1. Primeiro, a "ortodoxia" - ela não tem a mínima ideia do que é isso, mas é assim que ela se auto-entende - reage a tudo que é novo e lhe é antagônico.
2. Quando começou a circular, desde o século XIX, que os textos bíblicos eram "mito", a virulência dos ataques a quem expressava essa ideia era visceral.
3. Livros foram - e ainda são (porque sempre tem quem se mantenham vivendo como que há cem anos atrás!) - escritos para negar a condição mítica de histórias em que a serpente fala, o sol pára, a mula fala, a baleia, ops, não, um peixe grande!, engole um homem, ele fica vivo, é vomitado e fica vivo, não, nada disso é mito, tudo é histórico e verdadeiro, Deus é grande, aleluia!
4. O Sol, todavia, não dá bom dia a ninguém, que não nasce por causa de nenhum de nós, de quem desconhece a existência... Assim, a roda da fortuna girou e a condição de mito das narrativas bíblicas vai se tornando do conhecimento até do reino mineral. Vai-se tornando cada vez mais prova de ignorância e apego ao obscurantismo a desinteligência de que esses textos são míticos...
5. Chega, então, a hora de mudar a estratégia.
6. Como podem ser mitos e eu ainda posso continuar a crendo a mesma coisa?
7. Simples: mito não é mentira, mito é uma forma diferente de dizer uma verdade...
(pausa para eu morrer de rir)
8. Assim, a serpente falando é mito, mas isso é verdade em sentido profundo, e o homem é mesmo danado, degenerado, pervertido, perdido, vai pro inferno e aceite Jesus...
9. Mudou o quê?
10. Nada.
11. A isso se chama apologia, a isso se chama educação, a isso se chama fidelidade, a isso se chama fé.
12. Chamo por outro nome: auto-engano, self deception.
13. Só nao sei explicar por que uns se salvam disso e outros, não.
14. Às vezes, é Freud quem explica, às vezes, é Marx, às vezes, o salário. Acho que cada um tem suas próprias razões para afundar em sua própria crença, contra tudo, contra todos, contra si mesmo.
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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