristãos, não amavam nem a si, nem aos irmãos e nem aos mouros? O senhor acha que os cristãos da Inquisição não amavam os hereges que tornturavam e matavam? O senhor acha que os cristãos nunca amaram?

3. Mas, ainda pergunto, não foi sempre - e sempre é - em nome do amor que a Igreja fez e faz tudo? Sempre? Sempre houve Coríntios 13. O que faz com que o senhor pense que seu discurso teológico guarde algum segredo ou alguma novidade? Seria o quê? A nossa geração, finalmente, evoluiu para a condição de amar, ao passo que as gerações anteriores não estavam suficientemente preparadas para isso? Que os cristãos que inventaram o Dogma, que festejaram as Cruzadas, que iluminaram a Inquisião, não sabiam, não queriam, amar?

4. Não sei o que ele responderia. No entanto, não dou a mínima importância ao discurso que ouvi, porque é pura ingenuidade irrefletida. Sabem quando o Cristianismo vai poder, realmente, amar? Apenas no dia em que decidir que o amor é maior do que as doutrinas, quando não olhar mais a casca das pessoas, mas, apenas, elas mesmas, as pessoas, sem rótulos nem conteúdos pré-fabricados. Até hoje, sempre foi ter à mão dois valores, o amor e a verdade. Anselmo inventou aquela história raconalizada de que Deus é plenamente bom e plenamente justo, sendo por isso que, mesmo amando os homens, vai mandá-los para os quintos dos infernos, porque seu amor não pode desconsiderar a sua verdade. Na hora h, o amor abaixa a cabeça, põe o rabo entre as pernas, e a verdade diz quem manda no pedaço: acabou a brincadeira, amor, está na hora de os adultos conversarem...

5. Bem, prefiro a passagem da mulher dita pega em adultério: não te condenam os teus acusadores, mulher - nem eu. Ora, ora , ora - Jesus nao condena... Já Paulo... Já nós... Eu não vejo solução para nós, por isso. Porque quando o amor e a verdade se econtram, só brincam juntos se a verdade der as cartas. Se a verdade sentir-se, hum, ferida, digamos, o amor lhe dá permissão para ferir, matar, odiar - em nome do amor, isto é, em nome do esforço de fazer com que o filho do erro retorne para a verdade. E você pode chamar a verdade de verdade, fé, doutrina, dogma, esperança, do que quiser: se é a boa e velha verdade, danou-se...

6. Não estou aqui interessado em dizer que a Igreja deveria optar pelo amor, e deixar de lado a questão da verdade. Não serei eu a dizer a ela o que deve fazer - ela é bem grandinha. Estou, sim, dizendo, que enquanto houver a verdade, o amor é secundário, é epifenômeno. A verdade sempre terá a primazia de dar a palavra final, o golpe final, a despeito do amor.

7. E, então, eis aonde quero chegar. A classe de Tópicos Especiais e Teologia e eu, ontem, continuamos a ler o artigo de Enio R. Mueller. O Luís Cláudio é um aluno perspicaz. Ele já leu o artigo todo e, quando estávamos na penúltima parte, ele já cantava a pedra: "ah, mas na parte final o Mueller vai revelar que a esperança é a fé". O leitor se lembra de que o artigo de Mueller discute o estatuto teórico da tologia, que, agora, está no MEC. E ele define teologia como "a interpretação da realidade à luz da esperança". Só que, até o parte três, ele não deixa claro o que é a esperança. Até aí, dá uma volta enorme, e conclui dizendo basear-se em dois pilares: para a interpretação (hermenêutica), Ricoeur e Gadamer, e, para a esperança, Bloch e Adorno (mas isso sem dar as fontes, apenas citando os nomes...).

8. E, então, chega a parte quatro do artigo. O Cláudio quer, de uma vez só, sepultar os esforços de Mueller. Estamos no penúltimo parágrafo da p. 99. Eu tento contê-lo. Calma, Cláudio. A palavra "revelação", mais "Lutero", mais "esperança", mas "sub specie asternitatis", mais "'no coração de Deus'" - sim, esse conjunto pode, muito, muito plausivelmente, mesmo, como você vê, indicar a "doutrina": a esperança, em Mueller, é um outro nome para a mesma fé cristã, isto é, para os dogmas. Mas, disse eu, diante de um tribunal, Mueller poderia dizer que tudo isso são formas abertas de se referir à utopia aberta, vá lá, termos infelizes, porque carregados de história, mas, em todo caso, como negar-lhe a defesa? Vamos, Cláudio, esperar. Vamos ver se não há alguma afirmação mais categórica, menos fugidia...

9. E chega o parágrafo que começa na p. 99 e termina na 100: "o modo in spe designa aqui uma correlação do teológico com o filosófico ou científico, considerados como caracterizando-se pelo modo de interpretação in re. A spes, portanto, não significa nesta correlação o mesmo que a virtude da esperança dentro da correlação com as virtudes da fé e do amor. Uma hermenêutica teológica ao modo da esperança já é sempre uma hermenêutica informada pela fé e animada pelo amor. O intellectus spei não descarta, mas inclui um intellectus fidei, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia “clássica”, e um intellectus amoris, como tem sido desenvolvido especialmente na teologia latino-americana das últimas décadas. Manter esta correlação é de fundamental importância, pois ela assegura a relação da teologia como hermenêutica com a revelação, por um lado, e com a ética, por outro".

10. Bem, aqui a defesa de Mueller, caso ele a deseje, seria muito dificultada. Ele fala de "manter esta correlação". Bem, correlação entre o quê? Entre o intellectus spei, de um lado, e, de outro, o intellectus fidei e o intellectus amoris de outro. Esperança mais fé e amor numa nova correlação - hermenêutica. E a fé, aí, diz-se, é aquele tipo "como tem sido desenvolvido especialmente na teologia 'clássica'". Ora, o intellectus fidei da teologia clássica é a doutrina, o dogma, meta-se o homem por aí por meio de retóricas de analogia ou metáfora, tanto faz. Nesse caso, o parágrafo que Cláudio queria marcar como a confissão de Mueller, de fato, já dizia isso: a teologia é como que um olhar de Deus, uma visada sub specie aeternitatis do mundo, revelada ao homem na fé, isto é, na compreensão da doutrina e do dogma. Quando a teologia é interpretação da realidade à luz da esperança, e quando essa esperança é o mesmo depósito de fé da História da Igreja, e quando essa fé transforma-se na filtro revelado do que está para além da realidade-real, ora, isso nada mais é do que a atualização, em "chave" hermenêutica, da boa e velha tradição luterana. Fé e amor... mas, agora, com uma pitada de opacidade humana. Barth não ia gostar, mas Bultmann, Ebeling, Fuchs, Tillich iam achar muito interessante. "Deus é símbolo para Deus"...

11. Voltei àquele café. E senti o estômago um tanto mais embrulhado. Porque Mueller tenta fazer mais do que o velho teólogo canadense achou que fazia. Quer abraçar, agora, o mundo e o MEC. Quanto ao mundo, já disse: pretender manter a fé e a verdade juntas é não ter entendido muita coisa da História do Cristianismo. Não pense ele, nem a moda metafórica que grassa por aí, que disfarçar a verdade com aparências retórico-hermenêuticas faz da fé outra coisa que não aquilo que dela se sabe desde a "teologia cássica" - a necesidade de manter os doutrinas, fingindo-as verdadeira, mas, apenas, metáforas ou interpretaçõs, já demonstra a negociação que ela, a verdade, impõe ao amor. Na hora h, não se assustem quando a metáfora e a interpretação cravarem suas garras no peito desprevenido da esperança.

12. Quanto ao MEC, bem, um discurso que sugere um olhar como que desde a eternidade, revelado desde o coração de Deus a um homem, agora, superado de sua contingência pela mágica da teologia, consubstanciado na fé, filtro hermenêutico da realiade, bem, isso é tudo menos o que eu gostaria de ver entre nós. Mas, se é para ser assim, gostaria imensamente de ver como a coisa vai acabar quando um teólogo da FTU sentar-se com um teólogo da EST para, desde a eternidade, falar desde o coração dos orixás, as verdades reveladas e consignadas na forma da fé, uma das quais diz que monoteísmo é uma prova de cegueira, porque o olho viu, eventualmente um, mas não todos os deuses... Ao que um teólogo da escola onfreyana-dawkinsiana retrucará: deuses, como assim, deuses? É ou a verdade de todos, ou a mentira de todos. Mas, se a verdade de todos contradiz-se, como fica? E, se é a mentira de todos, porque não chamar-lhe logo pelo nome?

13. Ah, fé, vai ser duro livrarmo-nos de ti... És mesmo uma neurose...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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