sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

(2015/460) "Um juramento de Teologia que eu poderia fazer"

Eu juraria não desejar a ninguém o que eu não desejo para mim, e eu juraria desejar para todas as pessoas o que para mim eu desejo. Que nenhuma pessoa sofra o que eu não sofro, e que todas as pessoas usufruam o que eu usufruo. Que todas as pessoas tenham os mesmos direitos que eu, as mesmas oportunidades, acesso aos mesmos recursos e os mesmos benefícios. Eu juraria desejar isso.

Eu juraria levar profundamente a sério os conteúdos que estudei e aprendi em meu curso de Teologia. Eu juraria considerar o que eu aprendi em Antropologia. Eu juraria considerar o que eu aprendi em Sociologia, o que eu aprendi em Psicologia, em História, em Epistemologia. Eu juraria considerar com toda integridade e honestidade intelectuais os conteúdos de Ciências Humanas que eu aprendi, refletir sobre eles, levá-los às suas últimas consequências. Eu juraria tentar ser coerente.

Eu juraria não considerar-me acima de qualquer pessoa. Nem abaixo.

Eu juraria não considerar minha religião melhor do que a de ninguém, nem mais certa, nem mais justa, nem mais legítima. Eu juraria considerar equivalentes todas as religiões, sem distinções, sem exceções, sem ressalvas, sem reservas. Eu juraria considerar seriamente que gostar da minha própria religião não exige que eu demonize a religião de ninguém. E eu não demonizaria a religião de ninguém.

Eu juraria não menosprezar nenhum dos símbolos religiosos de nenhuma das religiões. Eu juraria conceder às suas representações do sagrado o mesmo status que concedo às representações do sagrado de minha religião.

Eu juraria não usar nem instrumentalizar pessoas. Eu juraria dialogar com elas. Ensiná-las, mas, eventualmente, aprender com elas. Eu juraria não viver a neurose de reproduzir nelas as minhas ideais religiosas, nem mesmo disfarçando minhas ideias religiosas com subterfúgios nada coerentes e muito menos éticos, do tipo: “não prego religião, prego Jesus”... Não: tanto quanto eu não quero que as pessoas me convençam de sua própria religião, eu juraria não convencer pessoa alguma sobre a minha própria religião.

Eu juraria não manipular os textos sagrados. Nem os textos sagrados de minha religião nem os textos sagrados das outras religiões. Eu juraria estudá-los com responsabilidade histórica, responsabilidade crítica, responsabilidade semântica – e, acima de tudo, eu juraria estudá-los com grave responsabilidade ética. Eu juraria não usá-los segundo meus interesses, nem mesmo que meus interesses me pareçam bons, éticos e justificáveis. Eu juraria apenas e tão somente consumir minha vida em tentar compreendê-los enquanto expressão histórica, de pessoas históricas, com intenções históricas. Eventualmente boas, eventualmente más...

Eu juraria não colocar pessoa alguma abaixo de meus símbolos religiosos, sejam quais pessoas forem, sejam quais símbolos forem. Eu juraria não pôr pessoa alguma abaixo de nenhuma doutrina. Eu juraria não pôr pessoa alguma abaixo dos textos sagrados, pessoa alguma abaixo da igreja, abaixo das tradições, abaixo das liturgias, abaixo do sagrado. Eu juraria considerar realmente, verdadeiramente, seriamente, que, no norte ou no sul, próxima ou distante, pessoa alguma no planeta tenha sido feita para qualquer item ou aspecto do conjunto de minha fé religiosa.  Antes, eu juraria considerar que tudo que diz respeito à minha fé religiosa é que foi feito para toda e qualquer pessoa, de sorte que as pessoas são infinitamente superiores, mais importantes e mais relevantes do que qualquer coisa que eu possa nomear no conjunto de minha fé. Ao lado de uma pessoa, tudo o mais é sábado. No mundo, só há pessoas e sábados...

De sorte que eu juraria não alimentar nem fomentar nenhum tipo de preconceito. Nenhum. Eu juraria não tolerar nem promover preconceitos de cor, de religião, de sexo, de classe social, de gênero, de cultura, de etnia. Eu juraria dedicar a minha vida a promover a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Eu juraria abominar com todas as minhas forças o racismo, a misoginia e a homofobia. E eu juraria investigar minha consciência e valores, a fim de questionar-me quanto à possibilidade da manutenção de preconceitos disfarçados em virtudes, verdades e valores que, no fundo, não passam de perversão religiosa.

Finalmente, eu juraria nunca considerar ter chegado ao fim de minha caminhada de aprendizado. Eu juraria considerar que sempre posso estar errado. Em tudo. Eu juraria sempre retornar aos fundamentos de meus valores, de meus conhecimentos e de minha fé, e outra vez submetê-los às severas provas e riscos da crítica. Porque eu juraria esforçar-me a ser uma pessoa boa, e muitas vezes, julgando-nos bons, somos os mais perversos dos seres humanos...

Eu juraria tentar ser um bom teólogo, fazendo do exercício da minha teologia e profissão o exercício da cidadania, da solidariedade, do acolhimento e da responsabilidade.

Alguém, eventualmente, me cobraria a falta de uma citação bíblica nesse juramento que eventualmente eu fizesse. Nesse caso, ponderadamente, eu o encerraria com a sempre desconcertante recomendação de Eclesiastes: “tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma” (Ec 9,10). Porque hoje somos teólogos e teólogas, mas amanhã seremos pó, porque, segundo o mesmo livro sagrado, do pó viemos, e ao pó voltaremos todos nós...








(Meu discurso paraninfal na formatura da turma 2015 de Teologia, da Faculdade Unida de Vitória, 10/12/2015. Não representa necessariamente o pensamento do corpo docente nem da Faculdade. Representa meu pensamento, enquanto teólogo e cidadão).


OSVALDO LUIZ RIBEIRO





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