domingo, 17 de novembro de 2013

(2013/1358) Sem Hebraico e sem Grego, esquece: sobre Mateus 5,3

O comentário de Sandro Gallazzi a Mateus me fez aprender uma coisa que eu não sabia. É uma questão curiosa, porque me parece que a tradução de Sandro não está adequada. Trata-se de Mateus 5,3, que Sandro Gallazzi traduz: "bem aventurados os pobres no Espírito". 

_ Curioso, Eliseu. "No" Espírito...  Sempre li "de" ou "em", mas "em + o", nunca... Será se tem artigo?

_ Ele é bom, né?

Fui atrás. De fato, e eu nunca havia observado, o texto Grego tem artigo. Isso quer dizer que todas as tradução que desconsideram o artigo estão erradas. "Pobres de Espírito" está errado. "Pobres em Espírito" está errada. Pobres "no" Espírito, como quer Gallazzi, estaria correto?

Não.

No Grego, a forma, ao pé da letra, é assim: "pobres o espírito". Sim, desse jeito. Não tem nem "em" nem "de". Que sintaxe é essa?

Bem, se o texto está escrito por gente que, pensando aramaico/hebraico, escreve em Grego, ou até traduz!, então estaríamos diante de um caso de construto hebraico. No construto, dois substantivos, um ao lado do outro, estão, imediatamente, salvo raras exceções, em relação de genitivo. Pressupõe-se, para a tradução, obrigatoriamente, um "de". Assim, nesse caso, não é necessário que haja preposição, para que eu, forçosamente, a pressuponha. 

Todavia, há artigo. No construto, o artigo aparece apenas no segundo substantivo - nunca, no primeiro. Mas vale para a fórmula inteira. Assim, pensando-se em Hebraico, "pobres o espírito" quer dizer "pobres de o espírito" e, a rigor, "os pobres do espírito".

Mateus 5,3 deve ser traduzido: "felizes os pobres do espírito".

"Pobres do espírito" deve indicar um tipo de gente, um grupo social, alguma coisa assim. Não se trata da declaração genérica de gente humilde ou algo parecido. Seja o que for, trata-se da indicação de um tipo de comunidade, de gente, de povo, concreto, que, à menção da fórmula, todos os ouvintes originais identificariam...

Temos de nos pôr no lugar dos ouvintes originais, agora, se quisermos realmente entender a passagem...

Mas, se a queremos usar em nossos jogos de igreja, sequer a tradução é relevante: faça cada um como bem entender...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

5 comentários:

Claude disse...

O raciocínio vale. Porém, tem que levar em conta também que o 'autor' podia ter escolhido tou pneumatos em vez de to pneumati para verter o pobres-o espírito do seu pensamento hebraico-aramaico. E se traduzir 'pobres do espírito' pode deixar parecer que se trata de uma relação genitiva que o autor, no escrever em grego, parece ter quisto evitar. Por curiosidade, fui ver no siríaco (traduzido do grego, claro e não de um suposto original aramaico que alguns pretendem), enfiaram o 'em' antes do espírito para render o dativo do grego. (Não prova nada, foi só curiosidade, teria sido bonito se tivessem voltado para a relação construta). Conclusão da conclusão, não tem como manter a polissemia da falta de indicador de relação do hebraico. Se o adjetivo 'espiritual' não fosse tão carregado, teria sido uma saída, mas não dá. (de certa maneira, a relação construta pode equivaler a nosso uso do adjetivo). Ou seja, dá para eliminar traduções como 'em espírito' ou 'no espírito', ou 'de espírito', mas afirmar uma tradução fica difícil.

Sandro Gallazzi disse...

Osvaldo, só hoje vi suas anotações a respeito do meu "pobre no Espírito". Como Claude registrou trata-se de um artigo dativo: a tradução literal seria "pobres ao Espírito".
Dativo sem preposição: segundo a minha gramática grega (Antônio Freire, livraria apostolado da imprensa, 1956, pag.195-198) pode ser complemento de causa: pelo Espírito, de modo: segundo o Espírito, de instrumento: no Espírito, de companhia: com o Espírito, de fim: para o Espírito...
Podemos escolher à vontade, mas creio que seja necessário deixar o artigo e deixar a conotação de espírito, como o Espírito Santo.
Esta discussão acadêmica literária nbão deve impedir de ver o conjunto do texto, sobretudo o paralelismo entre "pobres no Espírito" (5,3)e "perseguidos por causa da justiça" (5,10).
A mesma construção (dativo sem preposição) a encontramos também em 5,8 "limpos no coração". o coração, sim, para um hebreu, é o sinônimo de espírito humano.
Se quiser mais mando um texto meu bem antigo a respeito do assunto. Faço notar que a recente tradução da CEI já traz "pobres no espírito", só que se apressa a anotar que não é o Espírito Santo. Eles que sabem!
Um abraço
Sandro Gallazzi

Peroratio disse...

Sandro, gostaria sim.
Mais uma coisa: o descarte do artigo parece justificado a seus olhos?
Não ter artigo não me parece razão para deixarmos de o pressupor, mas, o contrário, a presença do artigo não ser suficiente para me sentir obrigado a considerá-lo...?

Sandro Gallazzi disse...

Só esta nossa conversa mostra como é importante manter o artigo. Sobretudo considerando a mudança radical interpretativa a respeito de que espírito estamos falando. O Espírito, até prova em contrário, na linguagem bíblica mais comum, é o Espírito de Deus. Trata-se da ação do Espírito no pobre que o transforma em sujeito do Reino,cuja fidelidade é provada pela perseguição.

Peroratio disse...

Que o artigo tenha que permanecer, não duvidaria nem por um segundo - não me parece justificável decliná-lo, estando ele presente.

Mas estou - ainda - cismado com esse "em". Literalmente, em grego, está "pobres o espírito". Eu penso que se trate da estrutura de construto própria do hebraico/aramaico...

Mas você tem outra explicação...

Todavia, pensando, como você, tratar-se de ruah (o "Espírito"), penso se "pobres do Espírito" (e não "no") não seria uma referência a um grupo social, exatamente nos termos de sua interpretação, mas não nos de sua tradução...

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