domingo, 17 de março de 2013

(2013/264) "O sacrifício de Isaque" e "O Sacrifício de Iphigenia" - reflexões sobre empréstimos judaicos para contextos político-teológicos domésticos

1. As imagens abaixo são representações da cena "O Sacrifício de Iphigenia", da peça de Eurípedes. Não estou de posse de todas as informações, mas, ao que parece: a) a peça não foi terminada pelo poeta grego, somente após a sua morte e b) há várias versões do final da peça. Como não se trata de um post sobre Eurípedes, nem mesmo sobre a cena em si, vou trabalhar com as representações imagéticas dela - se há várias versões da peça, parece que as representações privilegiam uma: em lugar do sacrifício de Iphigenia, um gamo é entregue, por Diana, através de dois mensageiros, para substituírem a heroína.

2. Eurípedes viveu no século V. Eurípedes, o jovem, que teria terminado a peça, viveu por volta de 400, entrando, pois, no século IV. Parece, todavia, que o mito é mais antigo, ainda que pós-homérico. Seja como for, estamos diante de tradições mito-poéticas gregas compreendidas entre os séculos VII e IV.

3. Como se pode ver pelas imagens 1 e 2, abaixo, a cena do sacrifício de Iphigenia era muito comum em Pompéia.
1. Sacrifício de Iphigenia - afresco em residência de Pompeia (Museu Arqueológico de Nápoles)

2. Sacrifício de Iphigenia (pintura mural de Pompeia - Museu de Nápoles)

2. Giovanni Battista, "O Sacrifício de Iphigenia" (1757)
3. Bem, não resta dúvida de que a cena é impressionantemente semelhante à do sacrifício de Isaque. Estamos, aí, diante do mesmo "motivo" - em lugar se de sacrificar o personagem humano, um cabrito ou um gamo é entregue em seu lugar - pelos "céus"!

Sacrifício de Isaque, Caravaggio

Ícone medieval


4. Bem, vamos à discussão. A história bíblica de Abraão e o sacrifício de Isaque é pós-exílica, como toda a saga de Abraão. Os camponeses o tinham como herói epônimo (ancestral que dava nome ao grupo - "abraamitas"), e, para a cooptação dos camponeses, o Templo domesticou Abraão, fazendo dele um adorador de Yahweh (cf. Ex 6). A partir daí, Abraão tornou-se um "javista" e sua saga é composta com fins apologéticos relacionados ao culto de Jerusalém.

5. O sacrifício de Isaque deve ser relacionado ao culto sacrificial em Jerusalém. A narrativa faz o culto sacrificial remontar ao herói dos camponeses.

6. Essa é a ideia que tenho até hoje. Deparar-me, todavia, com Iphigenia impõe-me reavaliação crítica.

7. Algumas questões:

a) quem copiou de quem? Alguma chance de a história de Abraão ter chegado à Grécia e inspirado a mitologia local? Acho difícil, dado o fato de a narrativa de Isaque ser pós-exílica e o mito grego ter origens antes do século VI, quando se deu o "cativeiro" babilônico - assim, penso que a hipótese mais provável é que os judeus tenham tomado de empréstimo aos gregos o motivo da substituição do animal no sacrifício - isso pode ter dado a senha para a ligação entre o sacrifício no Templo e Abraão - a narrativa, então, comporta-se como uma etiologia.

b) trata-se de uma mera apropriação no campo da arte e da literatura? Os judeus apenas copiam os mitos gregos, sem qualquer interesse político-religioso no uso que farão? Ou, antes, assim como fizeram com os mitos de dilúvio, que, tomando-os aos babilônicos, adaptaram-nos para a política do Templo: aproveitarão mais essa "ideia" e, apropriando-se agora de um mito grego, canalizarão seu potencial retórico para a ratificação traditiva do sacrifício?

8. Eu acho que pisamos em terreno difícil. Acho que, do ponto de vista político, pode-se usar Gênesis 22 para qualquer coisa - na nossa mão de leitores interessados no "uso" da passagem, a narrativa é uma massa informe, e somos nós a dar a ela a forma que desejamos - fazendo-a, por exemplo, representar uma espécie de Jesus prefigurado... Todavia, se, em lugar de "uso" da narrativa, estivermos interessados em descobrir como o judeu ou os judeus que a compuseram trataram-na, aplicaram-na, usaram-na, primeiro, perdemos a liberdade de fazer com ela o que bem entendermos e, segundo, obrigâmo-nos a tentar descobrir qual foi aquela única e histórica maneira que os autores usaram para plasmar e instrumentalizar a narrativa.

9. E eu acho que foi assim: em algum momento do período grego - isto é, a partir do século IV (data que coincide com o término da peça por Eurípedes, o Jovem), o mito passou a circular pelos lugares onde judeus se encontravam, seja em Judá, diretamente, seja em outras cidades, de qualquer forma, pressupõe-se o encontro entre judeus e o mito de Iphigenia.

10. Imediatamente, o tema do sacrifício soa "próximo", e imagina-se que se pode empregá-lo como instrumento de ratificação do sistema sacrificial de Jerusalém. O motivo da substituição do sacrifício pelo animal (presente já no Dilúvio "javista", a meu ver, do século V) é recolhido do conjunto do mito e é deslocado para a saga de Abrão, sendo composta, então, a "peça" que hoje conhecemos como Gênesis 22.

11. Doravante, todo judeu que vai a Jerusalém fazer os sacrifícios estabelecidos pelos homens do Templo, imaginarão que repetem o gesto de seu pai...





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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