domingo, 21 de julho de 2013

(2013/763) Vida e morte


A religião parece lutar contra tudo que é natural - não devo ter crédito algum quanto a isso: o pensamento é do aristocrata Nietzsche - e ele está certo.

No caso da morte. A religião trata a morte como se fosse uma inimiga - Paulo, o iluminado, pai das revelações e amaldiçoador de quem prega qualquer coisa diferente dele, dizia que a morte é o inimigo, o último...

Mas ele está errado.

Totalmente.

A morte é outro nome para a vida.

Sem mitos, sem poder desviar dela.

Morte e vida. Morte é vida.

Não, não amanhã, no céu, nos quintos dos infernos: morte é vida aqui e agora.

Sem matar, não se vive.

Seja alface, seja boi, você mata.

Se não mata, não vive.

Morre.

A vida vive de morte.

Com Heráclito: morrer de vida, viver de morte.

Outras vidas que vivem de morte sobrevivem de comer você - vivo: aqui, agora, nesse minuto, em que trilhões de bactérias me devoram. Minha própria vida depende de trilhões de bactérias que, vivendo em mim, digerem o que eu mato e me dão, em troca, comida mastigada - minhas tripas são uma usina...

Vou morrendo aos poucos - pele, ossos, cabelos, músculos, sangue: e me reconstruindo com as coisas que matei e comi. Se não as mato e como, meu corpo pende para a morte e chego ao destino que a Natureza me preparou...

Não posso encarar isso como inimigo: isso é o próprio processo.

E lutar contra isso se faz também por força de que, matando e comendo, produzimos substâncias que nos mantêm querendo lutar e viver: sem matar e comer, não terei energia para lutar e viver - também a morte me mantém vivo...

E, finalmente, quando eu tiver chegado ao dia em que não consigo mais equilibrar o jogo de vida e morte, entrarei na longa fila dos elementos que, devorados por terceiros, engendram vida.

Não serei mais eu - pedaços de mim, apenas. Que, todavia, ontem, ano passado, em 1.500, ao lado de Lucy, pertenceram a outros e a outras... coisas.




Se a religião não puder entender isso, não me serve a religião...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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