quinta-feira, 9 de abril de 2015

(2015/399) A difícil condição estrutural de professores em cursos privados

Não é fácil a vida de professor de curso superior privado no Brasil. Não posso falar nada em relação a professores de universidades públicas, mas, laborando a vida toda no espaço privado, há algumas questões que se devem ter em mente...

Uma coisa é professor, outra, pesquisador.

Não sei lá fora, mas, no Brasil, professor acaba tendo de lecionar em sua área e em áreas próximas, mas não sua especialização. Isso ocorre com todos os professores privados, grosso modo. Seja dar aula de Metodologia ("que todo mundo dá"), seja saltar entre Antropologia e Sociologia, seja enfrentar, na mesma área, abordagens históricas e filosóficas. Tudo depende da grade do curso, da necessidade do coordenador, do semestre, dos colegas. Excetuando-se dar Física para quem leciona Português, o resto é fácil de encontrar...

Quais as consequências? O óbvio. O professor (não o pesquisador), vê-se forçado a lecionar a partir de manuais. Com relação a algumas disciplinas, não se leu Bacon, fala-se o que algum manual fala sobre Bacon. A seleção ideológica se dá pela escolha do manual, porque há manuais e manuais. Mas, a rigor, em relação às disciplinas lecionadas fora da área de pesquisa, é o que costuma ocorrer.

Não é o ideal, mas é o que se pode fazer. Apenas quem consegue, talvez porque lecionando em federais, ficar a vida toda em uma única área e em uma subárea da área pode se dar ao luxo de ter lido tudo e somente os próprios autores, porque tem dez anos, quinze, vinte, lecionando apenas aquilo e nada mais do que aquilo.

Os mortais, a grande maioria de nós, não.

Essa situação se deve, de modo geral, ao sistema como um todo, às IES, particularmente, aos próprios professores, em particular. O sistema não se preocupa com isso para além do burocrático. A IES precisa sobreviver e pagar as contas. Não se pode contratar um professor 40 horas para lecionar 4 horas de sua especialidade! E o professor, lado mais fraco da corda, finda por afrouxar suas próprias exigências pessoais, para manter-se empregado.

No meu caso, o que tento é ler os próprios autores, em alguma obra sua (ler todas as obras de todos os autores é um luxo para professores públicos e, eventualmente, para algum nicho fabuloso das privadas). Alternativamente, recorrer a bons manuais, com o risco de consistirem de leituras equivocadas. Com o tempo, você acaba reunindo um conjunto de informações terceirizadas, sempre correndo o risco de que os manuais tenham lido errado. Mas nos recordemos de que alguém pode ler as próprias obras e não saber ler...

Não é muito fácil a vida de professores das redes privadas...










OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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