domingo, 29 de setembro de 2013

(2013/1127) Sobre o indefectível vício teológico aplicado ao Homo sapiens


Quinhentos anos depois de Descartes, a despeito da queda do conceito de alma, ao menos no campo heurístico, parece-me adequado considerar que não se conseguiu banir o mito que se esconde por trás da ideia da alma, mito platônico, guardado em relicário nos recônditos inconfessados da alma, digo, da mente, digo, do cérebro de muito filósofo...

O conceito de alma quer ensinar que o Homo sapiens tem apenas seu corpo como parte desse mundo - o corpo, essa parte descartável e rude, tosca e opaca... A alma, todavia, o homem-em-si, o que de fato caracteriza o homem, é alienígena, não é deste mundo, não é material, não tem parte com a matéria, com o cosmo, com a aspereza esdrúxula do carbono...

Nesse mito, o conhecimento é impossível - cabe apenas a revelação e a iniciação sacerdotal-filosófica (sempre...)...

Baniu-se a alma. "Eu penso" ainda significa - alguma coisa não universal, não material, não física, não daqui, metafísica, sobrenatural, ectoplasmática, supra-humana, além (ou aquém) do corpo, pensa. E o pensamento é de tal sorte estranho ao mundo, ao cosmo, ao físico, que matéria e pensamento são incompatíveis...

E, então, erguem, aqui, nesse ponto, o altar da subjetividade, deusa adorada de todos os que desejam, com argumentos, fugir do mundo - sem parecerem budistas ou monges agostinianos... Ah, e fogem: correm - sete diabos estão atrás de seus corações...

Penso que todo esse pensamento está radicalmente errado - é vício teológico, vício platônico. O pensamento não é atributo de qualquer alma, mas da mente que, a seu turno, é emergência da matéria, é filha do carbono, é parida pelo corpo, no corpo e para o corpo.

Filha da matéria, a mente e o pensamento são-lhe total e absolutamente compatíveis. A subjetividade não é, para ela, um estorvo, é sua condição. A não-subjetividade era o mito do olhar-de-Deus, que, todavia, saído das confissões públicas de muito filósofo, permanece em seu coração de crente, animando estratégias retóricas de dissolvimento do mundo demiúrgico e de suas implicações...

A subjetividade é a forma como um sujeito, centro de mundo e consciente de si operado os programas de mapeamento do real - mapeamentos tão superlativamente eficientes que a vida explode em cada milímetro cúbico do planeta, alcançando, mercê de sua operacionalidade eficaz, as dimensões de sequoias, baleias azuis e Einsteins...

Mas como se tem saudades de Deus, meu Deus! Como se tem saudades de Platão!






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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