quarta-feira, 25 de junho de 2014

(2014/676) Sobre o deus de Gungor ainda ser o deus de Bush, mas um tanto New Age, só que não...


Sobre a canção God is not a white man, de Gungor, escrevi o seguinte comentário no Facebook, em um post que o divulgava:

"Uma cançãozinha bacaninha.
Opera no mito.
Mas, ao menos, quebra a narrativa ortodoxa...
Mas, sem saber, acaba se tornando tão ortodoxo quanto elas, quando diz que Deus ama todo mundo...
E que interessa isso a quem tem outros deuses?
É, ainda, a velha narrativa totalizante, nós-nos-totalizando, nós-fazendo-sentido-para-todo-mundo...
Bacaninha, bonitinha, mas filha legítima da velha mãe pervertida...
Mas bacaninha, né?
Pois é...
É o que há: fazer as velhas coisas bacaninhas, para parecerem novas coisas...".



Talvez, parecerá radical a muitos. Incompreensível para muita gente. É o risco.

Mas gostaria de aqui, aprofundar dois dedos de discussão.

Por que considero equivocada a narrativa, conquanto a compreenda em seu contexto estadunidense, revelado na declaração de que Deus não é republicano?

Por duas razões básicas:

a) primeiro, e sempre, porque passa por cima dos mitos não-cristãos, afogando-os na maré alta da própria teologia. Os deuses e mitos (deuses são mitos - todos) de todas as demais religiões são ou totalmente descartados ou subsumidos ao própria deus cristão. Para minha ética pessoal, isso é inadmissível. Pode ser uma canção bacaninha, mas ela é tão pecadora e criminosa, nesses sentido, quanto os discursos megalomaníacos de qualquer batista fundamentalista do Bible Belt. Há uma deficiência ética incontornável na canção. Ela é simplesmente maldade disfarçada em amor - e espero que seja um disfarce que o cancioneiro não percebe... Melhor a ignorância... conquanto o quadro permaneça o mesmo...

b) é equivocada porque deus algum é fundamento para a ética e o amor. As teologias podem até ter capturado o sentimento e a ação do amor em narrativas de mito, tornadas pseudo-filosóficas por cripto-teológicos, mas deus algum, repito, é fundamento para o amor. Os deuses - todos - podem até suprimir o amor, em nome da "verdade", deixando claro que o amor é, aí, secundário. Porque, se fosse primário, superaria até a verdade, o que não é fato na história da fé cristã, se o é na história de alguma fé.

Assim, a despeito da estética bacana - adorei a canção -, não posso, em nenhum momento, endossá-la. Não, deus não ama a todos, porque os cristãos não amam a todos, e deus só faz o que os cristãos fazem, porque é aos cristãos que deus se resume.

Agora, se é melhor do que o deus de Bush? Bem, é o mesmo, só que com maquiagem. No kake war, ele diz, make love. Mas ainda é o mesmo velho personagem, vestindo novas roupas para aparecer em público.

Se prefiro esse?

Não sou obrigado a escolher entre o deus de Bush e o deus de Gungor...

Posso sonhar mais fundo.

Posso ser mais radical.







OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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