sexta-feira, 19 de julho de 2013

(2013/749) Abraão, carvalhos e campesinos


As histórias de Abraão narradas em Gênesis são resultado de elaboração sacerdotal em negociação não-equilibrada com camponeses da tradição abraâmica histórica. Não afirmarei que Abraão tenha sido um personagem histórico, nem que não tenha sido, mas, com base em estela egípcia, podemos afirmar que os abraamitas eram um grupo histórico, presente na Palestina pelo menos desde o século XIII. Assim, Abraão pode até ser uma lenda, mas os abraamitas, não.

Seja como for, os abraamitas tinham por epônimo ancestral o "pai" Abraão. Não eram javistas - eram adoradores de El-Shaday, que uma leitura não confessional de Êxodos 6 deixa claro ser outro deus, identificado a Yahweh por força ideológica - do templo. A identificação se fez necessária, julgo eu, pelo fato de que o templo precisava dos camponeses abraamitas, mas, dada a configuração henoteísta do santuário - apenas Yahweh -, revelava-se necessária a "conversão" de El-Shaday em Yahweh.

Depois da conversão, escrevem-se as histórias oficiais.

Elas, todavia, não estão marcadas apenas pela visão sacerdotal. Elementos da tradição campesina, de seu culto, permanecem, a despeito da visão sacerdotal.

A que mais me encanta, se leio corretamente, é a tradição das árvores - dos carvalhos, dos terebintos.

Uma leitura de Oséias, o profeta que Nancy Cardoso chamou de "mal-amado", revela o ódio que ele tem ao culto nas árvores - "debaixo de toda árvore frondosa"... Para mim, Oséias não é um livro pré-exílio - é sacerdotal, escrito depois do século VI. Ele revele a interdição que o templo fez ao culto popular nos altos, nos carvalhos, em qualquer lugar que não fosse a casa deles, sacerdotes.

Ora, se não me equivoco, esse culto que Oséias espasmodicamente condena é exatamente a imagem que aparece ao fundo das histórias de Abraão: os carvalhais de Manre... Abrão não pode ser pensado senão debaixo de um carvalho... debaixo de toda árvore verde...

De algum modo, a despeito dos sacerdotes, a memória do culto campesino permanece. Quando leio as histórias de Abraão, no fundo, é a única coisa que me comove: memória de homens ancestrais, interditadas, demonizadas, mas, todavia, lá, acenando com a alma cortada a machado...






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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