terça-feira, 12 de março de 2013

(2013/233) Sobre o "tabu" judaico de não pronunciar o nome de Deus e outras coisas mais - reação a Leonardo Martins


1. Dizem ser mais de 6.800 as ocorrência do nome YHWH na Bíblia Hebraica. Mais de 6.800! Na sua Bíblia, você lerá Senhor. Nas católicas, eventualmente, Yahweh

2. YHWH são as consoantes do nome da divindade de Judá e de Israel. No período persa, a partir de quando exatamente não se sabe, os judeus pararam de pronunciar esse nome, substituindo-o por 'Adonay, isto é, Senhor. Diferentemente de YHWH, que é um nome, 'Adonay não é um nome, é um título - Senhor.

3. Hoje, ninguém sabe exatamente como se pronunciava YHWH - nem judeus, nem cristãos, nem muçulmanos. Nas universidades, fala-se Yahweh - mas é convenção. Ninguém sabe.

4. Disseram para mim, é assim que me ensinaram e é ainda assim que muita gente explica a coisa, que os judeus consideravam tão sagrado o nome que não o pronunciavam... Sei... Me engana que eu gosto...

5. Vou dizer com todas as letras - não acredito nisso. Acho que essa é uma interpretação errada do fenômeno.

6. Ora, se havia tanto respeito, tanto tabu, porque 6.800 vezes se usou o nome "sagrado"?

7. Não faz sentido.

8. Para mim, o fenômeno é outro.

9. O nome foi proibido

10. Os sacerdotes mudaram a religião camponesa - tiraram-lhes tudo que eles pudessem usar, sozinhos, para sua religião. Os camponeses sempre tiveram templos, altares, imagens, sacerdotes, profetas, profetisas, divindades. Os sacerdotes lhes proibiram tudo isso.

11. Tiraram-lhes os deuses - só ficou Yahweh.

12. Tiraram-lhes os templos - só ficou o de Jerusalém.

13. Tiraram-lhes os altares, os altos, as massebás - só ficou o altar de Jerusalém.

14. Tiraram-lhes as imagens, os sacerdotes, os profetas, as profetisas - ficaram apenas os sacerdotes de Jerusalém.

15. Tudo isso para quê? Para obrigar aos camponeses a irem a Jerusalém, dependendo do sacerdócio.

16. Mas, roubados de tudo, ainda podiam recorrer ao nome de Yahweh.

17. Então, roubaram-lhe o nome. Proibiram aos camponeses de invocar o nome sagrado.

18. Sem o nome, eram obrigados a ir a Jerusalém, curvar-se diante do sacerdote...

19. Não foi tabu, não foi respeito, não foi reverência - foi crime.

20. Talvez isso explique a ênfase que o Novo Testamento dá ao nome: todo aquele que invocar o nome do Senhor [Jesus!] será salvo - eles, agora, têm um nome a invocar...

21. Assim, cada vez que ouço alguém dizer que havia tanta reverência que não se chegava sequer a pronunciar o nome da divindade, fico perguntando se eu estou vendo demais ou se tem gente vendo de menos.





OSVALDO LUIZ RIBEIRO

2 comentários:

Leonardo Martins disse...

Excelente perspectiva. De fato, não faz muito sentido esta interpretação. O que nos leva a repensar sobre o Heloísta e o Javista. Von Had chega esboçar a possibilidade de P nem existir de fato. Daí me vem a pergunta. Quem se beneficiaria com toda essa “reverência”? Começou no Deuteronomista? Está cada vez mais interessante.
Mais a frente vou investigar melhor.

Allison Duarte disse...

Muito esclarecedor... e deixa aquela malícia e adivinhação nietzschiana de que há relações de poder sob cada verdade...

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