sexta-feira, 20 de março de 2015

(2015/294) O sujeito não é o objeto e nem se confunde com ele


I.

O sujeito não é o objeto e o objeto não é o sujeito.

A percepção que o sujeito tem do objeto não é o objeto.

O objeto é maior do que a percepção que dele tem o sujeito.

A percepção que o sujeito tem do objeto não é o todo o efeito que o objeto produz sobre o sujeito.

Se essas premissas estiverem corretas, os discursos quanto à interferência, no objeto, por parte do "observador", são não apenas parciais e incompletos, mas ideológicos.

Dou um exemplo: um observador recolhe um fragmento de Césio-133. Acha linda a pedra. É colorida. Brilha. Quando o observador esfrega a pedra na mão, é como se o abdômen de mil vaga-lumes tivessem sido esfregados ali. Na estante da sala, o fragmento fica levemente iluminado, à noite, quando se desliga a TV...

Em dois meses, metade da família está morta. A outra metade, vai sofrer o diabo em um catre hospitalar...

Parece que a interferência do observador no objeto não funciona lá muito bem quando a gente precisa: salvo nos discursos que pretendem dissolver a independência entre sujeitos e objetvos, sabe lá para que fim...




II.


Arguto e rápido leitor, tão veloz quanto o papa-léguas, corre a pegar-me pelo pé: ah lá, Osvaldo, o sujeito achando que era um brinquedo e era Césio-133... Não vê logo que o positivismo é uma estupidez...?

Eu fico pensando quantos neurônios ele usou para ler, quantos, para refletir, e quantos, para vir "pegar-me"...

Querido, falo com toda ironia: o pressuposto epistemológico de que há separação ontológica entre sujeito e objeto tem o que a haver com "positivismo"? Vou lhe dizer: nada. Anotou? Nada. É como ter a haver cavalos e torres com futebol americano, entendeu? Dito isso, eis o que me interessa: toda e qualquer aproximação entre sujeito e objeto incorre - inelutavelmente - na possibilidade de erro de apreensão. Erro. O sujeito pode perceber errado, ler errado, interpretar errado, confundir-se, enganar-se, equivocar-se, surpreender-se, corrigir-se, criticar-se... Está anotando? Em termos epistemológicos, a identificação entre sujeito e objeto não apenas desintegra a possibilidade de conhecimento e verdade, mas, ao mesmo tempo, também a possibilidade de erro...

(...)

Um tributo ao erro, ao equívoco, à falha, porque erro, equívoco e falha são a antecâmara do conhecimento e da verdade.

Suprimam-se uns e os outros são despachados na mesma mala...











OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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