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sábado, 12 de março de 2011

(2011/167) Erasmo Carlos - "Filho Único": o que aplico metaforicamente à Tradição: alto lá!, Matrona - daqui, sigo por conta própria


1. Tenho uma relação muito amistosa com minha libido. Para além das funcionalidades orgânicas, a libido tem uma funcionalidade - também orgânica! - cosmogônica: ela tem a função de fazer explodirem no corpo humano jorros incontroláveis de autonomia, e isso se dá pelo fato de que a "natureza" sabe que, depois de uma década de "educação", de transmissão de cultura - é pai, é mãe, é a tribo, é o Estado, é a catequese - só mesmo uma dose cavalar, põe cavalar nisso, não meus endemoninhados adolescentes!?, para libertar a gente da tradição... E é por isso que saio correndo, como o diabo da cruz, das teorias filosóficas, sociológicas, antropológicas, que adoçam com açúcar a tradição: é mãe, mas é superprotetora, e, tomada das patologias maternas, quer-nos fazer móvel de sua sala, e nos colar à testa a plaquinha azul do patrimônio. Mas, mãe, cá entre nós: daqui em diante, sigo por conta própria, está bem?






OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sexta-feira, 2 de abril de 2010

(2010/280) Autonomia e pecado


1. Racionalista - eu? Sim, o sou, sim. Mas, também, místico. Não sei se sou mais racionalista ou se sou mais místico. Honestamente, não sei. Mas tento ser, ao mesmo tempo, as duas coisas que sou - sem que uma precise fingir que a outra não existe, como meu amigo professor e colega que disse que é pastor e sociólogo, mas cujo sociológico que é não pode ensinar nada ao pastor que é. O racionalista que sou dá umas boas lições no místico que sou, ao passo que o místico que sou preenche, sem estupros racionalizadores reacionários e contra-racionais, os vazios da racionalidade.

2. Ah, sim, a mística pressupõe uma posição ideológica. Claro que sim: o racoinalista que sou constrange o místico que sou, informando-o de que ele, mísitico, não pode saber de nada que não seja humano, ao passo que o místico, então, recolhe da advertência o transbordamento hermenêticio e lógico dela: se eu, místico, não posso saber nada do que não seja não-humano, resulta correto dizer que também tu, meu eu racional, não o pode saber, de modo que posso entregar-me a uma mística consciente de ser mística, a uma mísstica que sabe que é mito, a uma mística que é imagem-em-ação, fantasia da alma, desejo e saudade... E meu eu racional, então, reflete e diz, ah, tá, assim dá...

3. Não se trata de ensinar nada a ninguém. Se trata de ser como sou. Por exemplo: se eu entendo adequadamente Gn 2-3, aquela narrativa sacerdotal, cujo objetivo é encabrestar homens e mulheres a submeterem-se ao que "Deus" - faz me rir: ao que os sacerdotes afirmam ser o "bom" e o "mau", o que se pode e o que não se pode fazer, porque é a eles, sacerdotes, que cabe dizer a todo mundo o que se pode e o que não se pode fazer, se entendo bem essa passagem, mando aos quintos dos infernos todos os homens e mulheres que, um dia, tomados desse "delírio de Deus", desse delírio-de-serem-deuses, do delírio-de-falarem-por-Deus, tomaram-se no papel de demiurgos da sociedade. Ao inferno todos esses demiurgos!

4. Contudo, tendo a consciência racionalista do embuste sacerdotal, da fraude sacerdotal, nem por um segundo se dissipa de minha alma o sentimento de pecado e culpa, porque o pecado e a culpa não são invenções sacerdotais, são cooptações sacerdotais. O pecado e a culpa são conseqüências inexoráveis da consciência humana - o homem é pecado. Ponto. O que os sacerdotes fazem é arvorarem-se em gestores desse estado, em intermediadores dessa condição, prometendo perdão, vendendo perdão, em troca da submissão bovina das consciências às suas aleivosias teológicas.

5. A racionalidade não faz de mim um soberbo. Faz de mim um homem que ouve os discursos sub-repitícios da fé, o laço dos baiodeiros a amealhar vidas em redis dissimulados de liberdade. Meu racionalismo me liberta do laço dos passarinheiros, conquanto corra sempre o risco de cair no laço de outros. Nietzsche, por exemplo. Quis, uma dia, fazer-me crer que a democracia é alguma coisa baixa, própria da ralé, indigna da condição aristocrática dos aristocratas. Ouvindo-o, e amando-o como e o amo, eu, contudo, lhe fiz saber que a democracia é isso tudo, porque a democracia rasga o ventre da aristocracia, e liberta a todos. Penso que Nietzsche odeie tanto os sacerdotes, não porque ame suficientemente o gado: mas porque os sacerdotes disputavam a boiada com a monarquia...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

(2010/276) Do Haroldo, há um ano


1. No final de março de 2009, Haroldo postava uma breve tradução de Kant. Transcrevo aquela postagem.

1. Achei essa 'pérola'. Pensei logo em compartilhar. É de Kant, do XVIII.

2. "Iluminismo (ou Ilustração) é a emergência do homem a partir de sua imaturidade auto-incorrida. Imaturidade é a inabilidade de usar a compreensão sem ser guiado por outro. Essa imaturidade é auto-incorrida [= auto-provocada; obs: como é tradução própria, achei melhor a idéia de correr para dentro, por isso 'auto-incorrida', embora seja neologismo; mas viva Graciliano Ramos!] se sua causa não é falta de entendimento, mas falta de resolução e coragem para usar o entendimento sem ser guiado por outrem. O slogan do Iluminismo é: SAPERE AUDE! Tenha coragem para usar próprio entendimento, ou: construir sem próprio conhecimento". (In: Uma resposta à questão: O que é iluminsmo?, 1874).

3. A audácia é dolorida. É dolorida como a expulsão do jardim do Éden. Mas é necessária como ela, para abrir-se o caminho da liberdade.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

(2009/623) Quem disse mesmo?


1. "Entenderemos sob 'lugar da teologia' a posição inicial que lhe é destinada 'de dentro', decorrente de seu próprio assunto (objeto), a partir do qual lhe cumpre avançar em todas as disciplinas - as bíblicas, as históricas, as sistemáticas e as práticas. É a lei, pela qual ela se apresenta. Usando de linguagem militar: é a posição de sentinela que o teólogo necessariamente terá de ocupar e de manter sob quaisquer circunstâncias na universidade, sob pena de perder sua liberdade - mesmo que tal tarefa lhe venha a desagradar, ou que desagrade a quaisquer outras criaturas"...

2. Não parece algo escrito por eminentes teólogos brasileiros contemporâneos, no que se aliam, engajadamente, a eclesiásticos de ainda maior monta? Fincai o pé, soldados, marcha, soldado, cabeça de papel, se não marchar direito... Resisti, soldados da teologia, resisti na e contra a universidade... Invadi-a, sim!, posoto que as invasões, desrespeitosamente, é o melhor - o pior! - que sabe fazer a legião, a casta, teológica. Invadi-a, pois, tomai as cátedras de assalto! Mas, entrando, resisti, não dialogueis! Solapai, tropa, toda tergiversação, coronhada na cabeça, estocada no flanco, tiro na nuca. Não haveis de ceder um centímetro ao joguinho espúrio e estúpido das ciências...

3. Cem anos atrás, dizia-o Karl Barth, também na universidade. Agora, dizemo-lo nós, seus filhos, os assumidos de cá e de lá - teólogos de carteirinha - e os cripto-teólogos, disfarçados em cientistas da religião, que, malgrado o pomposo título, esperam, espreitam, a parousia.

4. Desgraça de teologia... Veja que ela é uma "deusa". O teólogo não pode constranger-se de seu estado desagradabilíssimo: desagradado ou não, ele tem de resistir, porque não é ele, teólogo, nem ela, teóloga, mas é a Teologia/Deus, agindo neles, por meio deles, contra e para eles, como ovos de vespa... E, se pela frente alguém faz cara feia, que se dane: o teólogo e a teóloga hão de pôr a teologia - "Deus" - na frente, sobre tudo e sobre todos, que é assim que se faz no Reino de Deus...

5. Miséria de telogia. Ela desdenha, com Barth, da modernidade: "o que vem a ser 'cultura' e 'ciência universal'?", ele pergunta. O que está por trás dessa afirmação/zombaria? Uma posição patrístico-medieval a leria assim: mandamos e desmandamos há dois mil anos, quem pensam que são esses pirralhos, mal saídos dos cueiros, metam-se no buraco de onde saíram, baixem a cabeça, ponham-se de joelhos... Uma leitura pós-moderna, de teólogos pós-modernos a serviço do Mesmo, do Velho e do Sempre, diriam: cultura é coisa como que bolha de sabão, vale aqui, vale ali, cada um tem a sua, e a nossa é a teologia. Logo depois, lecionariam missiologia, os cínicos... O que faz ambos jeitos o mesmo jeito é o desprezo com que olham a modernidade crítica e emancipada - a teologia é aristocrática, conquanto - mas talvez por isso! - faça de escravos seus todos os que lhe prestam serviço. Aristocrática, diz-se, é mais eficiente, teocrática...

6. Quanto a mim, vê se cala a boca, Barth! Sua teologia tem bolor e teias de aranha, de tão velha. A "cultura universal" com que sonhamos prevê abertura e pluralidade, consciência critica e autonomia, liberdade e diálogo. Nada disso, nenhuma dessas coisas, a teologia que chocas em seu ovo de naja e seu ninho de víbora tem nem pode dar, porque cuida ser a fala de um "Deus", sendo a neurose de uma espécie. Tão lúcida aos seus olhos, é cega, é mouca, é morta.

7. O pior não é o cheiro do corpo morto às costas da parelha ao lado: é barulho que seus ossos fazem nos ouvidos da gente, e essa mania de os teólogos quererem fazer procissão em nossas calçadas. Tudo isso, contudo, se entende... MEC, MEC, onde foste amarrar teu burro!?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. As citações: Karl Barth, Introdução à Telogia Evangélica, Sinodal, p. 12.

terça-feira, 26 de maio de 2009

(2009/296) Mão na consciência, Teologia!


1. Que sejamos místicos. Não há nenhum problema nisso. Edgar Morin, gênio vivo e ateu - quer dizer, neo-ateu - confesso, diz-se místico. Eu, um crítico-cético-autônomo, sou místico, e não vejo nisso nenhum problema. O problema é, apenas, nesse campo, o que chamamos de mística - uma mística ou é cética, ou não é mística, é dogmática... E, aí, é transtorno.

2. Mas na academia, não há lugar para dar vasão à mística como regime heurístico, porque a mística não tem sequer conteúdo. A mística é tão-somente uma pulsão vital, uma abertura hermenêutica que rompe a redoma da cosmovisão físico-civilizatória em direção ao Místério (os Mistérios) assim intuído(s) - e apenas assim permanecendo Mistério(s). Nisso não há qualquer possibilidade de fazer-se de ferramenta, qualquer uso possível para a "pesquisa". A mística é, aí, no máximo, respiração.

3. Bem, se a "alma" do pesquisador se deixa encantar pela mística - qual o problema? Se ele não permite que a mística corrompa os "dados" (há uma mística que mente!), se ele não permite que a mística deturpe a realidade (há uma mística que frauda!), qual o problema? Minha insistência neurótica e quase-patológica quanto à interdição dos regimes místico-dogmáticos na academia é meramente instrumental - a mística converte-se em "saber" (o que não é) e pré-determina resultados de pesquisa, pior!, pré-determina questões de pesquisa, que, naturalmente, apenas ela, a mística supostamente bem-informada há de responder - mas mente, porque simplesmente inventa respostas.

4. A insistência de a Teologia em não largar seu vício dogmático, disfarçado que seja em tradição e metáfora, nenhuma diferença, vício conteúdístico, vício terminológico, de teimar em tratar como saber o que é mera crença e mito - essa Teologia será a responsável pelo retorno do obscurantismo religioso do passado em pleno século XXI. Para manter seu discurso em praça pública, a Teologia - os teólogos! - há de amargar o preço de ressuscitar demônios. E lamento profundamente, mas a quem hei de reclamar?, de ser eu também a pagar o preço por esse crime de terceiros.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

sábado, 23 de maio de 2009

(2009/288) Livros que mudaram minha vida - I


1. Até hoje, e lá se vão dezesseis anos de magistério teológico, tenho resistido bravamente às - é verdade que - poucas ameaças de um ou dois alunos me tirarem por guru. Minha consciência crítica é tão severamente austera consigo mesma que não suportaria a idéia de apresentar-se em sala de aula como guru - Deus me livre! Sequer a idéia de "discipulado" me encanta. De uma transferência de autonomia, de uma introdução aos métodos, de uma insuflação de coragem, aí, sim, me agrada a idéia.

2. Alguns alunos do primeiro período de Teologia, da FABAT, me pedem, num canto, que liste o nome de livros que recomendaria para serem lidos com seriedade. Ah, isso não posso fazer, porque eu não tenho receitas mágicas. O que posso fazer é ir dando, a pouco e pouco, o nome dos livros que me fizeram, pelos quais me fiz, que correm em minha veia, que transbordam de cada afirmação minha.

3. Se você lê alguma coisa, e isso entra na sua corrente sangüínea, e isso passa a compor seu DNA, e cada espermatozóide seu passa no almoxarifado para pegar o embrulho, então você aprendeu isso. O resto foi perda de tempo. Lemos muito pouca coisa realmente significativa em toda nossa vida, conquanto tenhamos lido, eventualmente, muita coisa.

4. A primeira indicação que faço, algo como quase sagrado em minha iniciação crítico-epistemológica, é o magistral Tratado de História das Religiões, de Mircea Eliade. Li-o de cabo a rabo, sem parar, no chão da sala de casa, tendo a Lua por companheira, ainda na Matias Braga, em Belford Roxo. Havia um cortina bordô nas janelas - eu me lembro delas. O chão, era de tacos envernizados, como tiveram sido os chãos da casa de vovó. Havia um sofá creme. Dois cães, agora já mortos, na varanda. Bel (sempre ela) e as crianças, pequenas... Nasci, ali, no chão, parindo-me página a página. Quando acabei, exausto, levantei-me, e percebi que pele, ossos, sangue, urina, fezes, carne, músculos, um exo-homúnculo ficara ali, no chão. Recolhi, reverentemente, os restos mortais, engoli-os, e segui em frente. O velho e o novo dormem na minha carne... Eu era uma serpente que trocara a pele.

5. Nesse dia - e até hoje - condenei a educação religiosa que me praticaram. Não tinham o direito de fazerem o que fizeram comigo - peior, de me ensinarem a fazer a mesma coisa, de cometer o mesmo crime. Mentiram para mim, desavergonhadamente, em nome de suas verdades de umbigo, quando sabiam que havia quem lhes denunciava a mentira. Chorei naqueles dias. E segui em frente.

6. Não, não é um livro "religioso". É um livro técnico. Mas conhecer-se e conhecer o mundo, é pura liturgia. Meter a mão nas próprias carnes, é culto. Sofrer a dor do próprio parto, é adoração...

7. E recomendo entusiasticamente essa iniciação. Se bem que se trata de um portal muito peculiar. Ninguém que não à altura de espremer-se entre os próprios ossos entrará nele. A alma pequena demais, ou grande demais, por alguma razão, não agüentará a travessia, porque deve-se cruzar o rio pisando as próprias verdades, e elas estilhaçam-se, sob o peso dos pés, que, sangrando e doendo, devem, contudo, insistir, e não sobra nada do outro lado. É uma dor em festa, todavia, um sofrer de gozo, um doer gostoso...

8. Por isso, não temo recomendá-lo. Só há de atravessar o vale negro da Fenomenologia da Religião aquele que, em pleno estado de "verdade", encontra-se ardendo como que em ácido - e de tal modo que, à gota que se lhe oferece, abre a garganta, ávida. Eliade é uma gota de água fria, a anunciar a chuva, depois da seca...

9. Não é um livro para os satisfeitos. É um livro para quem tem dor. Um livro para Jó - para aumentar ainda mais a sua tragédia. Mas, depois, acabam-se todas.

10. O segredo que ele trás, ao menos o que eu descobri, é que ele vai apagar o nome dos deuses da rocha, escrevê-los na fumaça, e construir uma varanda. Balançar-se, ali, ou não, é a opção do leitor. Se sobreviver, claro.

11. Pediram-mo. Agora não me venham com choramingações, que tá doendo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

PS. Para adquirir, na Livraria da Travessa.

sexta-feira, 27 de março de 2009

(2009/116) Iluminismo, Éden e autonomia


1. Haroldo, na esteira de sua postagem, penso que a ponte que você fez entre Éden e Iluminismo seja provavelmente perfeita. A meu ver, a tradução corrente "conhecimento do bem e do mal" está equivocadamente contaminada pela "moralina" teológica, como se o "pecado", contra o qual o texto, sacerdotal (dato-o no século V, no mesmo momento da invenção/promulgação do "sacrifício substitutivo" no Templo de Jerusalém), se insurje fosse da ordem da "moral" - para mim, a tradução deve ser "conhecimento do (que é) bom e do (que é) mau", ou seja, a capacidade de a própria pessoa, por si mesma, decidir o que é bom ou mau, o que lhe convém ou não, o que lhe interessa ou não, o que ela quer e o que ela não quer - numa palavra, ser comos os deuses!. Ora, essa atitude é tudo quanto um sacerdote não pode, sob nenhuma circunstância, aceitar. Como disse Menocchio, em O Queijo e os Vermes, eles não querem que nós saibamos...

2. Nesse sentido, não me encanta tanto o Iluminismo por conta de seu compreensível, mas, ainda assim, equivocado (e já corrigido [cf. Morin]) "endeusamento" da razão, quanto por sua ênfase justamente nessa ousadia, nessa coragem, nessa autonomia.

3. É muito pertinente observarmos que, lá, no Éden, porque homem e mulher querem (segundo minha hipótese histórico-social) autonomia em face de "Yahweh" (não sejamos ingênuos, em face do Templo!), e, por isso, são expulsos da presença de Yahweh, ali, naquele furacão avassalador que foi o século XIX (que começa em Kant!) são os homens e as mulheres quem expulsam "Deus" (não sejamos levianos - a Igreja e a Coroa), conforme bem descreveu Zaratustra. A sociedade republicana, pós-iluminista e pós-romântica é a sociedade que, depois de dois mil e quinhentos anos, assume a coragem de mandar às favas a autoridade falaciosa de homens e mulheres que se pretendem acima dos demais - e para isso se servem do mito. Nesse sentido, não acredito que um Empirismo e um Iluminismo resolvessem, por si sós, a questão, sem uma Revolução Francesa, porque, com ou sem violência, era imperioso - ainda o é - que "o último rei seja enforcado nas tripas do último padre".

4. Nesse senido, Haroldo, Karl Barth, o Vaticano I e o movimento The Fundamentals, nos Estados Unidos da América, todos esses, contemporâneos entre si, fenômenos de reação contra aquela autonomia irrefreável, constituem a encarnação reacionária dos querubins que guardam a entrada do Éden - a teologia quer o Mundo, menos a autonomia humana.

5. Obrigado por mais essa postagem.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 9 de março de 2009

(2009/071) Ainda uma reação a "Apesar"


1. Haroldo, você escreveu: "apesar da crítica necessária, da hipocrisia, da ilusão, do comércio e das trocas simbólicas, ações de amor têm seu valor em si. Apesar e em meio a tudo isso - soa piegas, eu sei -, pessoas amam(-se) de verdade" (Haroldo Reimer, (2009/067) Apesar, § 7). Destaco: "pessoas amam(-se) de verdade".

2. Você quer que essa declaração tenha valor "apesar da crítica necessária, da hipocrisia, da ilusão, do comércio". A "bola" da críica, levantara-na eu. Seu post referido é uma reação a ela, com o que você concorda - "crítica necessária" -, mas com uma ressalva: há, sim, pessoas que amam verdadeira e sinceramente, a despeito da situação.

3. Bem, Haroldo, a rigor, não discutimos sobre o amor, nem sobre pessoas que amam ou não amam. O assunto era bem outro. Falávamos sobre pessoas que se dedicam (amam, fazem caridade) ao "próximo", motivadas, a isso levadas, premidas, pela "idéia de Deus". A discussão não contrapunha pessoas que não amam, ou que amam falsamente a pessoas que amam verdadeiramente. Nossa conversa contrapunha pessoas que amam, capturadas pelo próprio objeto amado, a pessoas que "amam", coagidas a tanto por um pathos religioso - a idéia imperativa de Deus.

4. Faz diferença, não faz? Penso que sim. O amor não é uma relação unilateral, ela é uma relação "objetiva", nos termos da qual eu sou objeto para o ser que amo, e ele é meu objeto, ou seja, eu e o objeto amado nos pomos em relação direta, pulsional, passional. No caso do amor religiosamente motivado, a relação não é direta - o que A faz em relação a C, faz por causa de B. É como se eu devesse amar Bel porque Deus quer (com o corolário oculto de que, se Deus não quiser, Bel não será por mim amada).

5. Que haja pessoas que amam verdadeiramente, creio. E creio, também, que, se nos aproximarmos dessas pessoas, e analisarmos esse caso de amor, veremos que não há nenhum dispositivo exterior a ela, à relação, a eles, aos "amantes", que seja a razão e o motivo desse amor. E, se há, não é, de fato, amor.

6. Acho, Haroldo, que o "fundamento" Deus do amor foi, historicamente, superado pela legislação. A "lei" organiza as relações sociais, "estabelecendo" o básico do trato inter-pessoal. Numa sociedade moderna, é a lei quem prescreve os deveres e os direitos do cidadão, seja em face do Estado, seja em face da sociedade como um todo, seja em face dos indivíduos. Como o Estado moderno assumiu o "lugar" - bem como as prerrogativas - que a "Deus" cabiam na sociedade medieval e teológica ocidental, não é mera coincidência que a legislação tenha ocupado o lugar determinante do ordenamento social mediado.

7. Todavia, o Estado não pode prescrever atitudes no nível da relação imediata, do amor gratuito, da relação sensível e sensorial. Pode, sim, estabelecer obrigações e deveres, aos quais hão de corresponder penalidades. A teologia do amor, assinalando "Deus" como fundamento do amor, funcionava da mesma maneira.

8. Já a doação gratuita, imediata, objetiva, relacional, ela nasce sem a coação de um "dever" - ela é a materialização de um constrangimento. Não é um dever alheio, estranho, uma lei, um mandamento - é um constrangimento da face exposta do outro, cujo apelo não vem do "Outro" (se vier, não é o outro que me constrange, mas o "Outro"), nem da lei, mas da nudez ineludível do outro. Esse é um amor diferente daquele.

9. Nem seria, talvez, Haroldo, o caso de pensarmos que, para o faminto, tanto faz se ele come pão, o pão que lhe dou, porque lhe dei, tendo sido constrangido a tanto por Deus ou pela lei, ou que lhe dei por gesto gratuito ou por força da objetividade de sua face incontornável. Como não faria? No primeiro caso, não é a fome do outro, o outro em-si, que me constrange: não é ele o meu "valor", ele é tão somente um checkpoint para a "obediência". Ele não existe, então, como "pessoa", à luz desse fenômeno. No segundo caso, ao contrário, é nele que eu tropeço, porque é ele quem se põe na minha frente, ele e eu, sem Deus, sem lei, o encontro insofismável entre duas pessoas, a ontologia humana rasgada e escancarada.

10. Ah, Haroldo, se eu disser a Bel que a amo porque Deus quer, hei de ofendê-la profundamente. Ela há de considerar um favor que eu lhe faço, que Deus lhe faz. Para alguém desprovido de amor-próprio, do senso de dignidade, talvez fosse, mesmo, de um favor que ela julgasse precisar. Mas, para Bel - e quero crer, para o conjunto das pessoas que não se permitem enxergar sob a ótica da maldição e do "pecado", ah, elas mesmas, enquantgo pessoas, é que são dignas do amor e do cuidado. E não hão de negociar migalhas caídas à mesa. Não mesmo. Migalha de amor não é am or - é ofensa ontológica.

11. Com o que saltamos para a questão fundamental: a retórica de Deus como fundamento do amor esconde o fato histórico de que foi "Deus" - a rigor, a teologia na qual essa idéia jaz cativa - quem privou de amor próprio um conjunto enorme de pessoas, que, porque desprovidas de amor-próprio, de senso de dignidade, sentem-se beneficiadas para além de seu mérito e valor por qualquer migalha de amor, seja de Deus, seja da sociedade, seja do Estado, seja do concidadão. Talvez, Haroldo, a manutenção da retórica do amor - e da libertação, ouso dizer - fundamentados em Deus seja um reforço paradoxal para a teologia da "falta" humana, de sua condição "menor" em face de Deus. Um Deus que, primeiro tira, para, depois, dar. Uma teologia que primeiro pisa, para, depois, levantar. Como o Yahweh de Nm 12 - primeiro faz leprosa a moça, para, depois, deixar que ela se junte ao acampamento. Amor que traz, sob o paramento, a ameaça do desamor à espreita.


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

(2008/128) Tréplica a Felipe Fanuel


1. Nosso mais ativo leitor, Felipe Fanuel, responde-me muito incisivamente - aqui. Isso é bom. Muito bom. É um teste para ele mesmo, bem como um teste para mim. Fosse ele "um desses que por aí vão atravancando meu caminho", reagiria com indignação e dispararia minha caixa de balas de prata. Mas é Fanuel, a quem (ainda) tomo por alguém sincero e honesto, condição para merecer meu respeito, minha atenção, minha interlocução (não que isso tudo aí aberto pelo possessivo "minha" signifique, necessariamente, alguma coisa).

2. Contudo, penso que há consideraçõesa a serem feitas. Primeiro, sobre que não aceito rótulos, mas adoro distribu-los. Que até faço isso com os imberbes neófitos da Teologia! Bem, salvo melhor juízo, nada aí corresponde à realidade. Quanto aos alunos novos, insisto em que devem posicionar-se em face da consciência que devem adquirir dos métodos e das correntes - corrija-me, se mentir, tu que foste um aluno meu, tiveste o azar... Invariavelmente, alunos ingressam na Teologia crendo que o que aprenderam na igreja, aprenderam-no de Deus - e em que pese ser isso verdadeiro para eles, não o é para mim, por força, inclusive, de minha profissão. Tenho, então, o prazer/desprazer de fazê-los despertar - e, nesse campo, Felipe, só há despertar trágico, o que se desdobra em aprender as escolas,os métodos, seus pressupostos, e assumi-los (dadas as classificações das várias correntes, o fato de um aluno fugir de assumir uma dentre elas - ele, até, já está dentro de uma delas, só que não contaram isso pra ele - não faz desaparecer o fato de que ele, consciente ou inconscientemente, opera sistemas teológicos/bíblicos criados por terceiros - ou que, eventualmente, os construa, o que não extrairá deles o fado de "correntes"). Logo, Felipe, seu exemplo não foi feliz: não se trata de rotulação, aí, mas de conscientização - tanto assim que fazia questão de que cada um se descobrisse/identificasse, não importando por qual teologia optasse - minto? Para mim, o que importa é a coerência interna do teólogo (que não muda em nada, contudo, o caráter epistemológico [científico-humanístico, de sua "posição, conquanto seja "de direito"]), não sua opção fundamental, na qual não posso interferir. Não rotulo alunos - ensino-os a se descobrirem e, eventualmente, a adotarem novas correntes de pensamento com a quais, eventualmente, se identiciquem - e isso se quiserem. Não quiserem, não perco o sono por isso, conquanto, às vezes, reclame muito com Bel de ter que fazer força empurrando caminhão morro acima... E, acredite-me, Felipe, há verdadeiras carretas de dezoito eixos ali...

3. Segundo caso: não aceitar rótulos... Não é verdade. Assumo-me em qualquer ambiente em que esteja como um exegeta histórico-crítico, operando consoante abordagem histórico-social e fenomenológico-religiosa. Poderia escrever um rótulo e pô-lo em minha testa, se desejar. O que eu não aceito - e é meu direito e dever (direito, para com meus acusadores, dever, para com meus amigos e leitores) são rótulos falsos - um deles, "positivista", outro, "pós-moderno". Não sou nem uma nem outra coisa - e, se por um lado, elementos de meu pensamento podem ser identificados no que se convensionou chamar de "pós-modernidade", isso não significa que eu seja convictamente pós-moderno, porque se trata de elementos disponívelis inclusive, no pensamento pré-moderno - até pré-socrático! Heráclito foi pós-moderno, Felipe!, eis aí um rótulo falsificado, e, contudo, uma analogia heuristicamente verdadeira.

4. Minha relação com o pós-modernismo - seja lá o que isso vem a ser - é crítica, porque a maior parte de seu fundamento epistemológico/histórico é falso. Nietzsche jamais foi pós-moderno, e, basta checar, toda a penca de pós-modernos que se aprensenta em praça pública (Vattimo é imbatível) citam Nietzsche como fundamento... Ha! Ha! Ha! Pior que isso, só meu amigo que outro dia citou Morin como um defensor da supresão ("pós-moderna"!) da racionalidade crítica (ah, mas ele é igualmente vattimoniano, está explicado)... Duas vezes, então: ha! ha! ha! Para mim, a modernidade ainda não acabou, porque ela aí está em luta intestina consigo mesma - o que se chama de "pós-modernidade" é uma reação - reacionária! - contra a modernidade, seja em frente filosófica, seja em frente teológica, seja em frente cultural. Mas isso é outra história.

5. Que rotule pessoas, eu? Bem, pensarei a respeito. Seja como for, nem conheço as pessoas cujos escritos critico - e é, sempre, a um escrito em particular a que faço referência, quase que parágrafo a parágrafo, de modo que não critico pessoas, mas textos Mas o que tento fazer, talvez seja mal compreendido, é discernir posições epistemológicas, e, Felipe, não se faz isso na superfície. Você tem que desnudar o que o sujeito diz, meter a mão no fígado dele, sintaticamente eu digo, compreendes-me?, para, então, poder dizer que, das duas uma, ou o que ele diz, é o que ele diz mesmo, ou, ao contrário, ele diz uma coisa, quando queria dizer outra. Em outros casos, fazer o mesmo para denunciar a impropriedade - sob determinado valor epistemológico - de uma determinado proposição, como é o caso, e insisto, na defesa do lugar da Teologia no conjunto das Ciências Humanas, que Faustino fez. Felipe! Uma defesa daquelas, serve a quem? Na hipótese de as Ciências Humanas decidirem dar atenção a ela, concederão à Teologia uma sala, no corredor, ao lado das demais, mas pedirão aos teólogos que consultem a Deus às portas fechadas... Isso me parece óbvio - ou será que a consideração pessoal, a amizade, eventualmente, pelo Faustino, deva nos fazer calar? Que amizade essa!

6. E o mais importante - não adianta discussão em tese sobre o que fulano ou beltrano pensa, ou, o que é mais correto, o que nós dizemos que ele pensa. Trata-se de filologia, Felipe - e Nietzsche afirmava que um bom teólogo é necessariamente um mal filólogo... É verdade. Por que será que meu artigo da Correlatio "teve de ser" tão grande? Porque, Felipe, ali, fiz o que não se faz nunca: comentei parágrafo a paráfrago da conferência, comparei-a com ela mesma, desnudei-a. Você não vê isso nos artigos encomenados para dez laudas! Impossível fazer isso, meu caro, em dez laudas. Em dez laudas você marca pontos no lattes - e só (ressalvadas as exceções, dificilmente aplicáveis à filologia - a obra em que Losurdo acaba de enterrar toda a recepção, de Heiddeger a Vattimo, de Nietzsche, tem mais de mil páginas! O enterro que Filkenstein faz da tese de Gottwald mereceu até um excurso, menor, claro, considerada a natureza da polêmica.). Logo, não me fala muita coisa você me dizer que não concorda, em linhas gerais, com meu artigo... A rigor, se não demonstrar, se não criticar parágrafo a parágrafo, ah, Felipe, brincas com idéias, quando seria necessário fazer filologia. Não é o que eu acho contra o que você acha. Não é, Felipe, do que eu gosto contra do que você gosta. É a conferência - o que, de fato, Tillich disse ali? Aí está um excelente exemplo do que se deveria fazer com a Bíblia. E, contudo...

7. Permita-me uma audácia - lê-se pessimamente em nosso meio, Felipe. Mas muito, muito mal. E, para além disso, citam-se aqueles que lêem mais mal ainda... Assim, o ciclo de má filologia vai se ampliando, até o ponto em que a má filologia transforma-se em idéia, e o autor, objeto da má filologia, torna-se "outro", construído à nossa imagem, à imaem da má filologia. Se você ler, de novo, meu - "gigantesco" e "eivado de má técnica de comunicação" - artigo, verá que lá eu já dissera que, à primeira vista, Tilich parece que vai entrar de cabeça na Fenomenologia da Religião, indo e vindo de avião, com Eliade, para a terra do sol nascente. Apostei nisso. Desejei isso. Eventualmente, Felipe, como você. Mas, e eis o ponto, quando se lê a conferência, e se deixa tentar ouvir a conferência, cruzá-la e entrecruzá-la consigo mesma, em seus momentos fundantes e corolários, ah!, Felipe, que nada! Tillich apenas servir-se-ia de uma peseudo-fenomenologia, para continuar na senda profética do anúncio da Cidade Bela - com outro nome, mas, no fundo, a mesma coisa. Ah, sim, com toda a liberdade "poética", "correlacional", "estética", "simbólica", que você quiser, do "seu idiossincrático", "personalíssimo", "todo seu", jeito de fazer teologia - desde que, eis o ponto, a Ontologia permaneça, porque essa é a civilização ocidental, e Tillich é seu defensor - como fundamento, "Deus". Se me equivoco, mostra, onde, no texto, isso não está... sem, contudo, esconder onde está como que ginecologicamente escancarado, para o exame clínico.

8. Bem, Felipe, talvez - é sempre possível - eu tenha lido errado o texto da conferência. Você vai o quê?, satisfazer-se em dizer que não condorda comigo? Que seja. Se tem certeza de que leu adequadamente o texto da conferência - e mais, Felipe, é a última: se, eventualmente, outros textos de Tillich podem ser mais facilmente desontologizados, como você parece querer gostar, trata-se, contudo, da última conferência dele, e isso quando ele estava excitadíssimo com a Fenomenologia da Religião!, e, ali, ouve-se o que ele pensava às portas da morte. -, então, nesse caso, dize-me onde foi que eu errei na interpretação dela. A meu ver, contudo - e demonstrei isso lá, acredito, Tillich não manejou fenomenologicamente a Fenomenologia da Religião - manejou-a teologicamente: isso diz tudo, isso faz toda a diferença (para o leitor eventualmente interessado, deixo o link de Osvaldo Luiz Ribeiro, Por uma Teologia Pós-Metafícia - diálogo com um epílogo circunstancial, Correlatio, n. 12, 2007. Para um esclarecimento, sob meu ponto de vista, da "epistemologia ontológica" de Tillich, cf. Osvaldo Luiz Ribeiro, Por que se escondeu esse menino? - A Teologia de Tillich à luz da semiótica de Peirce, Correlatio, v. 13, 2008. Aceito críticas filológicas).

9. Finalmente, é muito difícil ser crítico, e, mais do que isso, ser publicamente crítico. Se dói em você, que vem espontaneamente aqui, ler-nos, ler-me, imagino quanto não doa naquele/as para quem minhas palavras são fel e fogo. Não é fácil. Outro dia Haroldo me lembrava de Benjamin e das portas que lhe foram fechadas - não se me deixou escapar o tom de advertência fraterna, como a lembrar-me que a Teologia - o "sistema teológico" - tem tantos pecados quanto toda a cátedra. Contudo, não julgo quem quer que seja, o que, por outro lado, não faz desaparecer o que se faz aqui e ali, assim e assado. Sou crítico do pastorado - do modelo católico, então, nem me fale! E por que sou crítico? Porque, por mais que a sua função pareça ser "libertação", no fundo, Felipe, quer-me parecer que não. E, isso é relevante, o fato de esse mister desenvolver-se como que fundamentado em amor - amor profético!, uma contradição? -, ora, cá entre nós, o que isso significa? Algum dia fez-se o mal - no Cristianismo - em nome do mal? Pensamos que as Cruzdas foram obras de maldade? Não, não. De amor! Sempre.

10. Mas aí entramos numa área complicada, que não domino, e para a qual não tenho resposta. O que eu vejo, e sempre, e cada vez mais (com raríssimas exceções que me chegam ao conhecimento - eventualmente o mundo esteja cheio delas), é um fomento da alienação, cuja velocidade tornou-se alucinante. É doente, patológica, insana, vergonhosa, a "igreja evangélica" contemporânea: pessoas estão morrendo antes do parto humano! Nunca o ópio esteve tão barato! E, ao mesmo tempo - com isso teria contato Marx? Mas até aí ele acerta... - a cafeína, se me entende, e , se não, explico - refiro-me ao combate entre "Deus" e "Deus", o Deus da direita e o Deus da esquerda - como a Manchete mostrou, nos anos da ditadura chilena, numa página, Pinochet e, na outra, o Papa da época (eu era uma criança, e, contudo, a imagem nunca me saiu da retina) - independentemente dos rótulos para que isso aponta, minto?

11. Para encerrar, resumindo minha tréplica:

11.1 não rotulo alunos nem os oriento a se rotularem - esforço-me por esclarecê-los a respeito das posições assumíveis, e que, de fato e necessariamente, assumam a sua, conscientemente, com todas as conseqüências disso decorrentes - porque isso, e não outra coisa, é maturidade.

11.2 Não recuso rótulos - eu mesmo os crio para mim: teólogo/exegeta histórico-crítico, com viés histórico-social e fenomenológico-religioso (um desafio: desminta-me em qualquer dos meus escritos... aqui, ou aqui, rótulos que compus pra mim, porque penso ser inadequado vir à ágora, sem desnudar-se primeiro - e durante).

11.3 Meus textos costumam se grandes - não são escritos para um público que tem pressa, certamente - porque seu esforço é, basicamente, de, primeiro, desconstrução da "história dos (d)efeitos" dos textos que ali se analisam, e, depois, de apresentação, em nenhum sentido "pós-moderno", certamente, da minha proposta de recuperação histórico-social do texto enquanto objetivação de consciência de um sujeito histórico - às favas, na "academia", com essas pantominas próximo-metafóricas de ficar brincando de dizer qualquer coisa a respeito de qualquer coisa - e com ar de quem diz uma grande coisa [isso é espetáculo, não pesquisa]! Posso equivocar-me? Posso - mas o critério para o descobrir/decidir, certamente, não há de ser o "gosto" ou o "desejo" de meus leitores, mas a sua, nesse caso, boa filologia, contra, nesse caso, minha má filologia.

11.4 Penso que a justificativa de "amor" não resolva os problemas gravíssimos da epistemologica pastoral: amor também sufoca, até mata, e as igrejas, Felipe, não?, estão cheias de gente morta, e isso no sentido mais profundo das potencialidades humanas, e, lamento, não por uma opção de simplicidade de vida, delas, o que seria belo e legítimo, para que levar a vida tão a sério?, mas por uma absoluta manipulação de massa e consciência que opera, que se opera, à luz do dia, e em nome de "Deus" - indescência: quando a pessoa descobre-se e descobre o que lhe fizeram, sente nojo. Mas foi por amor, Osvaldo... Ah, então está tudo resolvido...

12. Encerro minha réplica, como, você há de lembrar, como encerro todas, absolutamente todas as minhas aulas, dizendo que posso estar redondamente enganado em tudo, absolutamente tudo que esteja dizendo. Esse é meu desafio - saber se e quando estou, de fato, equivocado. Ah, claro, se eu depender do "gosto" teológico hegemônico - sempre... Mas já me libertei dessa dependência - mas, não, da minha, e essa, Felipe, não tens a menor idéia, é crudelíssima - não conheço quem seja mais epistemologicamente severo consigo - e com os outros - do que eu: vá lá, essa é minha doença. Uma noite de sono em paz - eis o que eu nunca mais tive, desde que me fiz teólogo autônomo. Como custa cara a paz, meu amigo...


OSVALDO LUIZ RIBEIRO

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

(2008/105) Autonomia e coragem


1. É bom ter um parceiro de diálogo como Osvaldo. Por vezes dói receber suas acuradas percepções críticas a um texto exposto publicamente. Mas, isso é agorá. É discussão pública. É discussão que afia o espírito para a percepção mais acurada e cientificamente fundamentada.

2. Assim, trato de [me] corrigir. No tocante à morte de Benjamin, no texto de Hannah Arendt consta somente que "optou pela morte" (p.165). Em outros textos fala-se das circunstâncias nebulosas‘ que envolvem a sua morte, talvez por injeção de morfina. Não tendo outra fonte disponível, consultei, agora, a Wikipédia em alemão e lá há uma informação de que Benjamin teria ditado uma carta a um companheiro de caravana em rota de busca de outro espaço para viver e que esta carta teria ido parar nas mãos de Adorno. Mas que, em contraposição à tese comum de suicídio de Benjamin, haveria especulações sobre o assassinato dele, que vão desde um suicídio 'forjado' até atentado praticado por agentes de Stalin. Isso para corrigir a afirmação não devidamente fundamentada.

3. Outra é a questão do desespero. Esta coberto de razão o meu amigo em contradizer o senso de que ultima ratio do suicídio deva ser movida por ‚desespero‘. Claro, trazendo à memória os judeus de Massada, havemos de concordar que se tratou de um ato de autonomia. Tirar a própria vida pode ser ato de autonomia, neste caso, de autonomia levada às últimas conseqüências. Imediatamente me vêm à mente algumas produções cinematográficas recentes como Mar adentro e Menina de ouro, nas quais o tema do suicídio assistido é colocado em tela. Especialmente na primeira, a ênfase é a liberdade e a autonomia do sujeito frente à sua própria vida.

4. Digamos que outro estivesse na pele de Benjamin. Sim, concordo. Quer faríamos nós? Que faria eu? Lembro ainda de outro filme, creio que alemão e em preto e branco, em que um judeu condenado à forca canta e dança na frente do juiz e do algoz. Ele leva a autonomia até o momento extremo, não dando vazão ao desespero. Sim, há que se tratar o suicídio como um direito derivado do pleno exercício da autonomia.

5. Relendo texto sobre e de Dietrich Bonhoeffer, morto por enforcamento em 1945 após alguns anos de prisão por participação em atentado contra Hitler, encontrei uma passagem que gostaria de compartilhar neste tópico. De Boenhoeffer se dizia que deixava sua cela “sereno, alegre e firme qual dono que sai de seu castelo”. Num poema escrito em 1944, Dietrich Boenhoffer (Discípulo, testemunha, mártir, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p.102), ele se pergunta:

5.1 “Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã um outro?
Sou ambos ao mesmo tempo? Diante das pessoas um hipócrita?
E diante de mim mesmo um covarde queixoso e desperezível?
Ou aquilo que ainda há em mim será como exército derrotado,
Que foge desordenado à vista da vitória já obtida
?"



HAROLDO REIMER

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

(2008/83) Quem é esse Übermensch e o que ele faz na minha varanda?


1. Haroldo, Haroldo, tremi, agora, ao reler seu post (2008/61 - Reflexões a caminho), quando cheguei ao parágrafo 6. Perguntei-me o que estaria fazendo, ali, depois de um belíssimo - esteticamente belíssimo - comentário a respeito "do tempo-lugar do Osvaldo", o Übermensch de Nietzsche? O que, exatamente, desde a memória de Haroldo, ao tecer comentários sobre minha (suposta) liberdade, minha, sim, autonomia, minha aparente nudez, emendou os fios, uma ponta, o Übermensch, outra ponta, pobre de mim? Nietzsche está morto, e o que se fez dele, quanto a isso, não o podemos mais ouvir (pode-se, contudo, ler Losurdo!) - mas você usa um termo que tem história: o que você quis dizer com ele, que, aí, fez-se seu?

2. O curioso foi observar que essa "correlação" - um termo teológico famoso! - situa-se no vértice de uma série de declarações/afunilamentos que você, Haroldo, fez, em face daquele lugar-tempo. Enumero-os: "É um lugar-tempo invejável esse do Osvaldo. É conquista, e é graça" (§ 1). "Para lá conduzem os caminhos da nua e crua busca heurística" (§ 2) - observei o "para lá", sintaticamente distanciando-o do escritor da frase, ao que, também pareceu-me curioso, agora, faz-se seguir a citação de Nietzsche, como a lembrar que essa neurose (no sentido de fixação) metodológica tem paternidade...

3. "Este caminho é difícil para a teologia. Eu sei" (§ 3). Não era para ser, já que a Teologia diz amar a Verdade. Está bem, mas o é, já que a teologia é um sistema de informação fechado, que, na prática, ama a sua verdade, como desde Judas já se sabe, como desde Paulo já se conhece, posto que considerava anátema aqueles que pregassem evangelho diferente... do seu. Essa dificuldade da Teologia tem explicações psicológicas e históricas justificáveis. Todavia, talvez ela, sua afirmação, apenas preparasse, na alma, o caminho para o parágrafo seguinte: "O caminho heurístico é difícil, pedregoso, talvez interditado, para a teologia" (§ 4). A presença desse "talvez" é como aquele Übermench lá embaixo - pode significar mais de uma coisa, mas, a rigor, ali, significa só uma - mas qual? É talvez, pensando na Teologia tal qual ela é, coisa de teólogos, e sabendo-se quem são os teólogos? Ou é talvez no sentido de que o conteúdo da Teologia é caro demais para ver-se dissolvido por métodos desrespeitosos?

4. Finalmente, aquela declaração sua: "A varanda dos descansos contraditórios em si é ponto de chegada do caminhante que insiste na autonomia. É vislumbre de liberdade. Mas desgosto de dizer que é o lugar do Übermensch nietzscheano" (§ 6). Bem, se aquela varanda é o lugar-tempo em que você me colocou, e, bem, se agora põe, nela, o Übermensch, bem, das duas uma - ou me pões na compnhia dele, ou, eita!, faz-me ele!

5. E, aí, lendo o que você diz dele, entre intentio lectoris e intentio auctoris, amarrando nele uma pedra e o afundando no Mar Gadamer, só me resta interpretar que o "louvor da autonomia" preparava uma denúncia, uma advertência, uma admoestação: está-se próximo demais de Nietzsche e, assim, próximo demais do que foi feito com ele, eventualmente, por meio, até, de intenções "originais". Alertas-me, sobre meu caminho?, é isso?

6. Deixou-me pensativo. Muito. Essa segunda leitura foi-me experiencialmente nervosa, porque me fez brigar comigo mesmo (sou muitos, talvez uma casta!) todo o tempo, como a dizer, não, ele não disse, disse, sim, não, não disse, não, claro que disse, segue as pistas, tá, mas mesmo assim, não disse não, você é quem sabe, mas que está escrito, está. Tá, mas o que isso significa?


OSVALDO LUIZ RIBEIRO


PS. Haroldo, não é, ainda, minha resposta ao parágrafo seis, que merece algo mais refletido, e, agora, estando no Seminário, e não em casa, nao tenho, à mão, meu amigo. Mais tarde, contudo...

(2008/81) Reflexões a caminho


1. “Meu mundo é um mundo onde não há descanso, e, contudo, ele é puro descanso.” Suprema contradição aristotélica. Terceiro excluído. No entanto, coincidentia opositorum: o espaço da autonomia! É um lugar-tempo invejável esse do Osvaldo. É conquista, e é graça.

2. Para lá conduzem os caminhos da nua e crua busca heurística, a mais profunda consciência do método, do caminho por meio do qual chega-se a saber o que se sabe, pergunta-se, ainda que no silêncio, com base em que o interlocutor pode dizer o diz. “As percepções mais valiosas são alcançadas por último; mas as percepções mais valiosas são os métodos” (Nietzsche, O Anticristo, [Cia das Letras, 2008] p.18).

3. Este caminho é difícil para a teologia. Eu sei. Insisto comigo mesmo, e com os outros, que há que se ter, cada vez mais, clareza dos caminhos para a construção do saber ‘teológico’. Ele É sabedoria. É poesia. É estética. É política. Mas é também ‘saber’.

4. O caminho heurístico é difícil, pedregoso, talvez interditado, para a teologia. A estética e a política são caminhos paralelos àquele. O homo simbolicus continuará a ser o que é: isso. Vivemos das construções simbólicas. Representamos. Imaginamos. Lançamos as redes das palavras, que constroem mundos. Porém, devemos dar-nos conta disso. Devemos sempre lembrar que nós lançamos as redes. Ter consciência desse processo é descoberta; é construir um saber, porque se desvenda os caminhos. É andar nu. E temos nossos problemas com a nudez.

5. Com a rede a lançar ou lançada iniciado está a inserção no universo do político. Perceber, catalogar, analisar os resultados desta inserção é construção de saber. Trata-se de investigar os caminhos por meio dos quais as palavras provocam o que provocam: o movimento das pessoas. Na construção desse saber a teologia deve(ria) ter o seu lugar. É o discurso sistematizado sobre um patrimônio não material, a economia dos bens simbólicos.

6. A varanda dos descansos contraditórios em si é ponto de chegada do caminhante que insiste na autonomia. É vislumbre de liberdade. Mas desgosto de dizer que é o lugar do Übermensch nietzscheano. Porque neste ponto não há como negar Gadamer em seu tópico sobre a ‘história dos efeitos’. Pois por maior, e necessária, que seja a crítica à teia simbólica ocidental, o darwinismo de Nietzsche permitiu, ou deu causa, que sua busca de autonomia pudesse ser cooptada pelo maior fenômeno político da Europa central: o nazismo. As releituras, neste caso, da intentio lectoris, permitiram soluções políticas desastrosas. Basta ler: “O fato de as raças fortes da Europa do Norte não terem rechaçado o Deus cristão certamente não honra o seu talento religioso, para não falar do gosto. Elas tinham de acabar com um produto tão decrépito e doentio da décadence.” (O Anticristo, p.24). A intentio auctoris fluiu na releitura, e no uso. A crítica do uso político da teia simbólica redundou em ações políticas que “tinham que acabar” não só com a teia, mas também com os fazedores originais daquela teia.

7. Almejo a varanda do contraditório do descanso. Porque ele é autonomia. É liberdade. "Um senhor livre de tudo e de todos..." Mas cuido, ainda demais, do político. E por isso ainda não sou, ainda, livre. Almejo. Vejo.

HAROLDO REIMER
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