segunda-feira, 28 de abril de 2014

(2014/364) Napëpë - documentário sobre as pesquisas genéticas com os ianomâmis


Napëpë - documentário sobre as pesquisa genéticas com os ianomâmis.

O documentários é de 2004, de Nadja Marin, então aluna de Ciências Sociais da USP.

"Segredos da Tribo", de José Padilha", tem sido acusado de ter reeditado este documentário.







Bem, assisti integralmente aos dois documentários: "Segredos da Tribo", ontem, e Napëpë, hoje. Não dá para dizer que é plágio de Padilha sobre o trabalho de Nadja. Ambos, inclusive, utilizaram-se de trabalhos (filmagens) anteriores - há duas cenas que são comuns aos documentários.

O trabalho de Nadja é específico sobre o processo da coleta do sangue e a disputa entre os ianomâmis e os Estados Unidos da Américas, que têm os estoques das coletas. Brevemente, comenta-se o episódio do livro de Chagnon. Mas, basicamente, trata-se de um documentário que problematiza a questão da manutenção dos estoques de sangue do povo ianomâmi contra a vontade dele.

Já o documentário de Padilha tem muito mais coisa. Começa antes, com as primeiras expedições, trata de problemas muito mais graves - pedofilia de antropólogos dos Estados Unidos (um deles casou-se com uma menina de 13 anos) e de Lizot, francês, aluno de Levi-Strauss, que trocava masturbação e sexo anal por mercadorias - ele levava um avião inteiro de mercadoria e fazia sexo com os meninos. Padilha entrevistou muito deles. Diz-se que todos sabiam - uma freira é entrevistada e deixa subentendido que sabia. Parece que até Levi-Strauss sabia... Chagnon sabia. Todos sabiam e se calaram. Tudo era feito por meio de trocas - me dá, que te dou uma faca. Me masturbe, que te dou uma rede. Aviltante...

Padilha amplia o leque para a disputa violenta entre antropólogos culturais e antropólogos biologistas, basicamente, franceses versus estadunidenses. A história fede por todos os lados. Não há nada de bom nem saudável nisso. Para a coleta de sangue, mentiram. No documentário de Nadja, um antropólogo brasileiro tenta justificar o processo, opondo a devolução do sangue ao povo, um dever ético para com os ianomâmis, à sua manutenção com os pesquisadores, um dever ético maior, para com a humanidade. Mas ele se esquece de que com esse argumento se pode justificar a bestialidade das pesquisas médicas com cobaias judias na Alemanha nazista e o fato de que o Direito nega um processo de as provas são obtidas sem o consentimento do réu. Papo furado.

A questão do possível plágio, para mim, é menor. Não considero plágio. Considero uma ampliação do leque de abordagem. Padilha pegou a ideia, pegou eventualmente o próprio documentário, e o ampliou, foi atrás do que estava por trás de tudo isso.

Gostei dos dois. 


Dormi com pesar profundo.






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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