sábado, 20 de julho de 2013

(2013/758) Como dialogar?

Para o diálogo crítico - e todo diálogo ou é crítico ou é conversa de bar -, são necessárias algumas satisfações.

1. Reação. Não falo de sentimento, falo de ação de ajuda, caridade. É preciso se estar comprometido com o outro como parceiro, como outro. Não há diálogo, se há indiferença, descortesia, insensibilidade. Um através do outro - diá. Um falando com o outro - logo...

2. Emulação. Se eu não consigo reproduzir em minha mente exatamente o que o outro está dizendo, não há diálogo. Para isso, eu enho que ver o objeto a que o outro está se referindo da mesma forma que ele vê. Não, devagar: não disse que você deve concordar com a forma com que ele vê o objeto - eu disse que você tem que conseguir ver como ele vê.

3. Representação. Se, independentemente de como meu interlocutor vê o objeto, eu mesmo não consigo ver, de modo independente, esse mesmo objeto, ou seja, se eu não disponho de arsenal epistemológico próprio a ponto de ser independente, não há diálogo. Eu estarei preso ao desenho que meu interlocutor me dará do objeto ou, pior, reconstruirei eu mesmo o objeto, mas de forma totalmente equivocada.

4. Confrontação. Não se trata de eu e de meu interlocutor. Se trata de eu, ele e nosso objeto comum. Por isso, ele e eu temos de pôr na frente do outro o objeto que representamos. Minha representação é emulada por ele e a representação dele é emulada por mim. Eu o confronto - ponho na frente dele meu objeto - e ele me confronta, põe na minha frente o objeto dele. Aqui, está-se diante do ápice da exigência de transparência, abertura, honestidade. Às favas as técnicas de convencimento e retórica - bem-vindas as técnicas de respeito: querer ser convencido, se for o caso, e não querer convencer, se for o caso. Não querer ganhar: querer chegar à melhor ideia sobre o objeto - podem gracejar, se desejarem: chegar à verdade...

(...)

É preciso, agora, ver em que pé a conversa está. Talvez não se chegue, aí, a um consenso. Hora de voltar, cada um, para sua caverna e repisar todo o diálogo. 

Todavia, eventualmente, um dos dois lados logrou êxito em fazer com que o outro reformulasse sua própria representação, no confronto. É hora de quem se moveu pensar essa novidade - mas também é hora de quem fez mover pensar nisso - se o ganho se deu por retórica ou por um aprimoramento da capacidade de visão...

Você há de ter entendido que isso só vale para objetos que realmente existam. 

Impossível dialogar sobre Deus. Você o monta como quer - e ganha sempre, se tem as chaves do céu - ou do armários das armas...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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