1. Disse aqui há dois dias que a hipótese de que Jesus tenha sido algum tipo de "revolucionário" é muito provável, porque, de outro modo, teríamos que concluir que a declaração evangélica - unânime - de que Jesus foi crucificado como "rei dos judeus" foi inventada pelos seus discípulos justamente quando Roma destruía Jerusalém por ser revolucionária...
2. Um amigo disse-me hoje, e não sem sentido, que não é necessário que ele tenha sido - basta que se tenha tratado a ele como tal. Ele pode ter sido um contador de histórias, mas ter sido interpretado como um revolucionário...
3. Bem, isso dá o que comentar.
1) primeiro, a força da evidência de que a tradição é unânime em declarar a sua morte como tendo sido causada pela condenação dele por insurreição política é incontornável, é forte, é contundente, principalmente pelo fato de que a alternativa é a invenção louca dessa tradição, quando Roma teria, então, dizimado seus seguidores... É mais fácil imaginar que, acusados de seguidores do revolucionário, estes tenham criado a tradição de que o reino dele não era desse mundo...
2) a evidência da acusação pesa mais - minha opinião - sobre a identidade de Jesus. É mais natural que ele tenha de fato sido um insurreto (um Spartacus judeu), isto é, a acusação procede, do que imaginar-se que a acusação tenha sido um equívoco.
Por quê? Porque oi Evangelho não nega nada da acusação, apenas altera seu eixo de gravidade. Ele é rei, mas não daqui...
3) Não há uma linha no NT que defenda que Jesus tenha existido. Por quê? Minha resposta: porque não havia acusação de que ele não tivesse existido. Há dezenas de ratificações de que ele é, sim, messias - por quê? Porque havia milhares de judeus que negavam isso. Ou seja: insiste-se em que Jesus seja rei, de fato, mas procura-se transferir esse reinado para "amanhã", para "outro mundo", deixando claro que Roma é Roma, o reino de Deus é o Reino de Deus - em Lucas, quem recebe a comida da ceia frustrada são pessoas de carne e osso, pobres, aleijados; em Mateus, já é a abstração teológica: bons e maus...
4. Acho que ainda há mais argumentos para se procurar a localização do Jesus histórico naquela camada traditiva que finalmente levou à destruição de Jerusalém. A traição maior cristã, nesse caso, foi ter-se rido da desgraça judaica - tê-la tratado, até, com castigo de Deus, como Mateus faz na parábola do casamento do filho do rei: o rei incendeia a cidade daquela canalha...
5. Os cristãos, desde muito cedo, trocaram de pele...
OSVALDO LUIZ RIBEIRO
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